Sabe aqueles dias em que a gente precisa de uma história que nos tire totalmente da zona de conforto e nos faça refletir sobre as voltas que a vida dá? Pois bem, acabo de rever o doloroso e magnífico Incendies (Incêndios), clássico moderno disponível no catálogo do Prime Video, e sinto que meu peito ainda busca o ritmo normal da respiração diante de uma das obras mais viscerais deste século.
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Vale a pena assistir a Incendies (Incêndios)? Crítica completa da obra
Se você busca uma narrativa linear, mastigada ou puramente digestiva, este filme não é para você. Agora, se você valoriza o cinema que desafia sua inteligência e cutuca feridas existenciais, a resposta é um sonoro sim. Dirigido e roteirizado pelo mestre Denis Villeneuve em 2011, o longa-metragem canadense transcende o rótulo de mero drama de guerra para se transformar em uma tragédia grega contemporânea de proporções monumentais.
Acompanhamos a jornada dos gêmeos Jeanne, vivida por Mélissa Désormeaux-Poulin, e Simon, interpretado por Maxim Gaudette, logo após a morte de sua mãe, a enigmática Nawal Marwan, papel da extraordinária Lubna Azabal. O ponto de partida é a leitura de um testamento incomum conduzida pelo tabelião Jean Lebel, vivido por Rémy Girard. Nawal deixa duas cartas misteriosas: uma para um pai que os gêmeos acreditavam estar morto, e outra para um irmão cuja existência eles jamais suspeitaram.
O ritmo do roteiro é uma verdadeira aula de engenharia narrativa. Villeneuve alterna o tempo presente da investigação dos filhos com o passado tortuoso de Nawal em um país fictício do Oriente Médio, fortemente inspirado nos horrores reais da guerra civil do Líbano. A precisão milimétrica com que os mistérios vão se desdobrando impede que o espectador desvie o olhar, mesmo quando a tela transborda sofrimento.
Não há gorduras ou cenas gratuitas aqui. Cada pista, cada silêncio e cada canção inserida servem como engrenagens que nos conduzem de forma inevitável a uma das revelações mais avassaladoras e inesquecíveis da história da sétima arte.
O Raio-X do Séries Por Elas: Prós e Contras de Incendies
| O que nos arrebatou (Pontos Fortes) | O que escorregou (Pontos Fracos) |
| A atuação monumental de Lubna Azabal, que transmite a dor de uma vida inteira apenas com a força do olhar. | O ritmo do início do segundo ato pode parecer ligeiramente truncado para quem não está acostumado a idas e vindas temporais. |
| A direção cirúrgica de Denis Villeneuve, equilibrando a crueza da guerra com uma sensibilidade poética tocante. | Algumas conveniências geográficas na busca dos irmãos pelo Oriente Médio exigem uma leve suspensão da descrença. |
| A trilha sonora marcante, especialmente o uso cirúrgico da canção “You and Whose Army?”, do Radiohead, que dita a atmosfera do filme. | A carga dramática e psicológica é tão severa que torna a obra difícil de ser reassistida com frequência. |
A Força do Olhar Feminino e das Conexões Humanas em Incêndios
Como psicóloga, não posso deixar de analisar a imensa camada de trauma intergeracional que move a trama. A figura de Nawal Marwan representa a mulher esmagada por engrenagens culturais, religiosas e políticas patriarcais violentas, mas que recusa a posição de mera vítima passiva. Ela ama, ela odeia, ela resiste de armas na mão e, acima de tudo, ela canta na prisão para manter viva a sua própria humanidade.
A agência feminina em Incendies (Incêndios) se manifesta na resiliência brutal. Nawal sobrevive ao insustentável para que, através de seus filhos, a verdade possa finalmente libertar as próximas gerações do ciclo maldito do ódio e da vingança de sangue.
A relação entre os gêmeos Jeanne e Simon também ilustra perfeitamente como reagimos de formas distintas ao luto e aos segredos de família. Enquanto Jeanne abraça a missão de desvendar o passado da mãe quase como uma necessidade biológica de compreender a si mesma, Simon reage inicialmente com raiva e negação, tentando se proteger de verdades que pressente serem devastadoras.
O filme nos mostra que os segredos não ditos funcionam como fantasmas que assombram nossa árvore genealógica. Só quando os filhos reconstroem os passos da mãe e compreendem suas dores inconscientes é que eles conseguem, finalmente, dar um sepultamento digno não apenas ao corpo de Nawal, mas ao próprio ciclo de violência que os gerou.
Por Trás das Câmeras: O Elenco e a Atmosfera Audiovisual
A atmosfera estética construída por Villeneuve e pelo diretor de fotografia André Turpin é de uma beleza melancólica e sufocante. A iluminação utiliza os tons áridos, quentes e poeirentos do Oriente Médio em contraste com o cinza frio e urbano do Canadá, marcando visualmente a distância geográfica e emocional entre o passado traumático e o presente em busca de respostas.
O figurino simples de Nawal, que vai se transformando à medida que ela perde seus vínculos e sua liberdade, ajuda a contar a história de sua decadência física e fortalecimento espiritual sem que nenhuma linha de diálogo precise ser dita.
A química do elenco é impecável. A dinâmica de urgência entre Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette sustenta o peso dramático no tempo presente, nos fazendo caminhar lado a lado com suas descobertas aterrorizantes. Destaco também a figura reconfortante do tabelião Jean Lebel, interpretado por Rémy Girard, que atua como o fio condutor ético e afetivo, fornecendo o suporte necessário para que aqueles jovens não desmoronem diante do abismo que se abre sob seus pés.
Baseado na aclamada peça teatral do autor libanês-canadense Wajdi Mouawad, o filme preserva a grandiosidade poética do texto original, mas ganha uma escala cinematográfica intimista sob o comando técnico impecável de Villeneuve.
O Veredito do Coração e Recomendação Final
No encerramento desta jornada dolorosa, Incendies (Incêndios) se consolida como uma obra-prima absoluta sobre o poder do perdão e a busca pela identidade. Ele nos prova que, mesmo em meio às cinzas da guerra mais sangrenta e cruel, a linha mais forte que une a humanidade ainda é o amor materno em sua forma mais pura e sacrificial.
Preparar o espírito para assistir a este longa é um exercício de coragem, mas o retorno emocional e reflexivo é para a vida toda. Termino meu mate com o coração apertado, mas profundamente grata pela existência de um cinema deste calibre. Meu selo de recomendação afetiva é absoluto.
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