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Gordofobia na telinha: Como os filmes e séries adolescentes tratam os personagens gordos?

A maneira como filmes e séries adolescentes retratam personagens gordos é uma janela não só para o entretenimento, mas também para o modo como enxergamos corpos na sociedade. Com milhões de jovens consumindo diariamente conteúdos audiovisuais, o que é mostrado nas telas molda, influencia e muitas vezes perpetua preconceitos — principalmente a gordofobia, ainda tão enraizada no imaginário coletivo brasileiro e internacional.

Gordofobia no cotidiano e no audiovisual

No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, mais da metade da população está acima do peso. E mais: quase um em cada cinco brasileiros é considerado obeso. A pesquisa do Ibope aponta um dado ainda mais alarmante: 92% das pessoas relatam vivenciar a gordofobia na rotina, seja através de comentários, olhares ou até piadas. O preconceito, portanto, se multiplica não apenas nas situações cotidianas, mas também nas narrativas midiáticas e ficcionais.

No universo adolescente das telas, personagens gordos raramente ocupam o centro da história. Em geral, são alívio cômico, a melhor amiga esquecida, um exemplo de superação (onde só há felicidade após o emagrecimento) ou, mais recentemente, até vilões caricatos. A representatividade, quando existe, é superficial e reforça estereótipos:

  • Personagem invisível: Muitas vezes, o adolescente gordo só aparece para completar arcos alheios, como Mandella de “10 Coisas que Eu Odeio em Você” ou Julie em “Lady Bird”.
  • Foco no corpo: O peso pauta o desenvolvimento dos personagens e dos conflitos.
  • Autoimagem depreciativa: São comuns as piadas e autodepreciações, como as feitas por Amy Gorda, personagem de Rebel Wilson em “A Escolha Perfeita”.

Infelizmente, essas representações não são inofensivas. Como mostram especialistas e relatos de jovens, trata-se de uma fase de intensa construção de identidade — e, quando o audiovisual só reforça a não aceitação ou o constrangimento, isso impacta autoestima, saúde mental e até as relações sociais.

Estereótipos persistem — e o problema dos roteiros

Em “O Amor é Cego”, filme que marcou época, a ideia principal — de que apenas um milagre poderia fazer um homem se apaixonar por uma mulher gorda — perpetua a noção de que quem está acima do peso é digno apenas de pena, riso ou rejeição. Da mesma forma, personagens como Melissa McCarthy são quase sempre destinados ao papel do alívio cômico. Ou seja, nunca são protagonistas vistos como pessoas completas, dignas de respeito, desejo e felicidade.

Séries como “Insatiable”, que tentou abordar a gordofobia, acabaram escorregando ao escolher uma atriz magra num “fat suit” e ao associar problemas psicológicos e dificuldades sociais exclusivamente ao corpo gordo da protagonista. O roteiro erra ao fazer da perda de peso o único caminho para o sucesso, para a aceitação e a realização, transmitindo a ideia perigosa de que “ser feliz = ser magro”.

Gordofobia na TV Insatiable
Série Insatiable da Netflix peca ao propor que Patty só pode ser feliz e plena depois de emagrecer.

Outro drama recorrente é visto em personagens como Mercedes Jones, de “Glee”: carismática, talentosa, mas quase sempre com seus arcos românticos tratados como algo fora do comum ou relegados a papéis secundários. Mesmo quando há desenvolvimento emocional, as relações são, muitas vezes, interrompidas ou tratadas de maneira apressada, como se a felicidade plena não fosse para ela.

A importância da representatividade para adolescentes

A adolescência é, por excelência, o momento de (re)descoberta, inseguranças e busca por referências positivas. Quando adolescentes gordos se veem apenas como coadjuvantes ou motivos de piada, a mensagem é clara: “não existe espaço para você ser protagonista da sua própria história”.

Ao mostrar somente determinados tipos de corpos e associar felicidade, sucesso e amor a padrões inalcançáveis, a indústria do entretenimento reforça a exclusão. Isso impacta não apenas os jovens gordos, mas reforça para todos a ideia de que o valor de uma pessoa está relacionado ao corpo — um ponto de vista ultrapassado e danoso.

O papel do audiovisual, portanto, vai além do entretenimento. Ele é educativo e socializador. Quanto mais diverso o elenco, os roteiros e os olhares das câmeras, maior a possibilidade de estimular a empatia, o respeito e a aceitação.

Novas narrativas: personagens gordos além dos estereótipos

Apesar do caminho ainda longo, algumas produções começam a trilhar novas rotas. A série britânica “My Mad Fat Diary”, por exemplo, traz Rae Earl, uma adolescente gorda cujos conflitos vão muito além do peso: suas questões giram em torno da família, dos amigos, saúde mental e da busca por pertencimento. O diferencial aqui é claro: Rae não está ali só para falar sobre emagrecer. Ela está ali para viver, amar, errar e crescer — assim como qualquer outro adolescente.

My Mad Fat Diary
Série do Prime Vídeo My Mad Fat Diary acerta em retratar Rae como uma pessoa qualquer, sem a busca pelo emagrecimento.

No mercado internacional mais recente, produções como “Survival of the Thickest” colocam uma mulher gorda, negra e cheia de camadas emocionais, no centro da narrativa. Mavis, a protagonista, explora carreira, lutos, romances e desafios sem precisar mudar quem é para ser aceita ou amada. Aqui, a representatividade é real — o corpo gordo existe, mas não pauta o valor, o sucesso ou o direito à felicidade.

Especialistas indicam que ver diferentes corpos nas telas:

  • Valida experiências reais e fortalece a autoestima de jovens que nunca se viram ali.
  • Mostra que pessoas gordas podem ter histórias completas, jornadas amorosas e de sucesso independentemente do peso.
  • Ajuda a combater a ideia de que o preconceito é um problema individual, localizando o foco na estrutura social gordofóbica — e não no corpo do indivíduo.

Panoramas e desafios: como seguir avançando

O crescimento nas buscas por termos como “gordofobia” reflete uma sociedade cada vez mais consciente dos danos do preconceito. No entanto, celebrar algumas melhorias não resolve o problema. A maioria das narrativas ainda privilegia corpos magros, brancos, heterossexuais e sem deficiências. E mesmo as poucas histórias positivas para pessoas gordas são, em sua maioria, ancoradas em vivências brancas.

A busca por verdade na ficção passa por abrir espaço a mais roteiristas gordos, atores gordos de várias origens e formas. Além disso, é necessário criar papéis que não só desafiem os estereótipos, mas apresentem o ser gordo como mais uma entre tantas características possíveis. Ampliar a representatividade não é um favor: é uma necessidade social e ética.

Se o audiovisual reflete e constrói padrões, pode — e deve — dar o exemplo de respeito, pluralidade e dignidade a todas as corporalidades.

Filmes e séries adolescentes, em geral, ainda insistem em colocar o personagem gordo à margem, como piada ou coadjuvante. Apesar de avanços pontuais, a maioria das representações perpetua estereótipos nocivos, reforçando a gordofobia estrutural. Para reverter esse cenário, é fundamental valorizar personagens gordos em toda sua humanidade. E mais: dar espaço para histórias que vão muito além do peso — um passo essencial rumo a uma sociedade mais democrática e inclusiva.

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