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Pequenas Cartas Obscenas: Filme Se Baseia em Fatos Reais?

O filme Pequenas Cartas Obscenas (título original: Wicked Little Letters), dirigido por Thea Sharrock, resgata o escândalo verídico que abalou a cidade de Littlehampton, na Inglaterra, entre 1918 e 1923. A trama, disponível no Amazon Prime Video e para aluguel no YouTube, Google Play e Apple TV, detalha como uma série de cartas anônimas repletas de palavrões resultou na prisão injusta de uma imigrante irlandesa e revelou a face oculta de uma vizinha conservadora. O elenco é encabeçado pelas atrizes Olivia Colman e Jessie Buckley.

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Contexto e Antecedentes: O Conflito em Littlehampton

A história real que inspirou o longa-metragem começou em 1918, quando a imigrante irlandesa Rose Gooding (Jessie Buckley) mudou-se para a pequena cidade litorânea de Littlehampton, em Sussex. Rose, que teve uma filha fora do casamento antes de se unir ao marido, Bill, carregava um estigma social para os padrões da época.

Apesar das diferenças, Rose estabeleceu uma amizade improvável com sua vizinha, a conservadora e moralista Edith Swan (Olivia Colman). A relação era baseada em trocas domésticas:

  • Edith fornecia receitas de chutney e moldes de tricô para meias;
  • Rose emprestava itens como uma banheira de zinco.

O cenário mudou drasticamente após uma disputa sobre o jardim comunitário das casas. O desentendimento transformou a amizade em inimizade, levando Edith a planejar uma vingança silenciosa e sofisticada através da difamação.

Pequenas Cartas Obscenas: O Plano e as Condenações de Rose Gooding

A partir do desentendimento, Edith Swan começou a redigir e enviar cartões-postais e cartas carregadas de linguagem obscena e acusações ultrajantes, assinando-as como se fossem de Rose Gooding. O conteúdo das mensagens evoluiu de insultos simples para termos extremamente vulgares, atraindo a atenção das autoridades locais e da imprensa nacional, como o Daily Mail, que cobriu o caso na época.

A Perseguição e o Encarceramento Injusto

Edith não se limitou aos vizinhos; ela enviou uma carta para o noivo de uma vizinha, Bert, que servia nas forças britânicas no Iraque, alegando falsamente que Rose estava grávida de outro homem. O plano resultou em:

  • Setembro de 1920: Rose foi acusada de libelo criminal perante os magistrados de Littlehampton;
  • Primeira Condenação: Rose cumpriu três meses de prisão;
  • Segunda Condenação: Mesmo após ser libertada, novas cartas surgiram. Apesar de seu advogado apresentar as receitas e moldes de tricô de Edith para provar a semelhança da caligrafia, Rose foi condenada a 12 meses de trabalhos forçados.

O ator Timothy Spall, que interpreta Edward Swan (pai de Edith), afirmou em entrevista que inicialmente acreditou tratar-se de uma ficção bem elaborada, surpreendendo-se com a veracidade dos fatos preposterosos que fundamentam o roteiro de Jonny Sweet.

Impactos, Desdobramentos e a Investigação da Scotland Yard

A farsa de Edith Swan começou a desmoronar quando ela tentou reforçar a culpa de Rose enviando um caderno com obscenidades à polícia, alegando tê-lo encontrado perto da casa da rival. A polícia, contudo, notou a semelhança caligráfica entre o caderno e as cartas de reclamação enviadas pela própria Edith.

A Reviravolta Investigativa

A Scotland Yard designou o Inspetor George Nicholls para o caso. A investigação contou com táticas decisivas:

  1. Vigilância Discreta: A policial Gladys Moss vigiou a casa dos Swan de um galpão vizinho e testemunhou Edith jogando papéis incriminatórios no quintal de vizinhos.
  2. Tecnologia Forense da Época: Em 1923, detetives marcaram selos postais com tinta invisível e instruíram o correio a vendê-los apenas para Edith.
  3. A Prova Final: Quando novas cartas foram enviadas em junho daquele ano, a polícia rastreou os selos marcados até Edith Swan.

Em julho de 1923, o júri do Tribunal de Lewes Crown considerou Edith culpada. O juiz Avory, embora tenha acatado o veredito e sentenciado Edith a 12 meses de prisão, declarou publicamente que considerava “insondável” que uma mulher “respeitável” fosse capaz de escrever tal “sujeira”.

Conclusão

O caso real de Pequenas Cartas Obscenas expôs as fissuras sociais e o preconceito de classe e origem na Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial. Enquanto Rose Gooding foi vítima de um sistema que privilegiava a aparência de “respeitabilidade” de Edith Swan, a persistência de investigadores como Gladys Moss e o uso de técnicas como a tinta invisível garantiram a justiça final.

Edith Swan terminou seus dias em março de 1959, falecendo na North View Home, em East Preston — local que ironicamente já havia abrigado uma casa de correção (workhouse). O filme de Thea Sharrock, agora disponível no streaming, imortaliza essa trajetória de libelo criminal e rivalidade que começou com uma simples receita de chutney e terminou nos tribunais britânicos.

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