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Crítica de Alice & Só: O Road Movie da Incompletude e a Estética do Despertar

Alice & Só não é apenas um filme sobre uma viagem de carro; é uma autópsia lírica sobre a juventude que tenta se encontrar em um mapa que já não faz mais sentido. Dirigido por Daniel Lieff, com roteiro de Álvaro Campos e Matheus Souza, o filme é uma pérola do cinema nacional que, infelizmente, encontra-se atualmente indisponível nas principais plataformas de streaming, tornando-se quase um item de colecionador para os amantes da sétima arte. Se você tiver a oportunidade de vê-lo em alguma mostra ou acervo, não hesite: é um retrato geracional que dói e cura na mesma medida.

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A Lente “Séries Por Elas”: A Jornada da Heroína em Solo Instável

No portal Séries Por Elas, nossa missão é dissecar como a agência feminina é construída fora dos clichês da “donzela em apuros” ou da “mulher fatal”. Em Alice & Só, a personagem de Bruna Linzmeyer subverte o arquétipo da Manic Pixie Dream Girl. Alice não está ali para salvar a alma de um homem ou ser o catalisador de sua felicidade; ela está em uma busca visceral por sua própria voz, literalmente e metaforicamente.

O filme dialoga com a mulher contemporânea ao expor a ansiedade da escolha. Em um mundo de possibilidades infinitas, o “só” do título carrega uma ambiguidade poderosa: trata-se de Sócrates (o personagem de Johnny Massaro) ou da solidão inerente ao processo de amadurecimento? Para nós, a resposta reside na forma como Alice ocupa o espaço da tela. Ela é expansiva, confusa, irritante e profundamente humana. O roteiro permite que ela falhe, que ela mude de ideia e que ela não termine a jornada com todas as respostas — uma representação necessária da vida real, onde o “felizes para sempre” é substituído pelo “seguindo em frente”.

A obra toca em um ponto sensível da vivência feminina: o direito ao erro sem o peso do julgamento social esmagador. Quando Alice decide pegar a estrada, ela está rompendo com as expectativas de uma linearidade que a sociedade impõe às jovens mulheres. Ela não é uma coadjuvante na vida de Só; ela é a protagonista de sua própria incerteza.

Anatomia do Espetáculo: A Estética do Afeto e o Ritmo da Estrada

Para analisar Alice & Só, é preciso um olhar clínico sobre a sua mise-en-scène. O filme opera em uma frequência de temperatura de cor que oscila entre o calor nostálgico do sol de estrada e o azul frio das dúvidas noturnas. A fotografia aproveita a luz natural para criar uma sensação de intimidade documental, quase como se fôssemos o terceiro passageiro naquele carro.

A montagem é um dos grandes trunfos da obra. O ritmo da edição não é apressado; ele respira conforme os diálogos. Há uma cadência de “conversa de bar” que transita para o silêncio reflexivo em segundos. Isso é fundamental para que a química entre Bruna Linzmeyer e Johnny Massaro floresça. Ambos os atores entregam performances fundamentadas na escuta. Não é sobre quem fala mais alto, mas sobre como um reage ao micro-movimento facial do outro. Massaro, com sua vulnerabilidade característica, serve como o contraponto perfeito para a energia cinética de Linzmeyer.

“A estrada não é o caminho entre dois pontos, mas o espaço onde deixamos quem fomos para trás.”

Do ponto de vista psicológico, o filme explora o trauma da expectativa. Os personagens carregam o peso de serem “promessas” de sucesso. Alice, com seu talento musical, e Só, com sua lealdade quase paralisante, são arquétipos do jovem adulto do século XXI: superinformados, porém emocionalmente desabrigados. O roteiro de Matheus Souza e Álvaro Campos é sagaz ao usar o humor como um mecanismo de defesa para esconder feridas mais profundas sobre abandono e medo do futuro.

A direção de Daniel Lieff evita os maneirismos do cinema comercial de comédia romântica. Ele prefere focar nos detalhes: uma mão que hesita antes de tocar o rádio, o olhar perdido na paisagem que passa rápido demais. É um filme de texturas, onde o som do motor e a trilha sonora indie brasileira compõem uma colcha de retalhos emocional que envolve o espectador em uma melancolia reconfortante.

Veredito e Nota

NOTA: 4/5

Alice & Só é uma obra que ganha força no detalhe e na honestidade. É um filme que não tenta ser maior do que a vida, e é exatamente por isso que ele se torna gigante para quem assiste. É um lembrete de que, às vezes, precisamos nos perder geograficamente para nos encontrarmos internamente.

  • Nota: ⭐⭐⭐⭐ (4 de 5 estrelas)
  • Onde Assistir (Oficial): Atualmente indisponível em plataformas de streaming.

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