A Hora da Estrela (1985), dirigido por Suzana Amaral, é um marco do cinema brasileiro. Baseado no romance homônimo de Clarice Lispector, o filme de 96 minutos mistura comédia dramática e crítica social. Com Marcelia Cartaxo no papel principal, ele explora a invisibilidade de uma mulher pobre no Rio de Janeiro dos anos 1970. Relançado em 2024 com restauração digital pela Sessão Vitrine Petrobras, o longa retorna aos cinemas e plataformas como Netflix e Globoplay. Mas afinal, será que vale a pena assistir hoje? Analisamos trama, elenco e legado.
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Premissa e Adaptação Literária
A história segue Macabéa, uma nordestina analfabeta que vive em São Paulo. Ela datilógrafa mal, mora com primas e sonha com luxos simples, como refrigerante e rádio. O narrador, Rodrigo S.M., observa sua rotina banal com desdém e piedade. Um dia, ela consulta uma cartomante que prevê glória. O destino, porém, reserva tragédia.
Suzana Amaral adapta o livro de Lispector com ousadia. Ela elimina o narrador masculino, centralizando o foco em Macabéa. Essa escolha amplifica o grotesco clariceano, transformando o fluxo de consciência em imagens cruas. O filme não imita o texto. Em vez disso, usa licença poética para inserir toques do Cinema Novo e neorrealismo italiano. O resultado é uma narrativa crepuscular, que questiona a existência humana sem didatismo. Críticos como os do Plano Crítico elogiam essa reinvenção, chamando-a de “obra-prima autoral”.
Elenco e Performances Memoráveis
Marcelia Cartaxo, estreante aos 19 anos, encarna Macabéa com maestria. Seus olhos vazios e gestos desajeitados transmitem inocência e vazio existencial. Ela ganhou o Urso de Prata em Berlim (1986), um feito raro para o cinema brasileiro. José Dumont, como Olímpico, o namorado rude, contrasta com brutalidade nordestina. Tamara Taxman, como a cartomante Glória, injeta ironia e melancolia.
O elenco secundário reforça o realismo. As primas de Macabéa, vividas por atrizes anônimas, capturam a opressão feminina cotidiana. Amaral escolheu não profissionais para papéis menores, ecoando o neorrealismo. As performances são contidas, evitando exageros. Cartaxo, em particular, humaniza o “feio” lispectoriano, tornando Macabéa relatable e trágica.
Direção e Estilo Visual
Suzana Amaral, em seu debut, demonstra visão refinada. A fotografia de Edgar Moura usa tons terrosos e enquadramentos apertados para sufocar o espectador. Cenas em apartamentos claustrofóbicos e ruas cinzentas de São Paulo evocam alienação. O som é minimalista: rádio chiando e risos forçados pontuam o silêncio opressivo.
O estilo mescla ironia e lirismo. Quebras de expectativa, como flertes absurdos de Macabéa, geram humor seco. Influências de Pasolini aparecem na “poesia do cotidiano”, transformando o banal em poético. A montagem é fluida, com flashbacks sutis que revelam o passado nordestino. No relançamento de 2024, a restauração digital realça texturas, como a poeira nos cabelos de Cartaxo. Amaral filma com economia, priorizando emoção sobre espetáculo.
Temas e Crítica Social
O filme critica a invisibilidade das mulheres pobres. Macabéa representa o “não ser”, oprimida por classe e gênero. Lispector questiona: “O que é ser humano?”. Amaral responde com imagens de exclusão: Macabéa ignora notícias de fome na TV, focada em seu hot-dog. A sociedade a rotula como “suja” e “desajeitada”, silenciando sua voz.
Há camadas feministas. O olhar de Amaral destaca violências sutis, como o machismo de Olímpico. O filme dialoga com o Brasil pós-ditadura, expondo desigualdades nordestinas. Em 2025, ressoa na era das fake news e polarizações. Críticos do Omelete notam sua “coragem cinematográfica”, ao despirem artifícios para expor contradições femininas. É uma reflexão sobre cultura: o que valorizamos como “belo”?
Pontos Fortes e Limitações
Os acertos incluem a performance de Cartaxo e o estilo visual impactante. A adaptação respeita Lispector sem cópia fiel, criando algo novo. Temas de alienação permanecem atuais, convidando reflexões sobre desigualdade.
Limitações? O ritmo lento pode afastar espectadores modernos. Algumas cenas, como as de devaneios, arriscam o didático. Ainda assim, o equilíbrio entre humor e tragédia mitiga isso. Em 2025, o relançamento corrige falhas técnicas antigas.
Vale a Pena Assistir?
Sim, especialmente agora. O filme educa e emociona, perfeito para quem busca cinema autoral. Assista na Netflix para acessibilidade, ou no cinema pela imersão restaurada. Fãs de Lispector encontrarão essência preservada. Para novatos, é porta de entrada ao drama social brasileiro. Duração curta facilita, mas impacto dura.
A Hora da Estrela transcende tempo. Suzana Amaral transforma prosa clariceana em cinema poético e crítico. Marcelia Cartaxo eterniza Macabéa como ícone de invisibilidade. Em um mundo de narrativas rápidas, ele lembra o poder do silêncio. Vale cada minuto: assista, reflita e sinta a “hora” de questionar o invisível.
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