Imagine caminhar pelo próprio ambiente de trabalho e, de repente, atravessar uma parede invisível para ficar presa em um labirinto infinito de salas vazias, iluminadas por uma luz amarelada e sufocante. Essa é a premissa de Backrooms: Um Não-Lugar, terror conceitual que acaba de estrear nos cinemas brasileiros pelas mãos da prestigiada distribuidora A24.
Com direção do jovem prodígio Kane Parsons e roteiro de Will Soodik, o longa-metragem é uma das experiências mais perturbadoras do ano. Longe de ser apenas um festival de sustos fáceis, o filme usa o isolamento para tocar nas nossas feridas psicológicas mais profundas. Se você busca uma história que desperte aquela angústia silenciosa e morda o calcanhar da sua alma, garanta o seu ingresso. Vale cada segundo.
O Labirinto do Cuidado e a Cura Através da Escuta
No Séries Por Elas, sempre buscamos enxergar como as mulheres se posicionam em cenários de crise extrema. Em Backrooms: Um Não-Lugar, a maravilhosa atriz norueguesa Renate Reinsve dá vida à Dra. Mary Kline, uma terapeuta doce, mas profundamente melancólica. Mary carrega traumas pesados da infância e a sombra de uma mãe abusiva. Ela tenta salvar seus pacientes enquanto vende fitas cassete de autoajuda, um reflexo nítido da mulher moderna que cuida do mundo exterior enquanto tenta não desabar por dentro.
Quando seu paciente desaparece, Mary toma a decisão ativa de romper as fronteiras da lógica e entrar naquele não-lugar para resgatá-lo. Ali, a agência feminina se manifesta não pela força física, mas pela empatia essencial. Em um espaço projetado para enlouquecer e isolar, Mary usa sua bagagem clínica para ler os sinais daquele ambiente hostil.
Ela dialoga diretamente com as mulheres contemporâneas que, muitas vezes, precisam caminhar por verdadeiros labirintos emocionais e profissionais invisíveis para manter sua sanidade e proteger quem amam. A jornada de Mary é um lembrete tocante de que a nossa maior força reside na coragem de encarar nossos próprios fantasmas de frente.
“O verdadeiro horror não está no monstro que nos persegue, mas no silêncio que nos obriga a ouvir a nós mesmos.”
A Estética do Vazio e Atuações que Desarmam
O roteiro de Will Soodik acerta em cheio ao estruturar o filme em duas partes muito bem delimitadas. A primeira metade funciona como um terror psicológico puro e angustiante. Acompanhamos Clark, interpretado pelo brilhante Chiwetel Ejiofor, um arquiteto falido e alcoólatra que gerencia uma loja de móveis de desconto e dorme nos cenários de exposição. Ejiofor entrega uma atuação gigante, transmitindo o desespero de um homem que já se sentia invisível na sociedade antes mesmo de ficar preso no labirinto.
A química entre Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve é o coração da história. Eles constroem uma relação de confiança mútua que serve como o único ponto de calor humano em meio à imensidão gelada daquelas salas idênticas. A direção de Kane Parsons, que tem apenas 20 anos e começou fazendo sucesso no YouTube, mostra uma maturidade impressionante. Ele não apressa a narrativa. Ele permite que o espectador sinta a claustrofobia de cada corredor vazio antes de virar a chave para o horror explícito na segunda metade do filme, quando uma criatura aterrorizante finalmente dá as caras.
Visualmente, a produção é um desbunde desconfortável. O desenho de produção de Danny Vermette cria cenários que parecem saídos de um pesadelo corporativo dos anos 90. A fotografia de Jeremy Cox é cirúrgica: ela utiliza uma luz amarelada terrível, que vaza das lâmpadas fluorescentes como se fosse um gás tóxico, gerando uma atmosfera de cansaço eterno.
A montagem de Greg Ng sustenta planos longos que aumentam nossa ansiedade, enquanto a trilha sonora, composta por Edo Van Breemen ao lado do próprio diretor, usa ruídos industriais e zumbidos elétricos para ditar um ritmo cardíaco acelerado. É um espetáculo visual e sensorial que reescreve as regras do gênero.
“Existem lugares no mundo que não foram feitos para serem habitados, apenas lembrados com dor.”
O Veredito do Coração
Backrooms: Um Não-Lugar é uma obra-prima do terror moderno. O filme consegue pegar um conceito que nasceu na internet e transformá-lo em um estudo profundo sobre solidão, memória e o peso dos nossos fracassos. É uma produção que fica gravada na mente por dias após a sessão terminar.
- Onde Assistir (Oficial): Disponível exclusivamente nos cinemas de todo o Brasil.
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