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Cara Gente Branca: uma luta pela igualdade de direitos

Cara Gente Branca: uma luta pela igualdade de direitos

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dear white people critica

Texto livre de spoiler!

Cara Gente Branca (Dear White People) gerou polêmica antes mesmo da sua estreia. Quando o primeiro trailer do show foi liberado na Netflix, o público norte-americano se mobilizou em uma enxurrada de “deslikes” (avaliações negativas) no canal do serviço de streaming no Youtube. Mais de 400 mil pessoas pararam o que estavam fazendo e foram até o perfil demonstrar sua insatisfação pelo conteúdo da série, o que prova que a sua existência é algo urgente e completamente necessário.

Por esse motivo, e por contar com uma temática que é absolutamente presente na vida de mais da metade da população brasileira que é negra e sofre diariamente com os desdobramentos do racismo estrutural na nossa sociedade, é que esse lançamento foi um dos mais aguardadas por mim.

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Inspirada no filme homônimo lançado em 2014, seu episódio piloto fez jus à espera. Recheada de questões que são tratadas pelo Movimento Negro e por pessoas que discutem a temática, Cara Gente Branca já começa com um tapa: “O paradoxo da educação é que ao ter consciência passa-se a examinar a sociedade onde se é educado“. A frase é do romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social afro-americano, James Baldwin, e sua aplicação logo na primeira cena contextualiza de forma certeira sobre o que a série se trata.

Vamos à sinopse: Dear White People é sobre um grupo de estudantes que enfrenta o racismo estrutural de uma universidade americana elitista, ou seja: majoritariamente frequentada por pessoas brancas. O piloto já revela que a narrativa se desenvolve após uma festa chamada “Cara gente preta” em que os estudantes da universidade são todos convidados a se “fantasiarem” de negros (personalidades negras) e a famosa e polêmica (com razão!) blackface é usada à exaustão. A festa é um circo dos horrores para qualquer pessoa que tenha algum tipo de sensibilidade/humanidade e gera, obviamente, uma revolta nos alunos negros da universidade.

Protagonismo negro

 

 

A série aborda temas como o Movimento Negro e suas nuances, colorismo, afetividade e solidão. Confesso que me senti um pouco incomodada com alguns momentos que a narrativa mostra os “deslizes” da personagem principal, Samantha White, que sente a necessidade de provar o tempo todo sua negritude, o que acaba fazendo com que ela assuma uma postura “fake” em alguns momentos e discursos. Mas quem, além de nós mesmos, vai poder julgar as formas e métodos que utilizamos para vencer nossas batalhas pessoais?

Talvez esse incômodo tenha vindo justamente da preocupação que senti, como mulher negra, de que as posturas “duvidosas” da personagem (como, por exemplo, trocar a música que estava ouvindo em seu fone por uma música legitimamente negra ao passar por colegas negros no campus) fossem tomada – principalmente por pessoas brancas –  como um retrato de todas nós.

Logo em seguida me peguei pensando que só uma pessoa realmente mal intencionada e intelectualmente desleal poderia definir um Movimento Social plural e absolutamente diverso como é o Movimento Negro baseado nas atitudes de uma única pessoa, no caso uma única personagem.

É aí que Cara Gente Branca acerta em cheio. A série não foi pensada para mostrar pessoas perfeitas em suas posturas 100% do tempo. Sua ideia é justamente o contrário: evidenciar que, em nossa incompletude, vamos fazendo o que está ao nosso alcance na luta pela igualdade de direitos. Você não precisa ser perfeito porque é militante, e isso é um alívio e tanto. Trazer às telas alguns erros e muitos acertos de um movimento Negro específico (o norte-americano, daquela escola, naquele recorte de tempo específico) humaniza o movimento como um todo e, quem sabe, pode contribuir para sua popularização.

É desse tipo de show que nós precisamos: que vá direto na ferida (seja ela de qual lado for) e que mostre o que a maioria das pessoa insiste em ignorar diariamente.

 

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

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