os-malditos

Crítica | Os Malditos é Bom? Vale a Pena Assistir?

O cinema de guerra, historicamente, costuma ser um terreno fértil para a exaltação da testosterona, do heroísmo coreografado e de batalhas que ocupam cada centímetro da tela com barulho e fúria. No entanto, quando nos deparamos com Os Malditos, dirigido por Roberto Minervini, percebemos que a verdadeira tragédia do conflito não reside no estrondo das bombas, mas no silêncio angustiante da espera. No portal Séries Por Elas, nossa missão é olhar para além da superfície, e este longa-metragem nos força a encarar o que acontece com a alma humana quando ela é deixada à deriva em uma natureza indiferente.

Lançado recentemente e já disponível no catálogo da Max (antiga HBO Max), a produção é um drama histórico que subverte as expectativas do gênero. Se você espera uma narrativa de ação ininterrupta, talvez se sinta desorientado. Mas, se busca uma obra que mergulha na psicologia do isolamento e na fragilidade da existência, este filme é, sem dúvida, uma das experiências mais potentes do ano.

A Premissa: Inverno de 1862 e a Fronteira do Nada

A história nos transporta para o auge da Guerra Civil Americana. No inverno de 1862, o Exército dos EUA envia um destacamento de voluntários para as fronteiras ocidentais. A missão, aparentemente simples, é patrulhar territórios inexplorados e garantir a soberania das terras. No entanto, o inimigo aqui é invisível. A unidade se vê cercada por uma natureza implacável, neve eterna e a paranoia crescente de que o perigo pode vir de qualquer moita, embora nunca se materialize da forma convencional.

O veredito inicial é direto: Os Malditos vale cada minuto para quem aprecia o cinema contemplativo e cru. É uma obra que não entrega respostas fáceis, preferindo focar na desintegração do propósito militar frente à vastidão do mundo selvagem.

A Estética da Espera

O roteiro, também assinado por Roberto Minervini, opta por uma estrutura não linear no que diz respeito às emoções. O ritmo é deliberadamente lento, mimetizando a lentidão dos dias de um soldado em patrulha. Não há grandes discursos motivacionais ou mapas estratégicos detalhados. O que temos é a rotina: o frio, a busca por alimento, a manutenção das armas e o peso do uniforme.

A narrativa prende a atenção não pelo “o que vai acontecer”, mas pelo “como eles vão suportar”. A direção evita o plot twist barato para investir em uma tensão atmosférica crescente. A sensação é de que estamos assistindo a um documentário de época, tamanha a naturalidade com que os eventos se desenrolam. A guerra, neste contexto, é um conceito abstrato que justifica o sofrimento real daqueles homens perdidos.

Atuações e Personagens: A Humanidade no Limite

O elenco, encabeçado por René W. Solomon, Jeremiah Knupp e Cuyler Ballenger, entrega performances despidas de qualquer vaidade hollywoodiana. René W. Solomon rouba a cena com um olhar que transita entre a determinação religiosa e o desespero absoluto. A química entre os soldados é construída através de diálogos econômicos e gestos de camaradagem rudes, típicos de homens que foram ensinados a não demonstrar vulnerabilidade, mas que se veem obrigados a buscar conforto uns nos outros diante da morte iminente.

Não há um “vilão” ou um “mocinho” claro entre eles; há apenas sobreviventes. A performance do elenco jovem é particularmente impactante, ressaltando como a guerra consome a juventude antes mesmo de o primeiro tiro ser disparado.

A Visão “Séries Por Elas”: Onde Estão as Mulheres e o Que o Silêncio Diz?

Como Crítica Chefe do Séries Por Elas, meu olhar se volta para a ausência e para o impacto da masculinidade tóxica em contextos bélicos. À primeira vista, o filme é dominado por homens, mas a análise técnica revela que a figura feminina e a ideia de “lar” são os grandes fantasmas que assombram a produção.

  1. A Agência da Ausência: As personagens femininas não estão fisicamente presentes, mas habitam as cartas não enviadas, as preces e as memórias. A obra mostra como a estrutura patriarcal da guerra retira esses homens de suas esferas familiares para jogá-los em um vazio sem propósito.
  2. Vulnerabilidade Masculina: Sob a nossa ótica, é fascinante ver como o filme desconstrói o arquétipo do soldado inabalável. Ao mostrar homens rezando, chorando de frio e duvidando de sua fé, Os Malditos faz um serviço à representação humana, fugindo da hiper-masculinização que ignora a profundidade emocional.
  3. Temas Sociais: A obra aborda a religiosidade como uma âncora e, ao mesmo tempo, como uma venda. Em uma sociedade que ainda glorifica conflitos, o filme serve como um alerta sobre o custo invisível de vidas que são tratadas apenas como estatísticas em um território gelado.

Aspectos Técnicos: Direção e Arte

A fotografia deste filme é uma das mais belas e cruéis da temporada. O uso de luz natural e a paleta de cores lavadas, dominada pelo branco da neve e pelo cinza do céu, criam uma estética de isolamento sensorial. A câmera de Minervini muitas vezes se posiciona de forma voyeurística, como se estivéssemos espiando momentos íntimos demais para serem compartilhados.

A trilha sonora é quase inexistente, dando lugar ao design de som da natureza — o vento uivante, o ranger das árvores, o som das botas afundando na neve. Essa escolha técnica é fundamental para manter o espectador no mesmo estado de alerta paranoico dos personagens. O figurino, desgastado e sujo, reforça o realismo visceral da produção.

Veredito e Nota Final de Os Malditos

NOTA: 4/5

  • Veredito: Um estudo de personagem profundo e visualmente arrebatador que redefine o que esperamos de um filme de guerra.

Os Malditos não é um filme para todos, e é exatamente aí que reside sua grandeza. É uma análise técnica e poética sobre o absurdo. Roberto Minervini nos entrega uma obra que é tanto um documento histórico quanto uma meditação existencialista sobre o que resta de nós quando somos despidos de nossa civilidade.

É um filme que ecoa na mente muito depois dos créditos finais, lembrando-nos que, em qualquer guerra, os verdadeiros “malditos” são aqueles que foram esquecidos pelo tempo e pelo comando.

Siga o Séries Por Elas no X (Twitter), Instagram, Threads e no Google News, e acompanhe todas as nossas notícias!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima