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CRÍTICA Sibéria, Filme: Suspense derrete diante de suas próprias ambições

Nada como uma tarde fria para preparar um bom mate quente, sentar no sofá com uma coberta aconchegante e se permitir mergulhar em uma história desconhecida. É nesse clima de pausa na rotina que decidi dar uma chance a Sibéria, suspense lançado em 2018 e atualmente disponível no catálogo da Netflix.

Atraída pela promessa de um thriller que unia o submundo do crime ao romance, e trazendo um elenco com nomes que fazem parte do nosso imaginário, confesso que terminei a exibição com aquela sensação agridoce de quem enxerga um potencial brilhante que acabou se perdendo no meio do caminho.

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A premissa do roteiro escrito por Scott B. Smith, baseado em uma história de Stephen Hamel, carrega todos os elementos clássicos de um bom noir moderno. Acompanhamos Lucas Hill (vivido por um contido Keanu Reeves), um negociante americano de diamantes do mercado negro que viaja a São Petersburgo para vender pedras azuis raras a um perigoso mafioso russo, Boris Volkov (Pasha D. Lychnikoff).

Quando seu sócio desaparece levando a mercadoria, Lucas se vê obrigado a partir para a gélida região da Sibéria, mais especificamente para a isolada cidade mineradora de Mirny, na tentativa de recuperar o prejuízo e salvar a própria pele.

O grande problema do diretor Matthew Ross não é a falta de atmosfera, mas a indecisão tonal. O longa tenta caminhar sobre uma linha tênue: de um lado, a urgência de um thriller de sobrevivência contra a máfia russa; de outro, um drama romântico existencialista e melancólico. Ao tentar abraçar as duas propostas, a narrativa perde o ritmo.

Lucas tem pouquíssimas horas para resolver uma situação de vida ou morte, mas o filme desacelera de tal forma na cidadezinha do interior que parece que o protagonista está em férias prolongadas, passeando pela neve e caçando ursos, esquecendo-se completamente de que há capangas armados em seu encalço. Essa falta de verossimilhança quebra a tensão necessária para sustentar o suspense.

O Raio-X do Séries Por Elas: Prós e Contras de Sibéria

O que nos arrebatou (Pontos Fortes)O que escorregou (Pontos Fracos)
• A fotografia fria que constrói uma bela e desoladora atmosfera de isolamento psicológico.• Ritmo arrastado e falhas graves de verossimilhança no senso de urgência do protagonista.
• A violência realista e crua, que se afasta dos excessos coreografados de videogames.• Indecisão entre ser um suspense policial tenso ou um drama romântico contemplativo.
• Detalhes de direção sutis, como o som da aliança de casamento batendo nos objetos, sugerindo culpa.• Uma cena gratuita e desconfortável de exploração e humilhação sexual envolvendo a co-protagonista.

Anatomia do Desejo: A lente psicológica e a força das conexões humanas

Olhando para a produção sob a ótica do comportamento humano, o que realmente move Sibéria não são os diamantes falsos ou verdadeiros, mas o vazio existencial de seu protagonista. Lucas Hill é um homem fragmentado. Ele mantém uma fachada de estabilidade: tem uma esposa nos Estados Unidos, Gabby (interpretada por Molly Ringwald), com quem conversa brevemente por chamadas de vídeo em um casamento que não parece explicitamente arruinado, mas que claramente carece de presença e calor.

Ao chegar naquele vilarejo congelado e conhecer Katya (Ana Ularu), a dona de um bar local, o choque cultural dá lugar a uma conexão movida pela solidão mútua. Katya carrega aquela armadura clássica de cinismo e sensualidade defensiva de quem aprendeu a sobreviver em um ambiente hostil e predominantemente masculino. Quando ela propõe que eles fiquem juntos, sua justificativa inicial é quase dolorosa: em uma cidade pequena e fofoqueira, todos já supõem o pior de qualquer forma.

Psicologicamente, a traição de Lucas e o abandono de seus princípios morais são compreensíveis pelo calor do momento e pelo isolamento, mas o roteiro falha em aprofundar essa transição. O vínculo que se forma entre eles passa a exigir sacrifícios extremos da parte dele, mas o público não recebe os fundamentos necessários para acreditar que aquele homem pragmático e frio abriria mão de tudo por um amor recém-descoberto.

Além disso, a agência feminina de Katya é duramente arranhada no terço final, quando ela é submetida a uma dinâmica de humilhação e exploração sexual por parte dos mafiosos. Uma escolha de roteiro que falha em trazer densidade e apenas causa um desconforto gratuito, minando a simpatia que construímos pela personagem.

Atmosfera Audiovisual: Entre o figurino impecável e os clichês do gênero

Visualmente, Sibéria tem méritos inegáveis. A direção de fotografia abraça tons dessaturados, cinzentos e azuis gélidos que traduzem perfeitamente o estado de espírito entorpecido de Lucas e o isolamento geográfico daquela comunidade. Há um contraste elegante em ver Keanu Reeves desfilando pelo cenário selvagem com casacos de grife perfeitamente cortados, como se estivesse em um ensaio de moda urbana. Os pequenos sons cotidianos — o vento uivando lá fora, o barulho do gelo, o silêncio pesado das estradas — ajudam a construir um casulo de melancolia.

Por outro lado, quando o filme precisa abraçar sua faceta de ação e espionagem, ele escorrega em convenções batidas. A introdução do vilão Boris, cercado por capangas com expressões ensaiadas de pura ameaça em um saguão de hotel, é quase uma caricatura do “mafioso russo” saído diretamente do departamento de elenco central de Hollywood.

O uso repetitivo de planos mostrando o protagonista trocando chips de celulares descartáveis tenta emular uma sofisticação de espionagem que a narrativa simplesmente não possui. Como o próprio protagonista ironiza em determinado diálogo com um rival: “Você vê filmes de espionagem demais”. O problema é que o longa sofre justamente do mesmo mal: tenta mimetizar os elementos superficiais de um bom thriller, mas esquece de preencher sua alma.

O Veredito do Coração

<strong>NOTA: 2/5</strong>

Sibéria tinha em mãos as peças certas para entregar uma obra madura e artisticamente diferenciada, que usaria o suspense apenas como pano de fundo para um denso estudo sobre solidão, culpa e paixão destrutiva.

Infelizmente, ao hesitar entre o comercial e o conceitual, a produção acabou entregando um resultado morno, incapaz de aquecer o espectador. Vale a sessão se você for muito fã de Keanu Reeves ou se quiser apenas um filme de atmosfera lenta para acompanhar um dia chuvoso, mas não espere a genialidade de outras produções do ator.

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