Séries Por Elas tem como prioridade máxima noticiar e discutir questões que envolvam o universo das séries. No entanto, vez ou outra, sentimos a necessidade de abordar questões que passem pelo cinema, música e artes de maneira geral. Para isso, criamos a coluna Tudo Por Elas. Nela, uma vez por semana, discutiremos sobre alguma questão do universo midiático e a mulher que não esteja relacionado às séries.

O filme de super-herói mais avaliado no Rotten Tomatoes (entre Marvel e DC)”. “O lançamento mais aguardado do primeiro semestre de 2018″. “O filme mais prestigiado do universo cinematográfico da Marvel”. Pantera Negra acaba de estrear no Brasil e já reúne muitas congratulações, mas a verdade é que trata-se de muito mais do que simplesmente um filme de ação. Pantera Negra vai além da história que será contada em Vingadores: Guerra Infinita, falando, com maestria, sobre representatividade, ancestralidade e a luta do povo negro no mundo inteiro.

Sem deixar de dar um espetáculo em roteiro e cenas de ação, esperadas de um filme do gênero, Pantera Negra apresenta muitas referências a história e cultura negra do mundo todo, começando por suas origens na África, com o país utópico de Wakanda. Até conflitos atuais do povo negro, representados principalmente no vilão Killmonger, de Michael B. Jordan, que se inspirou em Cidade de Deus para sua atuação.

E, nesse universo mágico, onde uma civilização se desenvolve longe de colonizadores brancos, contando somente com Vibranium, um metal raro e poderoso, reina T’Challa, interpretado pelo incrível Chadwick Boseman. O herói é apresentado ainda como príncipe, em Capitão América: Guerra Civil, enquanto acompanhava seu pai, o então rei T’Chacka, em uma conferência da ONU. Naquele cenário, T’Challa não consegue impedir a morte do pai, decorrente a uma explosão de poderes da Feiticeira Escarlate. Pantera Negra então se inicia com seu retorno a Wakanda para ser coroado e assumir definitivamente os poderes milenares e ancestrais da Pantera Negra.

O trecho a seguir contém spoilers do filme

Inicia-se então uma jornada poderosa de ancestralidade, desde o ritual de coroação, até a visita que T’Challa é capaz de fazer a seu pai e outros Panteras Negras do passado. Conhecemos um herói forte e justo, sensível e vulnerável, cuja origem e desenvolvimento se devem somente a sua herança racial. E isso já o torna único, diferente de tudo o que conhecemos no mundo real.  

Mas o mundo real foi até Wakanda para enfrentar T’Challa, por meio do vilão Killmonger que, apesar do sangue real wakandiano, cresceu na realidade de violência policial e racismo de Oakland, nos Estados Unidos. Ele deseja usar a tecnologia e armamento de Wakanda para revidar as injustiças que viveu. T’Challa e Killmonger são reais, com propósitos, mas são opostos, o que invoca uma disputa épica.

E na vanguarda dessa batalha, as mulheres

Grande destaque para a cientista e ladra de cenas Shuri, interpretada por Letitia Wright. A irmã genial de T’Challa é responsável por todo o armamento, automação e às vezes até medicina utilizada no filme. Sua inteligência também está presente no senso de humor, colocando-a muitas vezes como destaque do filme.

Em um universo em que Tony Stark e Bruce Banner existem, Shuri é tida nos quadrinhos como a pessoa mais inteligente do mundo. Assim como esses heróis, ela não se limita a ficar atrás dos computadores e participa das batalhas ao lado do Pantera Negra.

Já a espiã Nakia, personagem de Lupita Nyong’o, tem uma construção como interesse amoroso do herói muito diferente do que estamos acostumados. Ela tem como objetivo se infiltrar em tribos que escravizam mulheres aos redores de Wakanda e libertá-las, além de proteger o seu país tão amado. Em nome dessa vocação, deixou a possibilidade de tornar-se rainha e casar-se com o homem que ama.


À primeira vista, esta não é mesmo uma história muito romântica, mas é refrescante pois foge dos estereótipos de amor incondicional que Hollywood nos apresenta. Dá um propósito à heroína e tira a mulher da posição de assistente técnica e emocional por trás do super-herói. Nakia luta ao lado do Pantera Negra e não só porque o ama, mas porque tem incentivos pessoais. Os roteiristas de Dr. Estranho precisam aprender com o pessoal de Pantera Negra!

Por fim, mas não menos importante, vale destacar que o exército real, chamado de Dora Milaje, é composto somente por mulheres. O filme não justifica e não precisa. Simplesmente porque sim. A frente desse exército e da revolta contra Killmonger, a general Okoye, personagem de Danai Gurira, representa todas as grandes mulheres negras que, como sempre, estão na vanguarda de movimentos por direitos raciais e contra racismo. A queda de um dos maiores exércitos de Wakanda diante de seu cajado foi forte, simbólico, emocionante!

Eu só queria ter visto muito mais dessas mulheres, seus passados, suas histórias. Algo a se cobrar de possíveis continuações.

A queda do vilão compreendido

Killmonger é uma representação de quem não teve representação, de quem não teve oportunidades e que, além de todos os problemas pessoais e familiares, foi derrubado e segregado por questões raciais. Ele é a raiva com razão das pessoas negras contra o sistema. É a necessidade de fazer algo, mesmo diante da impotência. Não é à toa que ele tem sido um vilão tão bem recebido ou, melhor ainda, compreendido.

Ele tinha que ser detido para que esta raiva não causasse guerra, mas escolheu morrer para mostrar ao olhar privilegiado de T’Challa que há muito mais no mundo do que Wakanda lhe ensinou. Então, Killmonger parte com uma reflexão impactante sobre escravidão, encarceramento em massa da população negra e a luta pela liberdade.  

A magia de Wakanda

O confronto com Killmonger incentivou T’Challa a ir contra os ensinamentos de seus ancestrais e expôr Wakanda por um bem maior: o trabalho de assistência social para cuidar de jovens negros em Oakland. Inicialmente, esta conclusão me frustou um pouco. Será que assistência social é a solução em um mundo em que tantas existem e não conseguem mudar tanta coisa?

Mas então lembrei que, na história do Pantera Negra, Wakanda seria muito mais do que capaz de mudar muita coisa. Esta é a beleza da utopia.