Terminar de assistir a Estômago provoca um nó profundo no úbere de nossas certezas morais. O longa-metragem constrói uma atmosfera tão carismática e humorada ao redor de seu protagonista que o desfecho funciona como uma rasteira violenta na nossa própria empatia.
O final do filme é um choque de realidade cruel, onde a aparente inocência dá lugar à perversidade. No fim, descobrimos que Raimundo Nonato assassinou Giovanni e Íria, transformando a carne da própria amada em um prato cozinhado na frigideira.
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Desvendando os Minutos Finais de Estômago
A narrativa caminha para o seu clímax quando Raimundo Nonato presencia uma cena que destrói completamente o seu frágil mundo de ilusões. Ao olhar pelas frestas, ele vê o patrão, Giovanni, e a prostituta Íria em um jantar íntimo e profundamente romântico.
A revelação visual do crime se dá por meio de um plano-sequência sinuoso e perturbador. A câmera passeia pelo ambiente até focar em Nonato fritando uma peça de carne esbranquiçada e desconhecida na frigideira.
Ao avançar pelos cômodos, o espectador se depara com o cadáver de Giovanni na cama. O horror definitivo se consolida ao revelar o corpo nu de Íria, que traz uma marca brutal: falta um pedaço de sua nádega.
O crime hediondo é o que justifica a linha temporal do presente no filme, mostrando o protagonista na prisão. Lá dentro, ele usa o mesmo talento culinário para dominar a hierarquia da cela, provando que a gastronomia sempre foi sua maior arma de poder.
As Metáforas e os Detalhes Escondidos
O diretor Marcos Jorge utiliza a culinária como uma metáfora visceral para o controle e para a posse de corpos humanos. A analogia feita por Giovanni no meio do filme, comparando os melhores cortes da traseira do boi à bunda de mulher, deixa de ser uma piada misógina e se torna uma profecia macabra.
O grande detalhe escondido que explica o crime não é o sexo em si, mas o beijo na boca. Íria havia estabelecido um limite psicológico claro em sua profissão: ela jamais beijava seus clientes na boca.
Ao ver Íria dar um beijo de língua apaixonado em Giovanni, Nonato percebe que o romantismo que ele tanto buscava foi entregue a outro. A carne na frigideira é a materialização literal e canibalística do desejo de possuir aquilo que lhe foi negado.
O silêncio incômodo que se instala após a descoberta do crime contrasta com o barulho da gordura chiando no fogo. Visualmente, o filme transiciona do calor acolhedor da cozinha para a frieza cadavérica do quarto, desnudando a psicopatia do cozinheiro.
A Mensagem no Fundo da Tela
Como psicóloga, vejo em Estômago um estudo fascinante sobre como a carência e a marginalização social podem mascarar um comportamento obsessivo. Raimundo Nonato começa a história como uma vítima da fome e da desigualdade, o que faz o público torcer por ele.
No entanto, sua mente confunde afeto com direito de propriedade. Ele aceitava que Íria usasse o corpo para sobreviver na prostituição, mas não tolerou que ela usasse o afeto por escolha própria.
“A fome que move o protagonista deixa de ser física e passa a ser uma fome de poder, onde o outro vira mero ingrediente.”
O desfecho escancara a triste realidade do feminicídio e da objetificação máxima da mulher, onde o corpo feminino é literalmente fatiado para o consumo. O filme valida a dor dessa perda ao quebrar qualquer romantização sobre o “coitadinho” que veio do Nordeste.
O Sentimento que Fica
O desfecho de Estômago é indigesto, brilhante e absolutamente necessário para a história da nossa cinematografia. Ele destrói a zona de conforto do espectador, forçando-nos a engolir a verdade nua e crua sobre a maldade humana.
É um encerramento que honra a jornada de forma irônica e cirúrgica. A obra nos deixa com um gosto amargo na boca, consciente de que, na engrenagem do mundo, alguns comem e outros, infelizmente, são comidos.
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