
Crítica de Os Malditos: Vale a Pena Assistir o Filme?
Os Malditos, dirigido por Roberto Minervini e lançado em 18 de setembro de 2025, marca a estreia do cineasta italiano em um drama histórico de ficção pura. Ambientado na Guerra Civil Americana de 1862, o filme segue uma companhia de soldados voluntários da União enviados para patrulhar territórios inexplorados no Oeste. Com um elenco de não profissionais, incluindo René W. Solomon, Jeremiah Knupp e Cuyler Ballenger, a produção venceu o prêmio de Melhor Direção na seção Un Certain Regard de Cannes 2024. Mas será que essa visão minimalista e contemplativa convence? Nesta crítica, analiso a trama, o estilo e o impacto para ajudar você a decidir.
VEJA TAMBÉM:
- Os Malditos: Elenco, Onde Assistir e Tudo Sobre
- Os Malditos: História Real Por Trás do Filme
- Os Malditos, final explicado: O que acontece?
Uma Jornada de Sobrevivência no Oeste Gelado
A história se desenrola no inverno rigoroso de 1862. Uma tropa de soldados da União, composta por voluntários comuns, recebe a ordem de explorar as fronteiras ocidentais, longe do front principal da Guerra Civil. Sem inimigos confederados à vista, os homens enfrentam a natureza hostil: neve implacável, fome e o isolamento de um território virgem. A missão, inicialmente clara, perde o sentido à medida que o grupo avança para o norte, questionando o propósito de sua lealdade ao país e a Deus.
Minervini não busca ação épica. Em vez disso, ele foca na rotina da sobrevivência: marchas exaustivas, fogueiras noturnas e silêncios opressivos. Filmado em Montana com atores locais, como bombeiros e membros da Guarda Nacional, o filme usa improvisação para capturar diálogos autênticos. Discussões filosóficas sobre fé, política e o absurdo da guerra surgem organicamente ao redor do fogo. Essa abordagem evoca o neorrealismo de Ken Loach, priorizando a humanidade sobre o espetáculo.
O diretor, conhecido por documentários como The Other Side (2015), constrói uma narrativa que ecoa o presente. Os soldados, como os marginalizados que Minervini retratou antes, carregam dúvidas existenciais. Um deles recita salmos para combater o medo; outro lamenta a distância da família. A ausência de vilões claros reforça o tema central: a guerra como uma força impessoal que devora almas comuns.
Elenco Não Profissional e Diálogos Improvisados
René W. Solomon lidera como o sargento calmo, cuja autoridade se desfaz no frio. Sua presença estoica transmite a fadiga de um líder sem respostas. Jeremiah Knupp e Cuyler Ballenger, como soldados mais jovens, trazem vulnerabilidade crua. Ballenger, em particular, destaca-se em cenas de desespero silencioso, onde o corpo fala mais que palavras.
O elenco, todo amador, viveu no set por dois meses para imersão total. Isso resulta em performances naturais, mas nem sempre polidas. Alguns monólogos se arrastam, como debates teológicos que testam a paciência. Ainda assim, a autenticidade compensa: os atores usam seus nomes reais, borrando linhas entre ficção e realidade. Minervini elogia essa escolha em entrevistas, dizendo que ela captura a essência de homens comuns em crise.
Comparado a filmes como Meek’s Cutoff (2010), de Kelly Reichardt, Os Malditos compartilha o foco em personagens isolados. Mas aqui, a improvisação adiciona camadas imprevisíveis, tornando cada interação uma descoberta. O resultado é um retrato humano, não heróico, de soldados que poderiam ser vizinhos nossos.
Direção Minimalista e Estilo Documental
Roberto Minervini assina roteiro e direção, com fotografia de Carlos Alfonso Corral. O visual é impressionista: planos longos em tons azulados capturam a vastidão nevada de Montana. A câmera observa de longe, como um etnógrafo, evitando cortes rápidos ou música dramática. O som ambiente – vento uivante, fogos crepitando – domina, criando uma imersão sensorial.
A abertura é memorável: lobos devorando uma presa na floresta, simbolizando a selvageria da natureza e da guerra. Sequências assim estabelecem o tom contemplativo. Minervini filma como um documentário, mas com toques ficcionais, como a progressão lenta para um confronto inevitável. Essa hibridez, marca de sua obra, ganhou elogios em Cannes por sua ousadia.
No entanto, o minimalismo tem limites. Com 89 minutos, o filme às vezes parece uma recriação histórica prolongada, sem tensão acumulada. Críticos notam que os personagens ficam isolados visualmente, dificultando laços emocionais. A trilha sonora sutil de Corral ajuda, mas não preenche os vazios narrativos.
Exploração da Absurdidade da Guerra
Os Malditos transcende o gênero western ao questionar o patriotismo. Os soldados debatem a União: é uma causa divina ou uma ilusão? Um recruta menciona a escravidão, mas o foco é no custo pessoal – famílias destruídas, fé abalada. Minervini, imigrante italiano radicado nos EUA, usa isso para criticar divisões persistentes, ecoando o atual Civil War (2024) de Alex Garland.
O filme evita maniqueísmo: não há heróis ou vilões, apenas homens perdidos. Isso reflete a visão do diretor sobre a América marginalizada, vista em What You Gonna Do When the World’s on Fire? (2018). A guerra surge como uma metáfora para o absurdo humano, onde a sobrevivência diária eclipsa ideais grandiosos.
Em um ano de blockbusters bélicos, Os Malditos se destaca pela sutileza. Ele convida à reflexão sobre sacrifício e perda, sem respostas fáceis. Como diz o New York Times, é um estudo lacônico da minutiae da sobrevivência, relevante em tempos divididos.
Comparação com Outras Obras de Guerra
Diferente de épicos como Glória (1989), Os Malditos ignora batalhas grandiosas. É mais próximo de The Outlaw Josey Wales (1976), de Eastwood, mas sem tiroteios. A influência de Reichardt é clara na paciência narrativa, mas Minervini adiciona um viés europeu, crítico ao americanismo.
Comparado a documentários de guerra, como Restrepo (2010), o filme borra gêneros, usando não atores para autenticidade. Em Cannes, superou concorrentes como Grand Tour, de Miguel Gomes, pela crueza. No Rotten Tomatoes, acumula 80% de aprovação, elogiado por sua poesia estética, apesar de alguns acharem vazio.
No Brasil, na 48ª Mostra SP, foi visto como uma jornada existencial coletiva, mergulhando nas entranhas do precipício humano. Essa recepção reforça seu apelo global.
Vale a Pena Assistir a Os Malditos?
Os Malditos não é para todos. Seu ritmo lento e foco introspectivo podem frustrar quem busca ação. Mas para fãs de cinema autoral, é uma joia. A direção premiada de Minervini e a imersão sensorial valem o esforço. Com atuações cruas e temas atemporais, o filme provoca debates sobre guerra e humanidade.
Assista se gosta de There Will Be Blood ou No Country for Old Men. É uma experiência que fica na memória, questionando o que nos leva ao abismo. Em cartaz nos cinemas, ou em festivais, é uma oportunidade rara de ver o cinema como arte viva.
Roberto Minervini transforma a Guerra Civil em uma meditação poética sobre perda e dúvida. Os Malditos brilha pela autenticidade, com um elenco amador que humaniza a história. Apesar de momentos arrastados, sua visão minimalista e crítica social o elevam acima do comum. Em 2025, um ano de polarizações, o filme ressoa como um lembrete sutil do custo da divisão. Vale a pena? Sim, para quem busca profundidade além do entretenimento. Uma obra que, como seus soldados, resiste ao esquecimento.
Siga o Séries Por Elas no Twitter e no Google News, e acompanhe todas as nossas notícias!



