Como jornalista de cultura e fact-checker, inicio esta análise com um selo de cautela para os espectadores do Séries Por Elas: o filme A Outra (The Other Boleyn Girl, 2008) é uma obra inspirada livremente em eventos históricos. Embora utilize os nomes de figuras reais que moldaram o destino da Inglaterra, a produção baseia-se no romance de Philippa Gregory, que prioriza o melodrama e a rivalidade feminina sobre o rigor documental.
Se você busca a verdade absoluta sobre os Tudors, encontrará aqui uma narrativa que frequentemente sacrifica a cronologia e a psicologia real em prol do entretenimento cinematográfico.
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O Contexto Histórico de A Outra
A trama se desenrola na Inglaterra do século XVI, um período marcado pela instabilidade religiosa e pela obsessão do Rei Henrique VIII (vivido por Eric Bana) em obter um herdeiro masculino para garantir a sucessão da dinastia Tudor.
As figuras centrais são as irmãs Ana Bolena (Natalie Portman) e Maria Bolena (Scarlett Johansson). Na vida real, a família Bolena era ambiciosa e buscava ascensão social através da proximidade com a coroa.
O momento sociopolítico era de ruptura: para se casar com Ana, o Rei rompeu com a Igreja Católica Romana, dando início à Reforma Inglesa. No entanto, a relação entre as irmãs e o timing de seus envolvimentos com o monarca são os pontos onde a história real mais diverge da tela.
O Que a Tela Acertou?
Apesar das liberdades criativas, a produção dirigida por Justin Chadwick entrega acertos notáveis:
- Fidelidade Estética: O figurino e a direção de arte capturam com precisão a opulência e a claustrofobia da corte de Henrique VIII. O uso dos icônicos colares com a letra “B” de Ana Bolena é um acerto histórico visual que remete aos retratos da época.
- O Destino de Ana: O clímax trágico no Pátio da Torre de Londres em 19 de maio de 1536 segue os fatos documentados: a condenação por adultério, incesto e alta traição, culminando em sua execução.
- A Existência de Maria: O filme resgatou do esquecimento a figura de Maria Bolena, que por séculos foi eclipsada pela irmã rainha, confirmando que ela foi, de fato, amante do rei antes de Ana.
Licenças Poéticas e Alterações
Aqui, a investigação jornalística revela onde o roteiro de Peter Morgan preferiu o drama à realidade:
- A Ordem das Irmãs: No filme, Ana parece ser a irmã mais velha e astuta, enquanto Maria é a caçula ingênua. Historiadores modernos concordam que Maria Bolena era provavelmente a primogênita.
- A Personalidade de Maria: A representação de Maria como uma “vítima passiva” e puramente bondosa é uma licença psicológica. Documentos sugerem que ela era uma mulher experiente na corte francesa antes de retornar à Inglaterra e que seu relacionamento com o rei pode não ter sido tão “forçado” pela família quanto o filme sugere.
- A Paternidade dos Filhos de Maria: O longa afirma categoricamente que Henrique VIII era o pai do filho de Maria. Historicamente, isso é incerto. Embora o tempo coincida, o rei nunca reconheceu as crianças de Maria (Catherine e Henry Carey) como seus bastardos, ao contrário do que fez com Henry FitzRoy.
- A Relação entre as Irmãs: A rivalidade mortal retratada é exagerada para fins narrativos. Não há evidências documentais de que Ana tenha traído Maria de forma tão cruel ou que as duas tenham competido tão diretamente pelo mesmo leito simultaneamente.
Quadro Comparativo: Realidade vs. Ficção
| Na Ficção (O Filme) | Na Vida Real (O Fato) |
| Ana Bolena é a irmã mais velha e manipuladora. | Maria Bolena era, muito provavelmente, a irmã mais velha. |
| Maria dá à luz um filho do Rei e é enviada ao campo logo após. | A paternidade é incerta; Maria permaneceu na corte por algum tempo e depois casou-se por amor. |
| Ana tenta seduzir o irmão, George Bolena, para engravidar. | A acusação de incesto foi fabricada politicamente para garantir a execução de Ana; não há provas de que ocorreu. |
| As irmãs vivem uma competição feroz e constante. | Elas tiveram períodos de proximidade e conflito, mas a “guerra” pessoal é uma construção dramática. |
Conclusão
A Outra cumpre o papel de despertar o interesse público por um dos períodos mais fascinantes da história, mas falha ao pintar Ana Bolena como uma vilã unidimensional e Maria como uma santa.
Do ponto de vista psicológico, o roteiro altera personalidades para criar o clássico arquétipo da “virgem vs. sedutora”. No entanto, a obra honra o legado das Bolenas ao mostrar como as mulheres eram usadas como peões em jogos de poder masculino, uma verdade documental que transcende as imprecisões do roteiro.
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