Exibida originalmente em 1999 pela Rede Globo, a novela Terra Nostra transcendeu o formato tradicional da teledramaturgia para se consolidar como um dos maiores épicos históricos da televisão brasileira. Escrita pela mente genial de Benedito Ruy Barbosa e com direção de Jayme Monjardim, a trama parou o país ao narrar a romântica, porém sofrida, jornada da imigração italiana no Brasil do final do século XIX, imortalizada pelo amor arrebatador de Giuliana (Ana Paula Arósio) e Matteo (Thiago Lacerda).
Com cenários grandiosos, uma trilha sonora inesquecível e um rigor histórico ímpar, o verdadeiro coração da novela pulsava através de um elenco estelar. A produção reuniu algumas das maiores lendas da dramaturgia nacional — talentos de peso que deram vida a imigrantes e brasileiros em atuações memoráveis, rendendo recordes absolutos de audiência e exportação para dezenas de países.
No entanto, mais de duas décadas se passaram desde a exibição daquele inesquecível primeiro capítulo a bordo do navio Andrea Doria. Com o inevitável avanço do tempo, o público teve que se despedir de muitos desses ícones que ajudaram a pavimentar a história da nossa televisão. O vazio deixado por artistas tão grandiosos é preenchido hoje pela saudade e pelo valor documental de suas atuações.
Se você é um apaixonado pela teledramaturgia e quer preservar a memória da nossa arte, preparamos este dossiê completo e emocionante. Acompanhe a seguir a lista detalhada e descubra quais atores de Terra Nostra já morreram, relembre a força de seus personagens e celebre o imenso legado que cada um deixou para a cultura do Brasil.
Atores de Terra Nostra que já morreram
Raul Cortez (Francesco Magliano)

Quando se fala na grandiosidade de Terra Nostra, é impossível não destacar a presença magnética de Raul Cortez. Considerado um dos maiores atores da história da televisão, do teatro e do cinema brasileiro, Cortez entregou na novela de Benedito Ruy Barbosa uma das atuações mais memoráveis de sua brilhante carreira.
Na trama, Raul Cortez deu vida a Francesco Magliano, um imigrante italiano que chegou ao Brasil com pouco, mas, graças à sua astúcia e visão para os negócios, construiu um verdadeiro império em São Paulo, tornando-se um poderoso banqueiro e fazendeiro, frequentemente chamado de “Rei do Café”.
Francesco era um personagem de camadas profundas e complexas. Ele representava o sucesso absoluto do imigrante que “fez a América”, mas também carregava dilemas morais intensos. Inicialmente visto como um homem de negócios implacável e um pai autoritário para Marco Antônio (Marcello Antony) e marido distante de Janete (Ângela Vieira), o personagem passou por uma imensa transformação emocional. Ao se apaixonar pela bela e jovem italiana Paola (Maria Fernanda Cândido), o público viu um Francesco vulnerável, apaixonado e disposto a recomeçar sua vida, o que rendeu ao ator o carinho imediato da audiência.
O romance entre Francesco e Paola tornou-se um dos núcleos mais queridos pelo público de Terra Nostra, muitas vezes ofuscando até mesmo os protagonistas mais jovens. A elegância natural de Raul Cortez, somada ao seu domínio absoluto da atuação, conferiu a Francesco uma dignidade que marcou a teledramaturgia da época. Suas cenas eram aulas de interpretação, equilibrando o sotaque italiano na medida certa, sem cair na caricatura.
- Falecimento: O ator nos deixou no dia 18 de julho de 2006, aos 73 anos, na cidade de São Paulo.
- Causa e Despedida: Raul lutava contra um câncer no pâncreas e no intestino delgado desde 2004. Sua morte gerou uma comoção nacional e paralisou a classe artística brasileira, que perdeu ali um de seus mestres mais refinados.
Gianfrancesco Guarnieri (Giulio)

Apesar de sua passagem por Terra Nostra ter se concentrado na primeira fase da trama, a participação especial de Gianfrancesco Guarnieri foi o estopim emocional e dramático de toda a novela. Um verdadeiro monstro sagrado do teatro, do cinema e da televisão no Brasil, Guarnieri entregou uma carga dramática intensa logo no capítulo de estreia, arrebatando a audiência de imediato.
Na grandiosa produção de Benedito Ruy Barbosa, Guarnieri interpretou Giulio, o amoroso e esperançoso pai da protagonista Giuliana (Ana Paula Arósio). Giulio embarca no navio italiano Andrea Doria com o sonho de construir uma vida próspera para sua família nas fartas lavouras de café brasileiras.
No entanto, a esperança é interrompida de forma brutal. Durante a exaustiva travessia transatlântica, Giulio é acometido pelo surto de peste (cólera) que assola as precárias acomodações da terceira classe do navio. Sua morte agonizante e o posterior descarte de seu corpo no mar deixam Giuliana órfã, desamparada e dão início à longa jornada de dor, desencontros e superação da heroína. Foi a força da atuação de Guarnieri que estabeleceu o peso das dificuldades da imigração na trama.
O ator nasceu em Milão, na Itália, em 1934, e imigrou para o Brasil com seus pais quando era criança, fugindo do regime fascista europeu. Ao interpretar o imigrante Giulio, Guarnieri estava, de certa forma, honrando a coragem de sua própria família e de milhões de compatriotas que cruzaram o oceano, o que transpareceu em cada olhar e sotaque do personagem.
- Falecimento: O ator faleceu no dia 22 de julho de 2006, aos 71 anos, na capital paulista.
- Causa e Contexto: Guarnieri foi vítima de complicações geradas por insuficiência renal crônica. Na época, ele estava no ar gravando a novela Belíssima e, mesmo com a saúde bastante debilitada, fazia questão de trabalhar gravando suas cenas em uma cadeira de rodas.
Lolita Rodrigues (Dolores)

Quando se fala na formação da identidade televisiva no Brasil, o nome de Lolita Rodrigues é um dos pilares centrais. Em Terra Nostra, uma novela predominantemente focada na imigração italiana, a atriz trouxe um respiro cultural diferente e irresistível ao interpretar a matriarca espanhola Dolores Martinez, roubando a cena com sua energia inconfundível.
Dolores era a carismática, porém enérgica, dona da pensão de imigrantes em São Paulo, local que serviu como um dos cenários mais importantes para o núcleo urbano da trama. É na pensão de Dolores que a protagonista Giuliana (Ana Paula Arósio) e Matteo (Thiago Lacerda) encontram abrigo em um dos momentos mais difíceis de suas vidas.
Descendente de espanhóis na vida real, Lolita emprestou suas raízes para a personagem. Dolores era uma mulher forte, de sotaque carregado e personalidade marcante, que não levava desaforo para casa. Ao mesmo tempo, demonstrou um enorme coração ao se tornar uma grande amiga e conselheira de Giuliana. A personagem também protagonizou excelentes momentos de humor e emoção na relação com sua filha na trama, a expansiva Hortência, vivida por Cláudia Raia.
Lolita Rodrigues fez parte da primeira geração da televisão no Brasil — cantou o hino da TV brasileira na inauguração da TV Tupi, em 1950. Ao lado de suas inseparáveis amigas Hebe Camargo e Nair Bello, Lolita moldou o entretenimento nacional. Sua presença na novela de Benedito Ruy Barbosa foi tratada como um verdadeiro luxo para a produção.
- Falecimento: A icônica atriz nos deixou recentemente, no dia 5 de novembro de 2023, aos 94 anos, em João Pessoa (PB).
- Causa e Legado: Lolita faleceu no Hospital Nossa Senhora das Neves, vítima de complicações decorrentes de uma pneumonia. Sua partida gerou uma imensa onda de homenagens de todas as emissoras do país, celebrando não apenas o talento de quem deu vida à inesquecível Dolores, mas a mulher que literalmente ajudou a inaugurar a televisão no Brasil.
Elias Gleizer (Padre Olavo)

Se houve um ator capaz de transmitir paz, sabedoria e acolhimento apenas com o olhar na teledramaturgia brasileira, esse foi Elias Gleizer. Em Terra Nostra, ele desempenhou um papel que consolidou sua grande marca registrada na televisão: a de um homem bondoso, conselheiro e de profunda fé.
Na obra de Benedito Ruy Barbosa, Elias Gleizer deu vida ao carismático Padre Olavo. Ele era o sacerdote responsável pela paróquia da região onde ficava a imensa fazenda de café do rigoroso coronel Gumercindo (Antônio Fagundes).
Mais do que uma figura puramente religiosa, Padre Olavo funcionava como a bússola moral do núcleo rural da novela. Era ele quem apaziguava os ânimos exaltados, aconselhava os colonos e tentava, a todo custo, ajudar a jovem Angélica (Paloma Duarte) a realizar seu grande sonho de se tornar freira — enfrentando, com diplomacia e paciência, a resistência implacável de seu pai. Com um tom de voz calmo, as cenas de Gleizer traziam um respiro de ternura em meio aos densos conflitos de poder, traições e paixões da história.
Filho de imigrantes judeus poloneses, o ator paulistano construiu uma carreira sólida de mais de cinco décadas. Gleizer era amplamente reconhecido pelo público como o “eterno vovô” ou o grande sacerdote das novelas. Ele mesmo brincava em entrevistas que já havia interpretado mais de dez padres em sua carreira, além de freis, tamanha era a doçura e a autoridade pacífica que ele passava em frente às câmeras.
- Falecimento: Elias Gleizer nos deixou no dia 16 de maio de 2015, aos 81 anos, no Rio de Janeiro.
- Causa e Contexto: A morte do ator foi desencadeada por um acidente doméstico grave. Dias antes de seu falecimento, Gleizer sofreu uma dura queda em uma escada rolante, o que resultou na fratura de cinco costelas e na perfuração de um de seus pulmões. Ele foi internado às pressas, mas seu quadro clínico se agravou. O ator, que já enfrentava problemas renais crônicos desde 2011, acabou desenvolvendo uma broncopneumonia no hospital, que infelizmente evoluiu para uma falência circulatória.
Gésio Amadeu (Damião)

Com um dos sorrisos mais bondosos e inesquecíveis da nossa televisão, Gésio Amadeu trouxe uma humanidade ímpar para Terra Nostra. Representando a população negra no contexto da virada do século no Brasil, sua atuação foi marcada pela doçura, respeito e enorme carisma.
Na trama, Gésio interpretou Damião, o dedicado cocheiro e braço direito do poderoso banqueiro Francesco Magliano (Raul Cortez) na cidade de São Paulo. (Vale aqui um pequeno e importante ajuste histórico no nosso texto: enquanto o núcleo da fazenda contava com os funcionários de Gumercindo, Damião brilhava no núcleo urbano paulistano e rico da novela).
Damião não era apenas um motorista de carruagens; ele era um observador atento e um homem de profunda empatia. Ele foi um dos personagens que mais se compadeceu da triste jornada de Giuliana (Ana Paula Arósio), oferecendo-lhe apoio moral nas horas mais sombrias. O personagem também encabeçou um núcleo familiar lindo, sendo irmão da determinada Naná (Adriana Lessa) e revelando-se, mais tarde na história, o verdadeiro pai do menino Tiziu (André Luiz Miranda).
Com uma longa e respeitada carreira iniciada no teatro e na extinta TV Tupi, o ator mineiro colecionou personagens que marcaram a cultura pop brasileira. Antes mesmo de Terra Nostra, ele havia entrado para a história afetiva do país como o carinhoso Chefe Chico, o cozinheiro do orfanato na primeira versão de Chiquititas (1997), no SBT. Na Globo, construiu uma trajetória brilhante, eternizando o Jupará da primeira versão de Renascer (1993), o Tio Barnabé do Sítio do Picapau Amarelo (2007) e o sábio Chico Criatura em Velho Chico (2016).
- Falecimento: O querido ator nos deixou no dia 5 de agosto de 2020, aos 73 anos, na cidade de São Paulo.
- Causa e Contexto: Gésio foi uma das tristes estatísticas da pandemia de Covid-19. Ele havia sido internado em um hospital na capital paulista para tratar problemas pré-existentes de hipertensão. Infelizmente, acabou contraindo o coronavírus dentro do ambiente hospitalar. Após mais de um mês lutando na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ele não resistiu às complicações geradas pela doença e faleceu por falência múltipla de órgãos.
Mara Manzan (Dona Aurora)

Apesar de sua passagem por Terra Nostra ter sido mais focada em momentos específicos da trama, a presença de Mara Manzan sempre se fez notar graças ao seu carisma magnético. Conhecida por sua energia vibrante e por interpretar mulheres de personalidade forte e despachada, a atriz entregou uma atuação extremamente acolhedora e humana na obra de Benedito Ruy Barbosa.
Na novela, Mara Manzan deu vida à simpática Dona Aurora, uma habilidosa costureira na cidade de São Paulo. A personagem ficou marcada por participar de uma cena muito simbólica na jornada da protagonista Giuliana (Ana Paula Arósio): foi Aurora a responsável por confeccionar o lindo vestido de noiva da italiana. Em um momento onde a mocinha já havia sofrido tantas perdas desde que deixou a Europa, Dona Aurora trouxe uma aura de leveza, esperança e alegria genuína para a trama.
A atriz construiu uma carreira inesquecível na TV Globo, eternizando-se alguns anos depois como a icônica Odete na novela O Clone (2001) — dona do lendário bordão “cada mergulho é um flash!”. Com forte ligação com as artes circenses (ela era uma das raras atrizes que dominava a técnica de engolir fogo), Mara era amada nos bastidores por sua sede de viver e seu alto-astral inabalável.
Uma Corajosa Batalha Pela Vida Infelizmente, a vida da atriz também foi marcada por duras batalhas contra problemas de saúde. Em 1998, pouco antes de Terra Nostra, ela já havia vencido com muita bravura um câncer no útero e nos ovários.
- Falecimento: A talentosa atriz nos deixou de forma precoce no dia 13 de novembro de 2009, aos 57 anos, na cidade do Rio de Janeiro.
- Causa e Contexto: Mara enfrentava um agressivo câncer de pulmão, diagnosticado em 2008. Mostrando uma força de vontade impressionante, ela fez questão de continuar trabalhando mesmo durante as sessões de quimioterapia. Seu último papel foi como a indiana Ashima em Caminho das Índias (2009), precisando se afastar apenas na reta final da obra. A doença, infelizmente, evoluiu para uma metástase.
Ilva Niño (Irmã Letícia)

Se os grandes conflitos de Terra Nostra giravam em torno das fazendas de café e das mansões, o suporte emocional e moral da história muitas vezes repousava nas figuras acolhedoras da trama. Ilva Niño, com sua presença sempre afetuosa e autêntica, cumpriu magistralmente esse papel ao interpretar a Irmã Letícia.
Na épica narrativa de Benedito Ruy Barbosa, as instituições religiosas, os conventos e os orfanatos tiveram um peso gigantesco — especialmente devido ao dramático arco em que o bebê de Giuliana (Ana Paula Arósio) é cruelmente tirado de seus braços e levado para a adoção. Inserida nesse contexto de abrigos e fé, a Irmã Letícia representava a compaixão pura. Com atuações sempre pautadas por uma naturalidade ímpar, Ilva trazia um tom maternal para a personagem, sendo uma figura de enorme respeito e carinho dentro do núcleo religioso da novela.
Com uma carreira que atravessou oito décadas, a atriz pernambucana imortalizou o rosto das mulheres fortes, nordestinas e batalhadoras da nossa ficção. Muito antes de Terra Nostra, ela já havia entrado para a história do país em 1985, ao interpretar a inesquecível e submissa empregada Mina na novela Roque Santeiro, parceira de cena da icônica Viúva Porcina (Regina Duarte). Ter uma atriz desse calibre na novela garantiu uma conexão direta e afetuosa com o grande público.
- Falecimento: A veterana nos deixou recentemente, no dia 12 de junho de 2024, aos 90 anos, na cidade do Rio de Janeiro.
- Causa e Contexto: A atriz estava internada desde maio em um hospital em Ipanema. Ela precisou ser submetida a uma delicada cirurgia cardíaca, mas seu quadro clínico se agravou após complicações respiratórias, digestivas e renais. Ilva, infelizmente, não resistiu e faleceu vítima de falência múltipla de órgãos.
Mário César Camargo (Anacleto)

No rico mosaico de personagens de Terra Nostra, a figura do imigrante que buscava ascensão social a qualquer custo foi perfeitamente representada por Mário César Camargo. O ator entregou uma performance memorável ao dosar drama, teimosia e momentos de alívio cômico na medida certa.
Mário César interpretou Anacleto, um imigrante italiano que já vivia no Brasil ao lado da esposa Inês (Débora Olivieri) e da belíssima filha Paola (Maria Fernanda Cândido). Diferente dos colonos que suavam nas lavouras sob o sol, Anacleto era movido pela ambição e via nas relações da filha a grande chance de enriquecer e se tornar um proprietário de terras.
Ele encontrou essa oportunidade ao incentivar o envolvimento de Paola com o advogado Augusto (Gabriel Braga Nunes), filho do rico fazendeiro Altino (Odilon Wagner). Mais tarde, a dinâmica da família muda drasticamente quando Paola se envolve com o poderoso Francesco Magliano (Raul Cortez). A atuação de Mário César brilhou ao mostrar um pai de família controlador, muitas vezes interesseiro, mas que, no fundo, refletia o desespero real de muitos imigrantes para escapar da pobreza no novo país.
Mário César Camargo possuía uma base teatral extremamente sólida, o que refletia na precisão de suas atuações na TV. Ele iniciou sua carreira nos anos 1960, no efervescente Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (UNE), e colecionou dezenas de peças elogiadas — chegando a atuar ao lado do próprio Raul Cortez nos palcos de teatro antes de se encontrarem na novela. Na TV Globo, além de Terra Nostra, ele imortalizou personagens em tramas como Coração de Estudante (2002) e marcou presença no grande sucesso Chocolate com Pimenta (2003).
- Falecimento: Mário faleceu no dia 10 de outubro de 2022, aos 75 anos, na cidade de Belo Horizonte (MG), onde vivia desde o final dos anos 1980.
- Causa e Contexto: O ator caminhava tranquilamente pela rua quando sofreu um mal súbito fulminante, sofrendo uma queda e vindo a óbito no local. A notícia de sua morte repentina gerou imensa comoção, especialmente no circuito teatral mineiro e paulista, onde ele era muito presente e respeitado.
Chico Anysio (Josué Medeiros)

Quando o maior nome do humor brasileiro aceita um papel em uma novela de época, o resultado não poderia ser menos que inesquecível. Em Terra Nostra, Chico Anysio deixou de lado seus icônicos personagens cômicos para entregar uma participação especial curta, porém de altíssima voltagem dramática.
Na trama de Benedito Ruy Barbosa, Chico interpretou o Barão Josué Medeiros. Homem da alta sociedade e patriarca de uma família tradicional, o Barão escondia um segredo destrutivo: o vício incontrolável em jogos de azar.
A participação do ator girou em torno do declínio trágico desse personagem. Em uma sequência intensa e memorável, o Barão aposta e perde a fazenda de sua família inteira. Desolado pela ruína financeira, consumido pela culpa e incapaz de lidar com a desonra moral, ele acaba cometendo suicídio. Essa tragédia inicial é o que molda o destino de seu filho na novela, o charmoso Josué (vivido por Juan Alba), que se vê obrigado a reconstruir a vida do zero após a morte do pai.
Com mais de 65 anos de carreira, o cearense é amplamente considerado o maior humorista da história do Brasil, tendo criado mais de 200 personagens inesquecíveis na televisão (como o Professor Raimundo, Alberto Roberto e Bento Carneiro). Vê-lo em um papel puramente denso e dramático em Terra Nostra provou ao público a extensão colossal do seu talento como ator.
- Falecimento: O mestre nos deixou no dia 23 de março de 2012, aos 80 anos, na cidade do Rio de Janeiro.
- Causa e Contexto: Chico lutava há anos contra um enfisema pulmonar grave (resultado de décadas de tabagismo) e enfrentou diversas internações prolongadas. Ele faleceu em decorrência de falência múltipla de órgãos após uma longa e corajosa batalha no hospital.
Antônio Abujamra (Coutinho Abreu)

A presença de Antônio Abujamra em qualquer produção televisiva ou teatral sempre foi sinônimo de excelência e intensidade. Em Terra Nostra, o reverenciado ator e diretor fez uma participação marcante que elevou o nível da trama, trazendo toda a sua bagagem dramática inconfundível para a tela da Globo.
Na obra escrita por Benedito Ruy Barbosa, Abujamra deu vida a Coutinho Abreu. Embora sua participação na novela tenha sido pontual e fora do núcleo principal dos colonos italianos, a entrada de um artista com a sua envergadura sempre exigia personagens com postura e autoridade. Coutinho Abreu foi uma das figuras de poder que compunham a rica teia social da época retratada pela novela. Com sua voz grave, dicção perfeita e olhar penetrante, Abujamra dominava a tela, provando que não existem papéis pequenos para atores de seu calibre.
Falar de Antônio Abujamra é falar de um dos maiores intelectuais e diretores da história da arte no Brasil. Muito além de sua passagem pela novela de 1999, ele revolucionou os palcos nacionais ao ser um dos pioneiros a introduzir os métodos críticos do dramaturgo alemão Bertolt Brecht no país.
Na televisão, eternizou papéis icônicos, sendo o mais famoso deles o assustador e genial bruxo Ravengar, na novela Que Rei Sou Eu? (1989). Mais tarde, consolidou-se como um dos maiores entrevistadores do Brasil no comando do programa Provocações (TV Cultura), no qual passou 15 anos desafiando intelectuais, artistas e anônimos com seu humor ácido, sua poesia e o icônico questionamento final: “O que é a vida?”.
- Falecimento: O inesquecível mestre faleceu no dia 28 de abril de 2015, aos 82 anos, na cidade de São Paulo.
- Causa e Contexto: Diferente das batalhas hospitalares enfrentadas por muitos de seus colegas de elenco, a despedida de Abujamra foi rápida e silenciosa. Ele foi vítima de um infarto agudo do miocárdio e faleceu enquanto dormia em sua casa. Há uma enorme carga poética nisso: no programa Provocações, ele frequentemente ironizava e debatia com os convidados sobre como eles gostariam de morrer. O destino lhe reservou exatamente a resposta que ele mais ouvia e da qual mais debochava: “em casa, dormindo”.
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