Lançada no último dia 11, a série britânica Sex Education é um presente para quem gosta de séries mais leves. O tom cômico que permeia toda produção não impede, contudo, que os temas abordados nos coloquem em profunda reflexão. O show é protagonizado por Otis (Asa Butterfield), um garoto comum, “invisível”, filho da excêntrica terapeuta sexual Jean – interpretada por ninguém menos do que Gillian Anderson.

O garoto tem como melhor amigo e fiel escudeiro Eric (Ncuti Gatwa), que é assumidamente gay entre os colegas. Maeve (Emma Mackey) é o estereótipo da menina rebelde que é diariamente hostilizada no colégio pela maneira como exerce sua sexualidade, além de sofrer constantes assédios nos corredores. Adam Groff (Connor Swindells) é o bad boy que vive praticando bullying com Eric. Outros personagens como Jackson (Kedar Williams-Stirling), o líder carismático da escola, e Aimee (Aimee Lou Wood), uma das populares, se mostram importantes para a trama desde o início.Até o terceiro episódio (que já é muita coisa, pois cada um possui 50 minutos em média), conseguimos mergulhar em uma série de conflitos sexuais adolescentes. Otis tem um forte bloqueio para se masturbar e não consegue entender o motivo. Adam, o valentão, se sente pressionado por ter fama de bem dotado e, em consequência, não consegue gozar.Maeve é conhecida por ter mordido o pênis de um boy, além ser assediada por muitos meninos. Eric é um dos únicos gays assumidos do colégio, o que dificulta muito sua vida amorosa. E tudo isso é tratado com muita leveza e humor, já que, afinal de contas, a sexualidade é parte das nossas vidas. E tudo bem.

Outros personagens secundários apresentam suas questões também, já que ao perceber as habilidades terapêuticas de Otis, Maeve sugere que eles iniciem uma espécie de clínica sexual para os alunos. Seguindo os passos da mãe, porém sem experiência empírica alguma, Otis passa a ajudar seus colegas e, com isso, se aproxima cada vez mais de Maeve. A construção dessa amizade/ship é bonita de ver. São dois “invisíveis”, excluídos, que se encontram e, de repente, vão construindo laços que podem ficar ainda mais fortes. Algumas dessas questões me fizeram lembrar da dinâmica do filme O Clube dos Cinco.

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Não só a sexualidade é assunto dos episódios, mas também as relações pessoais como um todo, em especial as familiares. É nítido o esforço da série em mostrar o impacto da educação doméstica na vida dos adolescentes. Há quem não tenha uma família presente e, aos 16 anos, precisa se virar sozinha – como é o caso de Maeve. Há quem viva sob alienação parental. Há também a mãe que exige que o filho viva o que ela mesma não conseguiu viver, despejando suas frustrações e expectativas nele. Há quem viva, dentro de casa, um ambiente altamente disciplinar e por aí vai.

A descoberta do corpo, o exercício da sexualidade, bem como aborto e abandono parental também são assuntos do seriado, que funciona quase como uma aula mesmo. Nesse sentido, a temática também se aproxima com o assunto da série animada Big Mouth. Em ambas, há um esforço de realizar um paralelo quase pedagógico com as vivências adolescentes e as vivências adultas. Nem todo mundo está bem com sua sexualidade ou com a forma de viver sua sexualidade e tudo bem. É como se Laurie Nunn, criadora da série, nos dissesse: “respira, vamos conversar sobre isso”.

A trilha sonora também é memorável e inclui nomes como Muddy Waters, Billy Idol, A-ha, The Smiths, Talking Heads, Billy Ocean, The Cure e outros. Vale dizer que foi difícil segurar as lágrimas nos pontos mais emocionantes desses episódios iniciais. Por mim, vale a pena continuar assistindo, e aprendendo com Sex Education.

Obrigada por isso, Netflix!

Todos os oito episódios de Sex Education estão disponíveis no serviço de streaming.