Mestres do Universo CRÍTICA

Mestres do Universo CRÍTICA: Entre a Armadura do Machismo e a Força do Afeto

Trazer heróis de plástico dos anos 80 para as telas do cinema em 2026 parecia uma missão fadada ao fracasso ou ao puro cinismo comercial. No entanto, Mestres do Universo, nova superprodução da Amazon MGM Studios dirigida por Travis Knight, consegue a proeza de transformar o absurdo em afeto.

O longa-metragem, que acaba de estrear nos cinemas de todo o Brasil, equilibra-se entre a nostalgia colorida e uma desconstrução muito bem-vinda da masculinidade tradicional. Longe de ser apenas uma correria vazia de efeitos visuais, o filme merece o seu ingresso porque escolhe olhar para o homem por trás do herói com uma sensibilidade rara no cinema de ação atual.

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Dentro do universo de Eternia, a força nunca foi exclusividade dos homens, mas o cinema muitas vezes esquece de dar alma às guerreiras. Em Mestres do Universo, a diretriz muda. O roteiro, que contou com a colaboração sensível de Chris Butler, transforma Teela, vivida por Camila Mendes, na verdadeira espinha dorsal da narrativa. Ela não é a donzela que espera o retorno do príncipe.

Teela é a guerreira que manteve a resistência viva em um reino devastado. Quando reencontra Adam na Terra, ela não enxerga apenas um salvador; ela cobra dele a maturidade necessária para assumir um legado que ela mesma ajudou a proteger.

Essa dinâmica conversa profundamente com as mulheres contemporâneas. Quantas de nós não nos desdobramos diariamente para sustentar estruturas — sejam familiares ou profissionais — enquanto os homens ao redor tentam entender seus próprios papéis? Teela representa essa força que não pede licença, guiada pela competência e pelo senso de dever.

Ao mesmo tempo, a produção nos entrega a vilã Evil-Lyn, interpretada por Alison Brie com um corte de cabelo bob loiro marcante e uma energia deliciosamente cortante. Evil-Lyn não aceita a submissão ao tirano Skeletor; ela joga o próprio jogo político nas sombras do poder.

Até mesmo na figura da Feiticeira real, interpretada com imponência por Morena Baccarin, o filme destaca o sacrifício e a agência materna como o motor que protege o futuro. A narrativa ganha pontos ao mostrar que, no mundo real ou em Eternia, a sensibilidade e a liderança feminina não são forças secundárias, mas sim o eixo que impede o caos definitivo.

“A verdadeira agência feminina na tela não serve de escada para o herói; ela define os rumos da própria história.”

A Psique da Força Genuína e a Estética da Nostalgia

Sob o meu olhar como psicóloga, o maior acerto de Mestres do Universo está na construção da psique de seu protagonista. O príncipe Adam, vivido pelo talentoso Nicholas Galitzine, passa 15 anos exilado na Terra trabalhando em um departamento de Recursos Humanos.

Pense no simbolismo disso: o menino traumatizado pela guerra cresce aprendendo a desarmar conflitos através da palavra, da empatia e do acolhimento. Quando ele redescobre a Espada do Poder e se transforma no imponente He-Man, seu maior desafio não é o tamanho dos músculos, mas conciliar sua essência sensível com a exigência de uma brutalidade masculina que ele rejeita.

Galitzine entrega uma atuação tocante. Ele transita entre a vulnerabilidade de um jovem que tenta se ajustar ao próprio corpo e a imponência física do herói de sunga de couro. É um homem moderno tentando curar a ferida do passado com o pai, o rígido Man-at-Arms, interpretado com uma deliciosa canastrice por Idris Elba.

E então, precisamos falar sobre Jared Leto. Como Skeletor, Leto entrega uma das performances mais divertidas e magnéticas de sua carreira. Através de um crânio computadorizado impressionante, ele cria um vilão teatral, espalhafatoso e cheio de deboche, que purra e gargalha como os grandes antagonistas clássicos dos anos 80. A química de repulsa e fascínio entre ele e o He-Man de Galitzine traz uma camada deliciosa de humor ao filme.

Visualmente, o diretor Travis Knight faz escolhas corajosas. Ele rejeita a fotografia cinzenta do cinema moderno e abraça uma Eternia vibrante, pintada em tons de rosa, roxo, verde e laranja, que parecem saídos diretamente de uma caixa de brinquedos iluminada.

A trilha sonora de Daniel Pemberton, que conta com a colaboração do guitarrista Brian May, do Queen, dita um ritmo febril. O uso da icônica canção “Princes of the Universe” durante o confronto final eleva a adrenalina ao máximo.

A montagem de Eddie Hamilton dita cortes rápidos nas batalhas, mas tem a sensibilidade de desacelerar o ritmo para focar no olhar de Adam quando ele falha, humanizando o semideus. A direção de Knight prova que é possível abraçar a cafonice intencional de uma propriedade intelectual sem perder o coração da história.

“O verdadeiro poder não reside na rigidez da armadura, mas na coragem de acolher as próprias fraquezas.”

O Veredito do Coração

<strong>NOTA: 4/5</strong>

Mestres do Universo surpreende ao trocar o machismo ultrapassado por um debate maduro sobre o que realmente significa ser forte hoje. Embora o roteiro dê algumas voltas desnecessárias no segundo ato, a produção entrega um espetáculo visual deslumbrante, atuações divertidas e uma mensagem profunda sobre o poder da empatia e do trabalho em equipe. É uma aventura deliciosa para toda a família e um acalento para a nossa criança interior.

  • Onde Assistir (Oficial): Exclusivamente nos Cinemas (Distribuição Amazon MGM Studios).

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