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O Filme Harriet é Baseado em uma História Real?

Lançado em 2019, Harriet é um drama biográfico que narra a extraordinária vida de Harriet Tubman, uma das maiores heroínas da história americana. Dirigido por Kasi Lemmons e estrelado por Cynthia Erivo, o filme retrata a fuga de Tubman da escravidão e seu papel como condutora na Ferrovia Subterrânea. Mas será que Harriet é fiel à história real? Neste artigo, exploramos a base factual do filme, suas liberdades criativas e o impacto da narrativa.

A História Real de Harriet Tubman

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Imagem: RTRO / Alamy Stock Photo

Harriet é, sim, baseado na história real de Harriet Tubman, nascida Araminta “Minty” Ross por volta de 1822 em Dorchester, Maryland. Escravizada na fazenda Brodess, Tubman sofreu abusos físicos e traumas, incluindo uma lesão na cabeça causada por um peso de ferro atirado por um capataz entre 1834 e 1836, que resultou em dores de cabeça, convulsões e narcolepsia pelo resto da vida. Ela acreditava que suas visões, frequentemente mostradas no filme como mensagens divinas, eram orientações de Deus, uma crença reforçada por sua fé cristã fervorosa.

Em 1849, enfrentando a ameaça de ser vendida após a morte de seu proprietário, Edward Brodess, Tubman fugiu sozinha. E assim, ela percorreu cerca de 100 milhas até a Pensilvânia. Lá, ela adotou o nome Harriet, em homenagem à mãe, e Tubman, do marido, John Tubman, um homem livre. Após alcançar a liberdade, ela retornou ao Sul em cerca de 13 missões ao longo de uma década. Ao todo, ajudou cerca de 70 escravizados a escapar pela Ferrovia Subterrânea, um sistema de casas seguras e ativistas antiescravagistas. Sua coragem lhe valeu o apelido de “Moisés”, em referência ao profeta bíblico que libertou os hebreus.

Fidelidade Histórica de Harriet

O filme captura momentos marcantes da vida de Tubman com notável precisão. Por exemplo, a cena em que ela examina as mãos sob a luz do sol ao cruzar a fronteira da Pensilvânia reflete suas próprias palavras: “Olhei para minhas mãos para ver se eu era a mesma pessoa. Havia uma glória sobre tudo; o sol brilhava como ouro.” Sua devoção religiosa, o uso de pistolas para proteção e intimidação de escravizados hesitantes, e sua habilidade de planejar fugas aos sábados para atrasar a publicação de anúncios de fuga são detalhes historicamente precisos.

Tubman também serviu como espiã e enfermeira durante a Guerra Civil Americana. Em suma, ela liderou a incursão em Combahee Ferry, que libertou mais de 750 escravizados. Sua biografia por Sarah Bradford, Scenes in the Life of Harriet Tubman (1869), foi uma fonte primária para o filme, garantindo autenticidade em muitos aspectos.

Liberdades Criativas no Filme

Embora Harriet seja fundamentado em fatos, ele toma algumas liberdades criativas para intensificar o drama e condensar a narrativa em duas horas. Personagens como Marie Buchanon (Janelle Monáe), uma proprietária de pensão livre, e Gideon Brodess (Joe Alwyn), um jovem escravocrata, são fictícios. Marie, por exemplo, representa mulheres negras livres que ajudaram Tubman, enquanto Gideon simboliza a opressão dos proprietários de escravos. O caçador de escravos Bigger Long (Omar J. Dorsey) também é uma criação, embora caçadores negros existissem na época.

O filme sugere que Tubman assumiu seu nome ao chegar à liberdade. Porém, ela já usava Harriet Tubman após seu casamento, enquanto ainda era escravizada. Além disso, a linha do tempo é comprimida: sua reputação como “Moisés” e a passagem do Fugitive Slave Act de 1850 são mostradas como eventos mais próximos do que realmente foram. A cena em que Tubman descobre que seu marido, John, se casou novamente com uma mulher chamada Caroline é precisa. Porém, sua primeira missão de resgate não foi para buscá-lo, como o filme sugere, e sim para salvar outros familiares.

A Representação de Tubman por Cynthia Erivo

Cynthia Erivo entrega uma atuação poderosa, capturando a força e a espiritualidade de Tubman. Sua indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro reflete o impacto de sua interpretação, que muitos críticos, como Tomris Laffly do Roger Ebert, elogiaram por transmitir “o espírito brilhante e a coragem” de Tubman. Apesar de algumas críticas ao diálogo ocasionalmente moderno e a momentos melodramáticos, Erivo carrega o filme, tornando-o acessível e emocionalmente ressonante.

A representação de Tubman como uma heroína jovem e ágil, em vez de uma figura mais velha, como frequentemente imaginada, é fiel à sua idade na época (cerca de 27 anos em 1849). Kasi Lemmons destacou a intenção de mostrar Tubman como uma líder “feroz” e “super-heroína da vida real”, desafiando estereótipos de figuras históricas “suaves”.

Impacto Cultural e Histórico

Harriet é o primeiro longa-metragem dedicado exclusivamente a Tubman, uma figura icônica que, surpreendentemente, não havia recebido tal destaque antes. Sua história inspirou gerações, desde o movimento pelos direitos civis até a luta pelo sufrágio feminino, na qual ela também atuou, participando de eventos como a convenção da National Association of Colored Women em 1896. O filme, embora focado em sua década na Ferrovia Subterrânea, omite aspectos posteriores de sua vida, como seu casamento com Nelson Davis, a adoção de sua filha Gertie e a fundação de um lar para idosos em 1908.

A escolha de condensar a narrativa permite um foco na coragem e no impacto imediato de Tubman. Porém, historiadores como Kate Clifford Larson, consultora do filme, notaram que a precisão total é sacrificada em prol da dramaticidade. Ainda assim, o filme mantém a essência emocional da luta de Tubman, destacando sua importância na história americana.

Por que Harriet Parece tão Real?

A autenticidade de Harriet vem da combinação de fontes históricas, como as biografias de Bradford e Larson, e da direção apaixonada de Lemmons, que buscou retratar Tubman como uma figura multifacetada. A inclusão de detalhes reais, como suas visões espirituais e estratégias astutas, reforça a conexão com a história verdadeira. A trilha sonora, incluindo a canção “Stand Up” de Erivo, indicada ao Oscar, adiciona profundidade emocional, enquanto a fotografia captura a tensão das fugas.

Embora personagens fictícios e uma linha do tempo ajustada sejam usados, essas escolhas servem para destacar a relevância de Tubman para públicos modernos, como notado por críticos do ScreenRant. O filme não é uma aula de história, mas uma celebração da resiliência e do legado de uma mulher que mudou o curso da história.

Harriet se baseia na história real de Harriet Tubman, capturando sua fuga da escravidão e seu papel heroico na Ferrovia Subterrânea com uma mistura de precisão histórica e licenças criativas. A atuação de Cynthia Erivo, aliada à direção de Kasi Lemmons, traz à vida uma figura que personifica coragem e fé. Disponível na Netflix, Harriet é essencial para quem busca uma história inspiradora de luta pela liberdade. Assista e mergulhe na jornada de uma das maiores heroínas da América.

Magdalena Schneider
Magdalena Schneider
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