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Crítica | Filme Queer é Bom? Vale a Pena Assistir?

No portal Séries Por Elas, nossa missão é dissecar obras que desafiam o status quo e entregam camadas psicológicas densas. Sob a direção do esteta italiano Luca Guadagnino, a adaptação da obra homônima de William S. Burroughs chega às telas como um soco no estômago revestido de veludo. Queer não é apenas um filme; é um mergulho visceral na solidão, no desejo e na busca autodestrutiva por conexão. Se você procura uma narrativa linear e reconfortante, este não é o seu lugar. Mas, se busca cinema de arte em sua forma mais pura e provocativa, esta é uma obra indispensável.

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A Premissa: Uma Fuga para o Interior do Desejo

Situado na Cidade do México dos anos 50, o longa acompanha William Lee (Daniel Craig), um expatriado americano que vive uma rotina de excessos, regada a álcool e substâncias entorpecentes, enquanto transita por bares frequentados por estudantes universitários e militares. A vida de Lee, marcada por um isolamento quase existencialista, ganha um novo — e perigoso — eixo quando ele se torna obcecado por Eugene Allerton (Drew Starkey), um jovem recém-chegado que personifica tanto a indiferença quanto a tentação.

O veredito inicial é claro: Queer vale cada minuto de sua longa duração (2h 16min), mas exige um espectador disposto a abandonar a lógica em prol da experiência sensorial. É uma comédia dramática que flerta com o surrealismo e o horror psicológico, entregando uma das jornadas mais honestas sobre a fragilidade masculina já filmadas.

Desenvolvimento de Enredo e Ritmo

O roteiro, assinado por Justin Kuritzkes (repetindo a parceria de sucesso com o diretor em Rivais), opta por uma estrutura que espelha o estado mental de seu protagonista. O ritmo é deliberadamente hipnótico. No início, somos apresentados à rotina estagnada de Lee, mas, conforme a obsessão por Allerton cresce, o filme se transforma em uma road movie metafísica pela América do Sul em busca de uma droga alucinógena chamada Yage.

A narrativa não se apressa. Ela se permite pausas longas, onde o silêncio e o subtexto dizem mais do que as falas. Essa cadência pode ser desafiadora para alguns, mas é essencial para construir a sensação de “fome” que o título sugere. Não é apenas sobre ser “queer” no sentido da sexualidade, mas sobre o estranhamento de habitar um corpo e um mundo que parecem não pertencer a você.

Atuações e Personagens: O Renascimento de Daniel Craig

Esqueça o agente secreto impecável. Em Queer, Daniel Craig entrega a performance de sua vida. Ele interpreta um homem desmanchando-se diante da câmera; sua fisicalidade é crua, vulnerável e, por vezes, patética de uma forma profundamente humana. Craig utiliza cada vinco do rosto para transmitir a dor de um desejo que não encontra porto seguro.

Drew Starkey é a contraparte perfeita. No papel de Allerton, ele mantém uma ambiguidade constante. Ele rouba a cena ao não se deixar decifrar facilmente — ele é um objeto de desejo ou um manipulador? A química entre os dois é elétrica, mas carregada de um desequilíbrio de poder que torna a interação desconfortável e fascinante. Ainda temos a presença excêntrica de Jason Schwartzman, que pontua a trama com um humor ácido, típico das obras de Burroughs.

A Visão “Séries Por Elas”: Identidade e a Sombra Feminina

Embora o longa foque intensamente em uma experiência masculina homossexual, a análise do Séries Por Elas foca na forma como a obra aborda a vulnerabilidade e a quebra de arquétipos. Em um universo dominado pela masculinidade tóxica da década de 50, a vulnerabilidade de Lee é um ato de rebeldia.

A produção toca em temas universais que ressoam com a luta feminina por autonomia e expressão de desejo. A marginalização enfrentada pelos personagens cria um paralelo direto com a invisibilidade histórica das mulheres em espaços de poder. Além disso, a forma como Guadagnino filma o corpo — com um olhar que é simultaneamente clínico e apaixonado — desafia a objetificação comum no cinema mainstream, trazendo uma profundidade narrativa que privilegia o sentir sobre o possuir. É uma obra sobre a busca por agência em um mundo que tenta rotular e isolar o “diferente”.

Aspectos Técnicos: Direção e Arte

A direção de Luca Guadagnino é, como esperado, impecável. Ele utiliza a fotografia para criar uma atmosfera que oscila entre o realismo sujo dos bares mexicanos e o onirismo vibrante das sequências de alucinação. As cores são saturadas, e o uso de sombras evoca o isolamento de Lee.

O figurino, desenhado por Jonathan Anderson (diretor criativo da Loewe), é um espetáculo à parte. As roupas não são apenas vestimentas, mas armaduras que tentam manter a dignidade de personagens que estão perdendo o chão. A trilha sonora assinada por Trent Reznor e Atticus Ross foge do óbvio, misturando sons contemporâneos com a melancolia da época, intensificando a sensação de anacronismo e deslocamento.

Veredito e Nota Final

NOTA: 5/5

  • Veredito: Uma obra-prima da melancolia e do desejo. Daniel Craig está irreconhecível e brilhante em um filme que redefine o cinema queer contemporâneo.

Queer é um filme audacioso, esteticamente arrebatador e emocionalmente devastador. É uma obra que não pede desculpas por sua estranheza e que consolida Guadagnino como um dos maiores diretores da atualidade quando o assunto é traduzir o desejo humano para a linguagem visual. Uma jornada de 2 horas e 16 minutos que permanece com o espectador muito tempo após os créditos subirem.

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Magui Schneider
Magui Schneider

Como Editora-Chefe do Séries Por Elas, Magdalena (Magui) é responsável pela curadoria e tom editorial do portal. Magui traz um diferencial único: sua formação como Psicóloga (CRP-RS 07/27539). Ela utiliza sua expertise no comportamento humano para enriquecer as críticas de cinema e TV, oferecendo uma visão analítica e humana sobre o desenvolvimento de personagens e tramas.

Especialista em narrativas de drama, romance e comédia, a ‘Little Monster’ fã declarada da Lady Gaga, traduz sua visão profissional em análises que conectam o público às emoções das telas. É ela quem garante que, aqui, a paixão de fã e a análise séria andem de mãos dadas.

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