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Invisibilidade trans: precisamos falar sobre esse tema urgente, necessário e cruel!

Invisibilidade trans: precisamos falar sobre esse tema urgente, necessário e cruel!

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Representatividade é um tema recorrente aqui no Séries Por Elas. Não apenas por fazer parte da nossa linha editorial, mas por acreditarmos mais do que tudo em sua força e capacidade de transformar a vida das pessoas. Falamos um pouco sobre os conceitos da representatividade neste texto, mas explicando de forma rápida, sua importância se dá na medida em que nos ver representado significa compreender melhor o nosso lugar no mundo.

Sendo assim, uma representação positiva é fundamental: mulheres fortes, casais LGBTQ felizes, negros bem sucedidos, transgêneros vivendo seus cotidianos normalmente…  Se todas as diferenças sociais, minorias raciais, de orientação sexual e étnicas forem tratadas de maneira correspondente à realidade nos meios de comunicação, todo mundo vai poder se ver representado.

E, ainda que pareça estranho, dentro do próprio grupo de pessoas que não são comumente representadas pela mídia há aquelas que são menos ainda. De acordo com relatório feito pela Glaad, em 2016, dos 200 personagens LGBTQ exibidos nas séries de TV nas temporadas 20016/2017, somente 16 são transgênero. Destes, há doze mulheres e quatro homens. Dos 16, cinco são homossexuais, onze são brancos, quatro são negros e um é asiático americano.

A representatividade trans na televisão se faz extremamente necessária, já que, dentro da sigla LGBTQ, este público infelizmente é o que tem menos acesso à educação, saúde pública e mercado de trabalho. Isso sem falar em todos as outras esferas da vida que lhes são cerceadas pelo simples fato de suas existências.

No Brasil, por exemplo, o título é vergonhoso: somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, de acordo com pesquisa da organização não governamental Transgender Europe. Além disso, 90% das mulheres trans brasileiras trabalham na prostituição. Outro ponto levantado neste texto do site Midiorama é que a expectativa de vida da população transsexual do Brasil é em torno dos 35 anos, enquanto a média brasileira é de 73 anos.

Diante deste contexto, a promoção da visibilidade trans é urgente para humanizar e gerar o debate em torno dessa parte da população que é cruelmente excluída. Como o consumo de séries só aumenta no país em um movimento natural pós popularização da Netflix, aumento da oferta quantitativa de shows e ampliação do acesso à internet, não é absurdo dizer que essas narrativas – ainda que as americanas – sejam impactantes também na nossa realidade. Dessa maneira, ter personagens que mostrem pessoas transsexuais vivendo suas vidas é importantíssimo para desmistificar, informar e gerar empatia no público.

Há alguma representatividade nas séries americanas?

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Nomi Marks, personagem de Sense8

Neste sentido, podemos afirmar que as duas personagens que mais contribuem para esta causa são Sophia Burset de Orange is The New Black e Nomi Marks, de Sense8. Ambas vivem suas vidas e não tem o fato de serem transsexuais como temática central de suas histórias.

Além de serem as donas dos papéis mais significativos, elas também têm em comum o fato de serem interpretadas por atrizes que também se identificam como transsexuais, a Laverne Cox e a Jamie Clayton. Embora isso pareça um pouco óbvio, é uma luta diária do movimento LGBTQ, pois personagens transsexuais são comumente interpretados na televisão e cinema por atrizes e atores cisgêneros.

Inclusive, como bem explica esta análise, a grande maioria é interpretada por homens cisgênero, que vestem roupas femininas, exageram nos trejeitos e levam uma imagem caricata que nada ajuda na humanização e na sensibilização.

Isso, de fato, não seria uma questão em outro cenário: não é necessário que um ator seja italiano para interpretar um personagem italiano, mas, neste caso da representatividade LGBTQ – e principalmente a trans – isso se torna extremamente importante visto que o número de atrizes e atores pertencentes à sigla que conseguem seguir a carreira artística ainda é quase nulo tamanha é a falta de oportunidade.

É importante ressaltar que não acreditamos que somente os e as transsexuais só podem representar papeis de personagens transsexuais na televisão. O que queremos é, ao menos, garantir que ao menos estes papéis sejam vividos por esse grupo marginalizado. É o mínimo!

Neste quesito, a televisão aberta americana até que está dando conta do recado, de acordo com o relatório Glaad, dentro do seu pequeno quadrado de representatividade trans: os três personagens atualmente em exibição são interpretados por atores e atrizes transsexuais.

Sobre a questão, Jeffrey Tambor, ator cisgênero que interpreta a transsexual Maura Pfefferman na série Transparent desde 2014 afirmou que já passou da hora papéis de personagens transgêneros serem feitos por atores transgêneros. “Seria diferente se as pessoas trans tivessem contado sua histórias há centenas de anos, mas não puderam. É um problema de verdade. Está na hora de darmos as chaves do reino e abrir as portas”, disse Tambor em seu discurso. Nos bastidores da mesma premiação ele reforçou: “Eu gostaria muito de ser o último cisgênero interpretando uma personagem transgênero. Acho que já chegamos a esse ponto.”

Laverne Cox, também já levantou o tema. “Quero ecoar o que Jeffrey Tambor disse. Dêem uma chance ao talento trans. Eu não estaria aqui hoje se alguém não tivesse me dado uma chance“.

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Aron, amigo da Callie em The Fosters

Saindo um pouco dos personagens mais comumente abordados quando se trata de representatividade trans nas telinhas (Sophia Burset, Nomi e Maura Pfefferman), é possível encontrar outros – poucos -, mas significativos exemplos. Em The Fosters, série produzida pela Freform (antiga ABC Family), dois personagens trans já participaram da trama – um ainda está nela, inclusive. Cole (Tom Phelan) é um personagem transgênero que rejeitado e que mora nas ruas e Aron (Elliot Fletcher), um  estudante de direito. Em ambos os casos, os personagens são também interpretados por atores transsexuais. Fletcher também fez parte do elenco da última temporada de Shameles (Showtime), interpretando Trevor e da segunda temporada de Faking It, série produzida pela MTV. Em todos os os casos, interpretou personagens transsexuais.

Em 2016 um episódio do sitcom Modern Family foi bastante comentado por ter sido a primeira vez que o seriado, que gira em torno de famílias não-convencionais, trabalhou com a temática trans. E mais: por ter sido a primeira vez que utilizou-se uma criança transexual para retratar outra na mesma condição na televisão norte-americana.

Embora o papel tenha tido pouco destaque e o ator Jackson Millarker, de 8 anos, que interpretou o personagem trans tenha estado em cena por menos de 1 minuto, isso representa algo muito importante quando estamos falando de uma série com grande audiência.

American Horror Story é uma das séries que se destaca no quesito representatividade trans. A série de Ryan Murphy, criador de Glee, teve dois atores trans em suas duas últimas temporadas: Chaz Bono (filho da cantora Cher) e Erika Ervin.

Série famosa pelo seu empoderamento feminino e elenco etnicamente diverso, Greys Anatomy, nunca teve uma pessoa trans como personagem recorrente. Já houve, porém, dois momentos em que a série abordou a questão. Um casal de adolescentes trans , na 9ª temporada e na sua 11ª temporada, quando mostrou a história do irmão de Ben Warren (Jason George), Travis, um homem que vai passar pelo processo de transição para equiparar seu corpo à sua identidade de gênero.

E no Brasil, qual é o cenário? 

Maria Clara Spinelli Supermax

A atriz Maria Clara Spinelli participou da série Supermax, da Rede Globo

O Brasil falha miseravelmente quando o quesito é representatividade transsexual em sua televisão. Dentro de toda a produção, entretanto, é nas séries que esse grupo encontra sua melhor representação.

Produções seriadas como Supermax da Rede Globo, com a atriz Maria Clara Spinelli, Psi!, produzida pela HBO que conta com o ator transsexual Leo Moreira Sá e a comédia Pé na Cova, também da Rede Globo, que contou com participação de Jane de Castro, mostram que se há algum espaço para o grupo na televisão brasileira, ele está nas séries.

Um padrão identificado nas narrativas brasileiras, porém, é que as e os personagens transsexuais não permanecem por muito tempo nas narrativas, participando quando muito, em apenas alguns episódios.

A representatividade por trás das câmeras

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Lana Wachowski é uma das raras representantes trans por trás das câmeras

Em Sense8, série produzida pela Netflix, o caso é ainda mais especial: Jamie Clayton (a Nomi) é conduzida por uma diretora e roteirista trans: Lana Wachowski. Lana é uma das idealizadoras da trilogia Matrix e de V de Vingança, cuja identidade de mulher transgênera passou a ser conhecida do grande público no início deste ano. “Sei que serei protegida e representada de uma maneira que os trans nunca antes foram representados na televisão”, afirmou Clayton. A irmã de Lana, Lilly, também roteirista (e também transsexual) trabalhou em Sense8, mas se afastou após o final da primeira temporada.

Outro caso importante acontece em Transparent, uma das produtoras,  a Zackary Drucker, se identifica como transsexual. Infelizmente, não temos mais exemplos, o que já deixa claro a extrema necessidade de ampliação das oportunidades para pessoas transsexuais.

Precisamos falar sobre a invisibilidade trans!

A invisibilidade da população transsexual é algo que precisa ser discutido e, principalmente, combatido. E, neste sentido, acompanhar séries que trazem personagens deste grupo, incentivá-los e acompanhar os trabalhos dos poucos que conseguem um lugar ao sol no showbusiness é um dever de casa muito importante para todos nós.

Dos showrunners, nós esperamos um pouco mais de empatia com a temática. Séries famosas por terem elencos diversificados não conseguem ultrapassar esta barreira e inserir atores e atrizes transsexuais ou, sequer, inserir personagens transsexuais em suas narrativas. Esperamos, de coração, que os exemplos que demos neste texto sejam apenas um pontapé inicial e que muito em breve possamos ver que a televisão – e não só a americana! – tenha avançado na questão.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

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