Crítica de Delírio: Vale a pena assistir ao filme?

Delírio, o thriller de suspense dirigido por Alexandra Latishev Salazar, estreou nos cinemas brasileiros em 30 de outubro de 2025, após passagens pelo Festival de Guadalajara e pela Mostra de São Paulo. Com apenas 74 minutos, o filme mergulha em uma casa isolada onde três gerações de mulheres enfrentam segredos familiares e presenças sobrenaturais. Estrelado por Liliana Biamonte, Helena Calderón e Anabelle Ulloa, ele promete uma imersão lenta em medos ancestrais. Mas o resultado é um exercício de paciência que congela a tensão. Nesta análise, exploramos os acertos e falhas para decidir se vale o ingresso.
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Premissa intrigante, mas narrativa estagnada
A história gira em torno de Masha, uma menina de 11 anos interpretada por Helena Calderón, que se muda com a mãe Elisa para a casa da avó Dinia. A idosa, vítima de demência, vive em um casarão decadente na Costa Rica. A família finge que o pai de Masha está morto, uma mentira que a criança resiste com teimosia infantil. Logo, Elisa sente presenças estranhas: barulhos noturnos, sombras fugidias e um ar de ameaça que a leva a isolar a filha do mundo exterior.
O roteiro, escrito pela própria diretora, adiciona camadas sobrenaturais a conflitos mundanos. Há um segredo ligado ao pai falecido de Elisa, marcado por violência familiar, que ecoa nas gerações. A premissa evoca clássicos como Hereditário, misturando luto e horror doméstico. No entanto, a execução é lenta demais. A narrativa sugere mais do que revela, deixando pontas soltas que frustram em vez de intrigar. O suspense congela em silêncios prolongados, sem construir clímax convincente. Em 74 minutos, o filme parece se arrastar, priorizando atmosfera sobre ação.
Elenco sensível em papéis subdesenvolvidos
Liliana Biamonte brilha como Elisa, a médica pragmática que desmorona sob o peso do sobrenatural. Sua performance transmite uma vulnerabilidade crua, especialmente nas cenas de paranoia materna. Helena Calderón, como Masha, traz inocência perturbadora à tela, com olhares que capturam a negação infantil perante o trauma. Anabelle Ulloa, no papel de Dinia, incorpora a fragilidade da demência com toques de mistério, murmurando segredos que sugerem um passado sombrio.
O trio central sustenta o filme com química familiar tensa, evocando dinâmicas reais de mães e filhas. Ulloa, em particular, rouba cenas com monólogos fragmentados que misturam confusão e sabedoria ancestral. Contudo, o elenco é limitado por personagens rasos. Elisa age por instinto protetor sem motivações profundas exploradas. Masha serve como catalisador, mas sua relação com o “fantasma” – uma figura simbólica de violência paterna – fica no vago. Sem antagonistas claros, as atuações perdem impacto, tornando o drama mais observacional do que emocional.
Direção atmosférica com falhas de ritmo
Alexandra Latishev Salazar, em sua estreia em longas, aposta em uma direção minimalista. A fotografia de Juan Carlos Solórzano captura o casarão como um personagem vivo: paredes rachadas, sombras alongadas e uma paleta cinzenta que sufoca. O som é mestre: sussurros, rangidos e silêncios opressivos criam uma imersão sensorial. Selecionado para festivais, o filme usa o isolamento geográfico da Costa Rica para amplificar o claustrofobia, ecoando o horror lento de Ari Aster.
Ainda assim, o ritmo é o calcanhar de Aquiles. Salazar joga com detalhes sutis – um objeto fora do lugar, um olhar evasivo – mas esquece de escalar a tensão. O sobrenatural surge como sugestão, nunca como revelação, deixando o público à deriva. A edição é econômica, mas transições abruptas entre flashbacks e presente confundem mais do que esclarecem. Em um gênero que exige equilíbrio entre o implícito e o explícito, Delírio pende para o primeiro, sacrificando coesão.
Temas familiares e o peso do sobrenatural
O filme aborda falhas parentais com sensibilidade, focando no afeto negado. A deterioração entre gerações – mágoas de Elisa com Dinia, a negação de Masha – reflete ciclos de trauma. O sobrenatural serve como metáfora: o “fantasma” não é só assombração, mas eco de violência patriarcal que assola as mulheres. Salazar sugere que o passado familiar é uma prisão invisível, onde demência e segredos se entrelaçam.
Essa camada temática eleva o material além do horror genérico. Comparado a A Bruxa, que usa folclore para dissecar puritanismo, Delírio explora machismo latente em lares isolados. No contexto centro-americano, ressoa com questões de herança cultural e gênero. Porém, a sutileza vira opacidade. Conflitos geracionais são expressos em diálogos indiretos, quase disfarçados, sem resolução catártica. O que poderia ser uma crítica afiada ao legado familiar acaba em elipse frustrante.
Vale a pena assistir a Delírio?
Delírio cativa quem tolera paciência cinematográfica. Sua atmosfera opressiva e atuações nuançadas recompensam espectadores atentos, especialmente em salas escuras onde o som ecoa. Com 74 minutos, é uma sessão rápida, ideal para uma tarde reflexiva. A exploração de traumas femininos adiciona valor, tornando-o relevante em 2025, ano de debates sobre saúde mental e herança.
No entanto, a narrativa confusa e o suspense diluído frustram. Sem clímax impactante, o filme deixa um vazio, onde olhar o relógio vira refúgio. Disponível para aluguel na Apple TV, Prime Video e YouTube, é acessível, mas não essencial. Para iniciantes no horror latino, prefira A Nação Selvagem. Fãs de Salazar podem perdoar as falhas; o resto, pule.
Delírio é um debut ambicioso que prioriza sensação sobre estrutura. Alexandra Latishev Salazar constrói um mundo de silêncios carregados, onde três mulheres confrontam fantasmas reais e metafóricos. Liliana Biamonte e Helena Calderón ancoram o drama, mas o roteiro vago impede o voo. Em um ano rico em terror, ele se destaca pela sutileza centro-americana, mas peca na execução. Vale para quem busca introspecção; para entretenimento puro, não. Uma obra que sussurra promessas, mas ecoa em vazio.
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