Não faz muito tempo, crianças eram vistas e tratadas como mini-adultos. Vistas como mais uma boca para alimentar, meninos e meninas iam cedo para tarefas que ajudassem a garantir seu próprio sustento. O conceito de infância e adolescência, proteção e prioridade absoluta são recentes em nossa sociedade. Assistir Anne With an E requer um certo recorte histórico – e uma caixinha de lenços.

Para quem trabalha com a promoção e defesa da infância e adolescência há tantos anos, a dor da menina é familiar. Não é raro crianças serem devolvidas para os abrigos após a adoção, acredite. Em muitas cidades por esse Brasil de meu deus, meninas são colocadas para trabalhar como domésticas em casas de famílias ricas. Todos os dias, meninos e meninas pobres têm a infância violada como se ainda estivéssemos distantes do século XXI.

A história da pequena Anne é a história de tantas crianças pobres de ontem e de hoje. Por isso mesmo é fácil se emocionar com os conflitos da menina. Magra e ruiva, ficou órfã aos três meses e, desde então, trabalha para sobreviver. Empregada em casas de família, cuidando de crianças como ela, lavando, passando, cortando lenha. Os olhinhos azuis e vívidos da menina já suportaram todo peso da crueldade humana. Humilhada, agredida e esgotada, ela encontra na adoção realizada pelo casal de irmãos já mais velhos um sopro de esperança.

Os irmãos, Marilla e Matthew Cuthbert queriam adotar um menino. Braços fortes e ágeis para ajudar na lida diária do campo. Mas o que aparece na estação de trem para eles é a pequena Anne Shirley. Menina faladeira e miúda que em nada atende as expectativas dos irmãos adotantes.

irmãos

O primeiro episódio é triste, todo ele desenhando a vida dessa menina jogada pra lá e pra cá. Uma história de rejeição, negligência e resiliência. Mas se a história é triste, na mesma medida a menina segue confiante em dias melhores. Vendo beleza por onde quer que passe, teima em acreditar que se desejar firmemente alguma coisa, aquela coisa vai se realizar. Tem a esperteza de uma menina que lê muito, o vocabulário de uma pessoa que se diverte conversando e alimenta as fantasias de sua cabecinha imaginativa.

Com a mente arguta e vivaz de uma menina de 13 anos, Anne dá nome às coisas, usa superlativos, encanta o interlocutor mais desavisado. Com a coragem que a vida lhe obrigou a ter, não sucumbe às negativas, às rejeições e aos percalços. Anne é uma sobrevivente e cada flashback, seja dos seus dias com uma família que tinha oito crianças para ela cuidar, seja em um orfanato cheio de crianças, deixa claro que a menina é mais forte do que seu corpinho mirrado demonstra.

anne carruagem

A fotografia é deslumbrante, a ambientação é bastante agradável e os diálogos são interessantes. Além disso, a interpretação das atrizes e dos atores, das crianças aos adultos, é sólida. Ao contrário da obra original, o livro “Anne of Green Gables”, de L.M. Montgomery’s, a série é mais dramática do que cômica. No entanto, isso não a torna melhor nem pior, apenas confere um outro tom à narrativa. Com sete episódios, a história promete ser bem interessante. Apesar de longo, com 89 minutos, o primeiro episódio não tem nada de cansativo ou arrastado. Pelo contrário, nos introduz à realidade da menina, dos Cuthbert e do que vem pela frente para a pequena Anne.

Mas não espere uma série de aventuras fantasiosas estrelada por uma menina espirituosa. Anne With an E não é assim. Apesar de suas pequenas doses de fantasia, muito mais advindas dos delírios infantis da menina do que qualquer outra coisa, a série é sobre pessoas. Sobre as relações que se estabelecem tendo amor e aceitação. A minha primeira impressão, é que a série é sobre reconstruir a si e aos outros por meio da confiança e das segundas chances. Mesclando a linguagem – inclusive visual- vitoriana com a moderna a série arrisca, não acerta o tempo todo, mas também não está completamente desconectada de sua proposta.

ANNE