as-correntes-critica

As Correntes CRÍTICA: O Desabar Silencioso da Alma por Trás de uma Fachada Perfeita

Quem olha de fora e enxerga uma mulher jovem, bonita, premiada e com uma família linda, raramente consegue tatear os abismos que se escondem no silêncio dela. É sobre essa frágil linha entre a aparência e a ruína interior que trata o filme argentino As Correntes (Las Corrientes). Dirigido com uma sensibilidade e elegância raras pela cineasta Milagros Mumenthaler, este drama psicológico de 1h 44min arrebatou plateias em festivais internacionais e chega como uma indicação preciosa.

A produção pode ser assistida legalmente no catálogo do Amazon Prime Video. Deixo aqui o meu aviso mais sincero: se você procura um suspense de sustos fáceis ou respostas mastigadas, este não é o seu lugar. Mas se você se permite guiar por uma obra que respeita a complexidade humana e trata a saúde mental com uma generosidade cortante, este filme vai prender a sua atenção da primeira à última cena.

VEJA TAMBÉM: As Correntes Filme: Elenco, Sinopse e Tudo Sobre↗ 

O Cansaço da Performance e a Mulher que Desaba por Dentro

No portal Séries Por Elas, nós sempre nos propomos a olhar de perto as narrativas sobre o esgotamento feminino na sociedade atual. As Correntes faz um retrato doloroso e extremamente real da exaustão que acompanha a necessidade de manter as aparências.

A protagonista Lina, interpretada pela magnética atriz Isabel Aimé González-Sola, é uma estilista de sucesso em Buenos Aires. Ela tem tudo o que o mundo moderno define como felicidade: um casamento estável, uma filha adorável, dinheiro e prestígio. No entanto, logo na abertura, após receber um prêmio importante em Genebra, na Suíça, ela joga o troféu no lixo e se atira de uma ponte em um rio gelado.

Essa atitude extrema conversa diretamente com as dores das mulheres contemporâneas. Muitas vezes, somos cobradas a exercer uma performance diária de perfeição: precisamos ser profissionais brilhantes, mães impecáveis, esposas dedicadas e estarmos sempre esteticamente alinhadas. O filme mostra o exato momento em que o elástico dessa cobrança arrebenta.

Quando Lina sobrevive ao afogamento e volta para casa, ela desenvolve uma fobia extrema à água. Ela não consegue tomar banho ou lavar a cabeça. Essa paralisia e o entorpecimento emocional de Lina refletem o grito sufocado de tantas mulheres que simplesmente não aguentam mais carregar o peso do mundo nas costas, mas não sabem como pedir ajuda sem serem julgadas pelo olhar vigilante da família e da sociedade.

“A maior solidão de uma mulher não é estar sozinha, mas sim a obrigação de sorrir enquanto se afoga nas próprias correntes.”

A Dança dos Silêncios e a Beleza Sutil do Caos Mental

O roteiro, escrito de forma brilhante pela própria diretora Milagros Mumenthaler, foge das armadilhas fáceis dos clichês de terror ou dramas médicos apelativos. Em vez disso, ela constrói um mistério existencial onde as maiores batalhas acontecem nos pequenos detalhes do dia a dia. Isabel Aimé González-Sola entrega uma atuação de uma transparência assustadora. Seu olhar melancólico diz mais do que páginas inteiras de diálogos.

O elenco de apoio também está impecável. Esteban Bigliardi vive o marido, Pedro, um homem amoroso e presente, mas que carrega uma leve possessividade sutil no toque e nos gestos. As cobranças cotidianas surgem também em falas inocentes da filhinha Sofía (Emma Fayo Duarte) e nas alfinetadas da sogra, vivida por Claudia Sánchez, criando uma pressão psicológica invisível, mas asfixiante.

Visualmente, a produção é de uma sofisticação ímpar. A direção de fotografia do romeno Gabriel Sandru retrata Buenos Aires sob uma luz que é, ao mesmo tempo, luminosa e indecifrável. As cores fortes das roupas desenhadas por Lina contrastam com a paleta sóbria do seu apartamento minimalista. O grande trunfo do filme é o seu desenho de som.

O volume dos ruídos cotidianos — o barulho de uma furadeira na rua, o motor de um secador de cabelo, o estalar das máquinas de costura e o bipe de jogos eletrônicos — é amplificado. Essa cacofonia sonora insere o espectador diretamente no cérebro desorganizado e hipersensível de Lina.

Há momentos de puro brilhantismo em que o filme ganha contornos de fantasia poética. Em sua crise, Lina passa a ter visões telepáticas com outras mulheres ao seu redor — sua assistente Julia (Ernestina Gatti), costureiras idosas, clientes ricas —, imaginando suas rotinas ou seus medos enquanto a música clássica da suíte Os Planetas, de Gustav Holst, ecoa ao fundo.

A amizade com Amalia, interpretada por Jazmín Carballo, rende uma das cenas mais belas e estranhas do cinema recente, em que Lina precisa ser sedada em um salão de beleza para conseguir lavar o corpo. É uma direção precisa que só escorrega um pouco no terceiro ato, ao tentar dar uma explicação psicológica um tanto didática para o estado de Lina, mas que não estraga o mistério transfixante da obra.

O Veredito do Coração

<strong>NOTA: 4/5</strong>

As Correntes é um estudo de personagem hipnótico e generoso. Ele se recusa a julgar ou punir sua protagonista. Em vez disso, estende a ela a compaixão e a empatia que o mundo real tantas vezes nega. É um filme que permanece na mente muito tempo depois que os créditos sobem, deixando um eco persistente sobre a importância de enxergarmos a nós mesmas com mais leveza.

  • Onde Assistir (Oficial): Amazon Prime Video

AVISO: O portal Séries Por Elas reforça que o cinema de autor e as coproduções internacionais dependem diretamente do apoio do público para continuar existindo. Assistir a As Correntes através de meios legais no streaming oficial garante a segurança dos seus dados digitais e valoriza o esforço técnico e artístico de centenas de profissionais da cultura. Não apoie sites piratas; proteja a integridade de quem transforma nossas dores em arte.

Siga o Séries Por Elas no X (Twitter), Instagram, Threads e no Google News, e acompanhe todas as nossas notícias!

Rolar para cima