Crítica de De Pernas Pro Ar: Vale a Pena Assistir ao Filme?

Lançado nos cinemas em 31 de dezembro de 2010, De Pernas Pro Ar chegou ao público como uma comédia nacional com ambição clara: dialogar com temas ainda pouco explorados no cinema brasileiro comercial, como sexualidade feminina, autonomia e carreira. Dirigido por Roberto Santucci, com roteiro de Paulo Cursino e Marcelo Saback, o filme é protagonizado por Ingrid Guimarães, ao lado de Bruno Garcia e Maria Paula, e atualmente está disponível na Netflix. Mais de uma década depois, a pergunta permanece relevante: vale a pena assistir hoje?

A resposta exige contexto, olhar crítico e, principalmente, uma análise que vá além do humor escrachado que marcou o período.

VEJA TAMBÉM: De Pernas pro Ar (2010): Elenco, Onde Assistir e Tudo Sobre↗

Uma comédia que tenta romper tabus, mas tropeça no próprio tom

A trama acompanha Alice, uma executiva de sucesso que vive em função do trabalho e tenta equilibrar carreira, casamento e maternidade. Após uma sequência de conflitos pessoais e profissionais, ela acaba se envolvendo com o mercado de produtos eróticos, descobrindo um novo olhar sobre prazer, liberdade e identidade feminina.

A proposta é clara e, para a época, ousada. Falar de prazer feminino, masturbação e brinquedos sexuais em um filme de grande circuito não era algo comum no cinema brasileiro de 2010. O mérito inicial do longa está justamente em colocar esse debate em pauta, ainda que envolto em uma linguagem popular e acessível.

No entanto, o roteiro opta por uma abordagem que oscila entre a crítica social e o humor de situações exageradas. Em vários momentos, o filme parece temer aprofundar o discurso, preferindo o riso fácil ao confronto real com as estruturas que limitam a personagem.

Ingrid Guimarães sustenta o filme com carisma e entrega

É impossível falar de De Pernas Pro Ar sem destacar a atuação de Ingrid Guimarães. A atriz carrega o filme com energia, timing cômico e uma entrega física que dá ritmo à narrativa. Sua Alice é exagerada, confusa, contraditória e, justamente por isso, reconhecível.

Mesmo quando o roteiro escorrega em clichês, Ingrid consegue imprimir humanidade à personagem. Há momentos em que o humor beira a caricatura, mas a atriz encontra brechas para transmitir fragilidade, frustração e desejo de mudança.

O elenco de apoio cumpre sua função, com destaque para Maria Paula, que representa uma mulher mais livre e segura de si, funcionando quase como um espelho do que Alice poderia se tornar. Já Bruno Garcia, como o marido, reforça o arquétipo do homem que se sente ameaçado pela autonomia feminina, ainda que o filme trate essa tensão de forma superficial.

Humor comercial versus discurso feminista: um equilíbrio instável

Sob o olhar atual, é impossível ignorar que o filme envelheceu em alguns aspectos. Certas piadas dependem de estereótipos e situações que hoje soam previsíveis ou pouco sensíveis. A tentativa de falar sobre empoderamento feminino esbarra, em diversos momentos, na necessidade de agradar um público amplo, o que dilui a força da mensagem.

O filme propõe uma libertação feminina, mas frequentemente a condiciona ao sucesso financeiro ou à validação externa. A jornada de Alice é menos sobre autoconhecimento profundo e mais sobre encontrar um novo modelo de sucesso, ainda preso à lógica do mercado.

Ainda assim, é importante reconhecer o impacto cultural que De Pernas Pro Ar teve. Ele abriu espaço para discussões que, anos depois, se tornariam mais comuns em séries e filmes protagonizados por mulheres.

Um olhar do site Séries Por Elas: onde a história acerta e onde limita

Considerando que o site se chama Séries Por Elas, o filme merece uma análise que vá além do riso. De Pernas Pro Ar tenta contar uma história sobre uma mulher que se redescobre, mas faz isso dentro de uma estrutura narrativa ainda muito tradicional.

A protagonista só encontra liberdade após um colapso pessoal e profissional, reforçando a ideia de que a mulher precisa “quebrar” para se reinventar. Além disso, a sexualidade feminina é apresentada como libertadora, mas raramente como algo complexo ou contraditório.

Por outro lado, o filme teve coragem de colocar uma mulher no centro da narrativa, falando abertamente de desejo, prazer e escolhas. Para muitas espectadoras, especialmente na época do lançamento, isso teve um efeito simbólico importante.

Não é uma obra revolucionária, mas funciona como um registro de transição do cinema nacional, entre a comédia puramente escapista e narrativas mais interessadas em discutir o lugar da mulher na sociedade.

Direção e ritmo: eficiente, mas sem riscos

Roberto Santucci conduz o filme com ritmo ágil e linguagem televisiva, apostando em cenas curtas, trilha sonora funcional e montagem dinâmica. A direção não arrisca esteticamente, mas entrega um produto bem acabado para o público-alvo.

O problema é justamente esse excesso de segurança. O filme evita silêncios, evita conflitos mais densos e resolve tudo de forma rápida. Falta espaço para reflexão, o que impede que a história alcance um impacto emocional mais duradouro.

Vale a pena assistir De Pernas Pro Ar?

  • Nota final: ⭐⭐⭐⭐☆ (4 de 5)

Assistir a De Pernas Pro Ar hoje é, antes de tudo, um exercício de contextualização. Não se trata de um filme que envelheceu mal por completo, mas de uma obra que carrega as marcas de sua época.

Para quem busca uma comédia leve, com protagonismo feminino e temas relacionados à autonomia da mulher, o filme ainda entrega entretenimento. Para quem espera uma abordagem mais profunda ou contemporânea sobre empoderamento, ele pode soar raso.

Ainda assim, seu valor histórico e cultural não deve ser descartado.

De Pernas Pro Ar não é perfeito, mas cumpre o que promete dentro de suas limitações. É uma comédia que abriu portas, provocou conversas e apresentou uma protagonista feminina forte em um cenário que ainda carecia dessas histórias. Para o catálogo da Netflix e para o debate sobre representatividade feminina no audiovisual brasileiro, continua sendo uma escolha válida.

Siga o Séries Por Elas no Twitter e no Google News, e acompanhe todas as nossas notícias!

Magdalena Schneider
Magdalena Schneider
Artigos: 2656

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *