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Crítica de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Vale a Pena Assistir o Filme?

5 min de leitura
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Lançado nos cinemas no início de 2026, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria chega como uma proposta incômoda, provocativa e deliberadamente fora do eixo do cinema comercial. A diretora e roteirista Mary Bronstein constrói uma obra que caminha na fronteira entre o humor ácido e o drama psicológico, apostando menos na narrativa tradicional e mais na experiência emocional do espectador. É um filme que exige entrega, atenção e, principalmente, disposição para lidar com o desconforto.

Desde os primeiros minutos, fica claro que não se trata de uma comédia convencional. O riso surge, mas quase sempre atravessado por culpa, estranhamento ou identificação dolorosa. O longa não busca agradar. Busca provocar.

A atuação de Rose Byrne, em especial, sustenta grande parte do impacto do filme e eleva o material a um patamar artístico relevante dentro do cinema independente contemporâneo.

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Uma narrativa que rejeita o conforto

A história acompanha uma mulher em colapso emocional, tentando equilibrar maternidade, trabalho, relacionamentos e identidade pessoal. O roteiro evita explicações fáceis e se recusa a organizar os conflitos em uma linha clara de causa e consequência. Tudo parece acontecer ao mesmo tempo, de forma caótica, refletindo o estado mental da protagonista.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria aposta em uma estrutura fragmentada, com diálogos muitas vezes sobrepostos e situações que começam sem aviso e terminam sem resolução. Essa escolha narrativa pode afastar parte do público, mas é coerente com a proposta do filme: retratar a exaustão feminina em um mundo que exige desempenho constante.

Não há uma jornada clássica de transformação. O que existe é um retrato cru de sobrevivência emocional. O filme não oferece redenção nem aprendizado óbvio. Ele observa.

Rose Byrne em um dos papéis mais corajosos da carreira

Conhecida por trabalhos que transitam entre a comédia e o drama, Rose Byrne entrega aqui uma performance intensa, física e emocionalmente desgastante. Sua personagem está quase sempre à beira do colapso, e a atriz não suaviza esse estado. Pelo contrário, ela o expõe de forma desconcertante.

O corpo da atriz comunica tanto quanto suas falas. O cansaço, a irritação constante, a dificuldade de respirar em meio às demandas diárias. Byrne constrói uma personagem que não busca empatia fácil. Em muitos momentos, ela é rude, impaciente e contraditória. Justamente por isso, soa real.

É uma atuação que incomoda porque escancara sentimentos socialmente reprimidos, sobretudo quando se trata da experiência materna e feminina. O filme não idealiza a mulher forte. Ele mostra a mulher esgotada.

Humor ácido como mecanismo de defesa

Apesar do peso dramático, o longa se vale de um humor seco, quase cruel. As situações absurdas surgem como extensões naturais da rotina da protagonista. O riso não vem do alívio, mas do reconhecimento.

Mary Bronstein utiliza o humor como ferramenta narrativa, não como válvula de escape. Ele reforça o desconforto em vez de aliviá-lo. Em várias cenas, o espectador ri e logo em seguida se questiona por que riu.

Essa escolha pode ser interpretada como um comentário sobre a forma como a sociedade minimiza o sofrimento feminino, transformando-o em piada ou exagero. O filme devolve esse riso como crítica.

Uma direção que aposta no incômodo

A direção de Mary Bronstein é precisa ao criar uma atmosfera opressiva sem recorrer a grandes artifícios técnicos. A câmera muitas vezes permanece próxima demais dos rostos, invadindo o espaço pessoal das personagens. Os enquadramentos fechados reforçam a sensação de aprisionamento.

A trilha sonora é usada com parcimônia, e o silêncio tem papel fundamental. Há cenas longas em que nada acontece externamente, mas tudo se movimenta internamente. É um cinema que confia na inteligência do público, ainda que isso signifique perder parte dele no caminho.

Visualmente, o filme evita a estética polida. Os ambientes são comuns, às vezes até desagradáveis. Essa opção reforça o realismo emocional da narrativa.

Um olhar feminino que dialoga com o espírito de Séries Por Elas

Pensando no recorte editorial de Séries Por Elas, é impossível ignorar o quanto Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria dialoga com narrativas centradas na experiência feminina sem filtros. O filme não se preocupa em tornar sua protagonista palatável ou exemplar. Ela existe como é.

Há um comentário claro sobre maternidade compulsória, culpa, cobrança social e invisibilidade emocional. Temas recorrentes em séries protagonizadas por mulheres complexas, falhas e profundamente humanas.

O longa se alinha a produções que entendem que representar mulheres não significa exaltá-las o tempo todo, mas permitir que elas sejam contraditórias. Nesse sentido, o filme contribui para um debate necessário sobre saúde mental, identidade e exaustão emocional feminina.

Para quem o filme funciona — e para quem não funciona

Este não é um filme para todos os públicos. Quem busca uma comédia leve ou um drama com resolução clara provavelmente sairá frustrado. O ritmo irregular e a ausência de respostas diretas exigem paciência.

Por outro lado, espectadores que apreciam cinema autoral, narrativas intimistas e personagens femininas complexas encontrarão aqui uma obra potente. É um filme que permanece depois que termina, não por suas cenas memoráveis, mas pelo desconforto que deixa.

Veredito final

  • Nota final: 4 de 5 ⭐⭐⭐⭐✨

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme corajoso, imperfeito e necessário. Ele não tenta ser simpático nem universal. Seu mérito está justamente em abraçar a especificidade da experiência que retrata.

Mary Bronstein entrega uma obra que provoca reflexão e debate, enquanto Rose Byrne sustenta o filme com uma atuação visceral e honesta. É um retrato duro da exaustão emocional feminina em um mundo que exige demais e oferece pouco em troca.

Não é uma experiência confortável, mas é uma experiência relevante.

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