Puxe uma cadeira, aceita um mate quente? Aqui no Sul o dia pede essa pausa, e hoje meu coração pediu para lembrar de algo que misture um sorriso largo com aquele nó nostálgico na garganta. Sentada aqui com o meu caderno de anotações, revi Mamonas Assassinas – O Filme, disponível na HBO Max e na Netflix, e fiquei pensando em como o audiovisual tem a capacidade quase mágica de tentar reescrever os nossos lutos coletivos por algumas horas.
Crítica completa de Mamonas Assassinas – O Filme e o mergulho na nostalgia dos anos 90
Quando a agulha da vitrola do tempo bate nos anos 90, é impossível não ser contagiada pela energia solar de cinco meninos de Guarulhos. O diretor Edson Spinello e o roteirista Carlos Lombardi tinham um desafio hercúleo em mãos: transformar um fenômeno meteórico e tragicômico em uma narrativa linear de 1h 35min. O filme escolhe focar na resiliência anterior à fama, mostrando os anos de frustração da banda Utopia antes da virada de chave que os transformou nos Mamonas Assassinas.
O ritmo do longa emula a própria velocidade da carreira deles: é rápido, às vezes apressado, cortando caminhos dramáticos para entregar o que o público deseja, que são as apresentações musicais e a irreverência de bastidores. No entanto, essa velocidade cobra seu preço na profundidade do roteiro.
Para quem busca uma cinebiografia com densidade psicológica profunda sobre as crises de identidade de jovens de periferia diante do sucesso repentino, o longa pode parecer uma colcha de retalhos de momentos felizes. Mas para quem deseja apenas reencontrar a alegria pura que eles emanavam, a produção cumpre sua promessa com louvor.
O Raio-X do Séries Por Elas: Veredito Dinâmico
| O que nos arrebatou (Pontos Fortes) | O que escorregou (Pontos Fracos) |
| A caracterização e entrega corporal impressionantes de Ruy Brissac como Dinho. | O roteiro apressado que dilui os conflitos internos e as subtramas dos outros integrantes. |
| A reconstituição fiel das roupas icônicas e das performances de palco mais famosas. | Falta de profundidade dramática na transição da banda Utopia para o fenômeno nacional. |
| A trilha sonora original que instantaneamente resgata a memória afetiva de toda uma geração. | A direção de arte por vezes limpa demais, lembrando uma estética televisiva de estúdio. |
Por Trás das Câmeras: O Elenco e a Atmosfera Audiovisual
O grande trunfo do filme está na escolha e na preparação de seu elenco principal. Ruy Brissac não apenas interpreta Dinho, ele incorpora o vocalista de uma forma que beira o espiritual; o olhar expressivo, o molejo de palco e o carisma natural iluminam cada cena em que ele aparece. Ao lado dele, Robson Lima (como Júlio Rasec) e Adriano Tunes (como Samuel Reoli) constroem uma química de grupo convincente, fazendo o espectador acreditar genuinamente na cumplicidade daquela amizade de garagem.
Esteticamente, a fotografia do filme opta por cores saturadas e uma iluminação vibrante nas cenas de show, contrastando com tons mais opacos e frios no período em que a banda enfrentava a rejeição das gravadoras. O figurino é um espetáculo à parte, reproduzindo com precisão milimétrica desde as fantasias de Chapolin Colorado até os ternos coloridos que marcaram a apresentação histórica no programa do Faustão. A trilha sonora funciona como um personagem vivo, guiando o batimento cardíaco da narrativa e arrancando sorrisos involuntários a cada acorde conhecido.
A Força do Olhar Feminino e das Conexões Humanas
Como psicóloga e mulher, o que mais me prendeu a atenção não foram os palcos iluminados, mas sim as cozinhas e salas das casas de Guarulhos. A narrativa, embora focada nos rapazes, ganha suas âncoras emocionais nas figuras femininas — as mães, namoradas e irmãs que sustentavam o lado invisível daquela busca pelo sonho. Elas representam a realidade, o pé no chão enquanto eles tentavam alcançar as estrelas.
Há uma sensibilidade bonita em observar como o dilema de “viver de arte ou garantir o sustento” ecoa nas relações familiares. A mãe que se preocupa com as contas, a namorada que sente o distanciamento provocado pela rotina massacrante de ensaios; são dinâmicas humanas universais que conversam diretamente com as dores da mulher contemporânea, que tantas vezes equilibra as próprias ambições com o papel de cuidadora e porto seguro dos sonhos alheios. O filme acerta ao mostrar que os Mamonas Assassinas não nasceram prontos; eles foram gestados pelo amor e pela paciência de uma rede de apoio puramente humana.
Vale a pena assistir a Mamonas Assassinas – O Filme? O Veredito do Coração
No balanço final das minhas emoções de espectadora e crítica, a obra é um abraço quentinho na nossa própria juventude e infância. Ela não busca o status de obra de arte intocável ou cinema de autor cultuado; seu compromisso é com a celebração da vida e da alegria, esquivando-se sutilmente da dor do fatídico acidente de março de 1996 para focar estritamente no brilho do caminho percorrido.
Se você procura um filme perfeito tecnicamente, talvez encontre falhas estruturais de ritmo e montagem. Mas se o seu objetivo é rir, cantar junto e se emocionar com a lembrança de um Brasil que era um pouco mais leve e colorido, esta produção é um bálsamo necessário para o final de semana.
AVISO: O portal Séries Por Elas defende veementemente a valorização do cinema nacional e o trabalho de nossos artistas, técnicos e realizadores. Sempre assista às suas produções favoritas através das plataformas oficiais de streaming, canais de televisão autorizados ou nas salas de cinema. Pirataria não é apenas um crime; ela destrói a engrenagem econômica que permite a contação de novas histórias na nossa própria língua.
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