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Uma análise sobre (a falta de) representatividade negra na TV brasileira

Uma análise sobre (a falta de) representatividade negra na TV brasileira

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representatividade negra tv brasileira

“No dia 25 de julho comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Durante todo o mês, núcleos e coletivos articulam entre si, campanhas de cultura, identidade e empoderamento dessas mulheres.”

Das 290 novelas já produzidas pela Rede Globo, apenas duas foram protagonizadas por mulheres negras. Somente 15,2% das séries produzidas pela emissora contam com protagonistas negros e negras. Malhação, série de maior duração na televisão brasileira, em 22 anos, teve sua primeira protagonista negra no ano passado. Nenhum filme brasileiro foi dirigido por uma mulher negra nos períodos de 2002 a 2012. Os jornais mais famosos dos canais abertos de televisão são em sua esmagadora maioria ancorados por jornalistas brancos.

A invisibilidade do povo negro é parte do nosso dia a dia desde que nos entendemos por gente e, para falar a verdade, ainda que o cenário atual acene uma suposta melhora, o caminho a ser percorrido para alcançar a tão sonhada igualdade racial é longo e doloroso.

No Brasil, segundo o IBGE, as (os) negras (os) – soma das pessoas que se auto declaram pretas (os) e pardas (os) – representam 53,6% da população do país, ou seja, estamos falando de mais da metade de uma população de, atualmente, 207 milhões de pessoas.  Já nos Estados Unidos, o cenário é um pouco diferente: 12% da população total do país se autodeclara negra.

Vale ressaltar que quando houver uma comparação entre a representatividade negra nos Estados Unidos e no Brasil, é preciso levar em conta que há uma distinção nos países americanos que vai além de brancos e negros por contar de toda uma forte influência migratória de países da America Latina. Para um análise mais assertiva da população americana, seria necessário considerar a questão racial a partir da lógica da população não-branca (soma entre negros + latinos + asiáticos + índio-americanos e nativos do Alasca e outros), diferentemente do Brasil em que a nossa classificação do IBGE consta brancos, negros, amarelos, índios e pardos.

Resguardando as diferenças estruturais entre os dois países, vamos, então, fazer uma comparação básica: se nos Estados Unidos, que conta com uma população negra de 13,8%, há um enorme movimento em prol da ampliação da representatividade não-branca na televisão — e há também um número proporcional maior de produções com protagonismo negro —  como podemos enxergar a mídia brasileira nesta história? Qual é o cenário da representação negra no nosso país, levando em consideração que mais da metade da população do país é autodeclaradamente negra?

Tentamos, neste texto, trazer uma análise fundamentada em dados de pesquisas diversas, mas a realidade é que não precisa nem ir muito a fundo para compreender que por aqui “a coisa tá é branca” na nossa televisão.

No cinema, na TV, no jornalismo, nas propagandas… Os números não mentem!

O Brasil é o país fora do continente africano com o maior número de negros do mundo e a sua televisão, meio pelo qual 81% das pessoas dizem ser a forma principal de lazer, pede socorro no que diz respeito à representatividade negra.

No cinema. Uma pesquisa realizada entre 2002 e 2012 chamada “A Cara do Cinema Nacional”, realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), analisou dados dos lançamentos de maior bilheteria do país e constatou o óbvio: 84% dos filmes foram dirigidos por homens brancos; 13%, por mulheres brancas; 2%, por homens negros e nenhum, repito, NENHUM! foi dirigido por uma mulher negra.

E mais: Apesar de serem mais da metade da população do país, os pretos e pardos representaram apenas 20% dos atores e atrizes que atuaram em papéis de destaque nos filmes brasileiros de maior bilheteria nos anos observados. O viés de gênero no cinema do país também é forte: mulheres têm baixa participação nas funções de direção e roteirização dos filmes comerciais.

Apesar de ser lugar-comum no país a celebração da mulher “mestiça” (ou “mulata”) como ícone de beleza e sensualidade, no cinema ela não tem vez: apenas 4% do elenco principal desses filmes foi composto por mulheres pretas e pardas. Assim, a mulher negra sofre de sub-representação extrema, pois é objeto da combinação de duas discriminações, de gênero e raça.

Na publicidade e propaganda. Segundo dados fornecidos pela Agência Heads Propaganda, dos três mil comerciais exibidos na televisão brasileira durante uma semana de julho de 2016, somente 26% foram protagonizados por mulheres, das quais, apenas 16% eram negras e 38% tinham o cabelo crespo e cacheado.

Mas a publicidade é um caso tão evidente de invisibilização da população negra que muito antes de tomar conhecimento sobre qualquer pesquisa que tenha sido realizada neste âmbito já é perceptível por qualquer um que preste atenção o quão embranquecidos são as nossas propagandas.

No jornalismo. O Instituto Mídia Étnica, em 2007, evidenciou que a televisão brasileira conta com apenas 5,5% de apresentadores e profissionais negros e negras. Um levantamento realizado pela Vaidapé, após checar 204 programas das sete emissoras ( Cultura, SBT, Rede Globo, Rede Record, RedeTV!, Gazeta e Bandeirantes), entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, revelou 272 apresentadores compondo as grades de programação. Desses, apenas 3,7% são negras e negros. Em valores absolutos, de todos os analisados, foram apenas 10 apresentadores negros contra 261 brancos.

Na teledramaturgia. De acordo com o texto “O papel do Negro na Televisão Brasileira”, a representatividade negra na televisão brasileira acontece prioritariamente em novelas que tratam da temática da escravidão. Sendo um país originalmente formado por um sistema escravocrata, é claro que muitos produtos culturais vão retratar este período histórico e suas nuances, o problema não é representar esse período histórico.

A questão é: temos novelas durante toda a história da teledramaturgia brasileira, que nem sequer havia um negro que não fosse empregado para servir aos brancos. Normalmente os negros das novelas não tem família formada, nunca são bem sucedidos, nunca são protagonistas e carregam grandes estereótipos de vagabundos e preguiçosos”, diz o texto.

Ou seja: problema é somente ter negros na televisão quando se trata de escravidão ou pobreza. A essa parcela da população a mídia reserva majoritariamente posições socialmente desvantajosas apagando qualquer possibilidade de ser negro e negra e ser profissionalmente bem sucedido, bem relacionado amorosamente e ocupante de diferentes lugares na sociedade. No livro ‘A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira‘, Joel Zito Araújo, cineasta e roteirista, revela que a falta de representatividade do negro na TV, maior veículo de comunicação de massa do país, “influencia ativamente na constituição da identidade desta população e na forma como ela é vista pelos demais”.

A televisão, de acordo com este estudo, reforça estereótipos negativos e a cultura negra enquanto folclore; o negro como elemento de diversão para os brancos e o negro como pobre e favelado. A antropóloga da USP Solange Martins Couceiro de Lima, em entrevista para a revista universitária em 2001, disse que “ao persistir retratando o negro como subalterno, a telenovela traz, para o mundo da ficção, um aspecto da realidade da situação social da pessoa negra, mas também revela um imaginário, um universo simbólico que não modernizou as relações interétnicas na nossa sociedade”, avaliou.

Quando o assunto é série, a coisa e séria!

Se no Brasil o negro não é representado nas novelas — que são produções mais constantes e em maior número — o que podemos dizer da representatividade negras nas séries de televisão em canais nacionais abertos? Pegaremos como exemplo neste texto apenas as produções da Rede Globo por dois motivos: 1) trata-se da emissora com maioria absoluta de produções seriadas no país; 2) representa a maior audiência entre os canais abertos brasileiros.

Das 152 séries brasileiras produzidas ao longo de 38 anos, que estão cadastradas no Banco de Séries e que foram analisadas para este texto, 23 contam com protagonistas negros (sendo que, em sua grande maioria, quando há um ou uma protagonista negra (o) significa que a série conta com, no mínimo, 5 protagonistas). Isso dá um total de apenas 15,2% das séries com algum tipo de protagonismo negro.

Quando afunilamos ainda mais o recorte para mulheres negras protagonistas,  o número é ainda mais alarmante: encontramos apenas 11 séries, sendo que destas, cinco são protagonizadas por grupos compostos por mais de cinco pessoas (ou seja, temos uma negra entre muitos brancos). Concluindo, mas não encerrando o assunto… Traduzir suspeitas em números não é fácil, mas é um dos poucos caminhos possíveis para tomar ciência de uma realidade e, então, buscar uma forma de enfrentá-la e combatê-la.

Com essa análise pudemos chegar a conclusões já previsíveis por qualquer espectador que esteja um pouco mais atento a realidade da televisão brasileira. Acontece que um assunto como este não pode e não deve se encerrar em análises. É preciso muito mais do que algumas constatações numéricas para transformar a realidade étnico-racial que vivemos em algo um pouco mais equânime. É preciso conscientização, é preciso cobrança e, principalmente, é preciso boa vontade por parte de quem produz o audiovisual, a publicidade e o jornalismo brasileiro.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

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