O título “O Pior Homem de Londres” (The Worst Man in London) não é uma hipérbole, mas sim uma descrição literal atribuída a Charles Augustus Howell, uma figura real e notória da Londres do século XIX. Este homem, que inspirou o vilão Charles Augustus Milverton nas histórias de Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, foi o foco da produção cinematográfica homônima, dirigida por Rodrigo Areias. O filme, que acaba de chegar aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 4 de setembro de 2025, mergulha na vida desse dândi luso-inglês, explorando sua atuação no centro da cena artística da era vitoriana e suas maquinações no mundo do crime e da chantagem.
Em um cenário de efervescência cultural e conspirações políticas, Howell se estabelece como uma figura de espírito aventureiro e grande perspicácia. O filme retrata sua vida, repleta de ambições e ações moralmente questionáveis, que o tornaram uma lenda na época. A produção, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, é um convite para uma viagem no tempo, onde a arte e a devassidão se entrelaçam.
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Sinopse e Enredo
Ambientado na Londres vitoriana, em meio à comunidade Pré-Rafaelita e a intrigas políticas, o filme apresenta a complexa figura de Charles Augustus Howell. Considerado um dândi luso-inglês, ele se torna um agente de grandes artistas e um negociante de arte, mas também é um mestre chantagista e falsificador de obras de arte. Howell usa a capital britânica como sua tela pessoal para criar uma obra de sua própria autoria: a devassidão. Ele atua como um intermediário, emitindo ameaças veladas a concorrentes e fazendo o que for preciso para alcançar seus objetivos.
O enredo, que possui um estilo quase ficcional, segue a jornada de Howell, que aparece para trazer um “caos organizado” aos encontros clandestinos da elite artística. Nessas reuniões, luminárias da arte como Dante Gabriel Rossetti, Lizzie Siddal e John Ruskin discutem a transformação da Europa. Howell se infiltra nesse meio, traficando drogas como láudano para seus clientes favoritos, como Rossetti e Siddal, e se envolvendo em esquemas de chantagem e falsificação.
A trama, apesar de se concentrar em Howell, ocasionalmente se desvia para dar mais atenção a outras figuras históricas, como Lizzie Siddal, artista por direito próprio e musa do movimento. Um dos pontos altos do filme, e um dos eventos mais fascinantes da história de Howell, é o seu envolvimento na exumação do corpo de Lizzie, que ele persuadiu Dante Gabriel Rossetti a realizar para recuperar poemas enterrados com ela. Howell também se envolve em conspirações políticas, como uma tentativa de assassinato contra Napoleão III, tecendo uma teia de intrigas que, embora complexa, ilustra a natureza traiçoeira e ambígua do personagem principal.
Elenco de O Pior Homem de Londres
O elenco de O Pior Homem de Londres é liderado por um grupo de talentosos atores que dão vida às figuras históricas do século XIX. A performance convincente de Albano Jerónimo como o protagonista é um dos pilares da produção, mas ele é acompanhado por um elenco de apoio sólido que eleva a narrativa. A seguir, destacamos os principais nomes e os personagens que interpretam:
Albano Jerónimo como Charles Augustus Howell

Charles Augustus Howell não era apenas um negociante de arte na Londres vitoriana; ele era um artista da manipulação. Apelidado de “o pior homem de Londres” pelo próprio Arthur Conan Doyle, Howell era um dândi luso-inglês com uma reputação tão duvidosa quanto intrigante. Ele navegava pelo mundo dos Pré-Rafaelitas — grupo que incluía gênios como Dante Gabriel Rossetti e John Ruskin — usando sua lábia e charme para tramar chantagens, falsificações e todo tipo de esquema moralmente questionável.
Para dar vida a essa figura fascinante, a escolha do ator Albano Jerónimo foi cirúrgica. Jerónimo não se limita a reproduzir os fatos históricos; ele infunde no personagem uma energia magnética, transformando-o em um anti-herói com um toque de modernidade. Sua atuação com “autossuficiência sinistra” cativa o público, convidando-o a mergulhar nas camadas obscuras de um homem que sabia que a verdade era, muitas vezes, apenas um detalhe. A performance de Albano é um dos pontos altos do filme, elevando Howell de uma simples figura histórica para um personagem inesquecível do cinema.
Edward Ashley como Dante Gabriel Rossetti

No mundo sombrio e manipulador de Charles Augustus Howell, o ator Edward Ashley brilha ao interpretar o artista Dante Gabriel Rossetti. Sua atuação captura a fragilidade de um gênio criativo em constante luta contra os próprios demônios e as pressões de seu tempo. Rossetti, um dos pilares do movimento Pré-Rafaelita, é retratado por Ashley como um homem consumido pela arte, pelo luto e pela dependência do láudano — substância fornecida por Howell. Longe de ser um protagonista forte, seu personagem é um reflexo das vulnerabilidades que Howell explora. Ashley entrega uma performance sutil e comovente, revelando a complexidade de um artista que, embora à frente de seu tempo em sua visão, se mostra refém das circunstâncias e das pessoas ao seu redor.
Victoria Guerra como Lizzie Siddal

No universo de O Pior Homem de Londres, a atriz Victoria Guerra oferece uma interpretação poética e comovente de Lizzie Siddal, a icônica musa do movimento Pré-Rafaelita. Mais do que apenas a esposa e inspiração de Dante Gabriel Rossetti, Lizzie era uma artista por direito próprio, uma figura complexa e trágica que se tornou um dos pontos focais da trama. Guerra captura a essência da personagem de forma magistral, revelando a dualidade entre a melancolia e a força interior de uma mulher que, apesar de sua dependência do láudano, anseia por autonomia. Sua performance é um dos momentos mais tocantes do filme, especialmente na cena que mistura arte, cinema e a trágica história de sua vida. Victoria Guerra humaniza a figura de Lizzie Siddal, transformando-a de um mero ícone de beleza em uma mulher real, com seus próprios sonhos e sofrimentos.
Scott Coffey como John Ruskin

Em O Pior Homem de Londres, Scott Coffey assume o papel de John Ruskin, uma das figuras mais importantes da crítica de arte da era vitoriana. Ele era um mentor e, de certa forma, uma vítima das manipulações de Charles Augustus Howell. Coffey capta a essência de um homem de grande intelecto e influência, que paradoxalmente se torna dependente dos serviços dúbios de seu protegido. A atuação de Coffey é contida, mas poderosa, mostrando a vulnerabilidade por trás da fachada de autoridade. Ele personifica a complexa relação entre o mentor e o protegido, na qual Ruskin se beneficia da expertise de Howell, mesmo enquanto este último explora sua posição e seu dinheiro.
Carmen Chaplin como Lady Posselthwaite

No turbulento mundo de intrigas de O Pior Homem de Londres, a atriz Carmen Chaplin interpreta Lady Posselthwaite, uma figura da alta sociedade que se encontra no círculo de influência de Charles Augustus Howell. Embora seu papel seja de apoio, a atuação de Chaplin é crucial para ilustrar como as maquinações de Howell se estendem para além do mundo da arte, alcançando a elite social. Lady Posselthwaite é a personificação da aristocracia que, embora intocável em sua posição, não está imune aos esquemas de chantagem e manipulação. Chaplin entrega uma performance elegante e contida, que revela as complexas dinâmicas de poder e as conexões que permitiam a Howell prosperar em seu mundo de enganos.
Jean-François Balmer como Comte Henri de Pourtalès

Em O Pior Homem de Londres, o experiente ator Jean-François Balmer interpreta o Comte Henri de Pourtalès, uma figura que representa o poder político e as conspirações internacionais que permeavam a era vitoriana. Por meio de Pourtalès, o filme ilustra como Charles Augustus Howell não se limitava ao submundo da arte e do crime, mas também estava profundamente envolvido em esquemas políticos, como a tentativa de assassinato de Napoleão III. A atuação de Balmer confere ao Conde uma aura de autoridade e gravidade, destacando a seriedade das tramas que Howell orquestrava. A presença de Pourtalès na narrativa reforça a dimensão perigosa e abrangente das atividades do protagonista, mostrando que suas ações tinham ramificações que iam muito além dos círculos artísticos.
Simon Paisley Day como William Rossetti

No filme, Simon Paisley Day interpreta William Rossetti, o irmão do famoso artista Dante Gabriel Rossetti. Diferente do irmão, que é emocionalmente frágil e dependente, William é a voz da razão e da estabilidade na família. A atuação de Day é sutil e eficaz, mostrando-o como um observador astuto dos eventos que se desenrolam, um contraponto à natureza caótica de Howell e ao gênio atormentado de Dante. William Rossetti é o elo com o lado mais “normal” da vida na era vitoriana, ressaltando o quão fora do comum era o mundo que Howell e Dante habitavam. A presença de Day na tela oferece um momento de calmaria e clareza em meio às intrigas e aos excessos.
Christian Vadim como La Rothière

No universo de O Pior Homem de Londres, Christian Vadim interpreta La Rothière, uma figura que representa as ramificações políticas e internacionais das ações de Charles Augustus Howell. La Rothière é um agente que se move nas sombras, trabalhando em prol de interesses estrangeiros e adicionando uma camada de perigo e complexidade à trama. Vadim entrega uma performance discreta, mas que sugere a natureza clandestina do personagem. A presença de La Rothière na narrativa ressalta a habilidade de Howell em manipular não apenas o mundo da arte, mas também as conspirações políticas que permeavam a Europa do século XIX.
Tom Shepherd e Maya Booth como Edward e Georgiana Burne-Jones

No turbilhão de intrigas e ambições que movem O Pior Homem de Londres, o casal Edward e Georgiana Burne-Jones surge como um porto de idealismo e estabilidade. Interpretados por Tom Shepherd e Maya Booth, respectivamente, eles representam a essência mais pura do movimento Pré-Rafaelita, focada na beleza, na arte e no idealismo. Diferente dos protagonistas que se perdem em esquemas de manipulação, o casal se destaca por seu comprometimento um com o outro e com a arte que praticam. A atuação de Shepherd e Booth é sutil e sincera, trazendo um contraponto emocional crucial à história. Eles são a prova de que, mesmo em meio à decadência da era vitoriana, a arte e o amor podiam coexistir de maneira genuína.
João Pedro Vaz como David

Em O Pior Homem de Londres, João Pedro Vaz interpreta David, um personagem que serve como o braço-direito de Charles Augustus Howell. Em um filme cheio de figuras moralmente ambíguas, David se destaca por sua lealdade inquestionável a Howell. A atuação de Vaz é discreta, mas fundamental para a narrativa, pois ele representa o ponto de apoio do protagonista. David é o escudeiro fiel, que acompanha Howell em suas maquinações e intrigas, sem questionar suas ações. A performance de Vaz, embora em segundo plano, sublinha a perigosa influência que Howell exerce sobre aqueles ao seu redor.
Elenco de apoio de O Pior Homem de Londres
Além do elenco principal, o filme conta com uma lista de talentosos atores de apoio que complementam a narrativa:
- Pedro Bastos como William Morris
- Inês Gomes da Silva como Jane Burden Morris
- Luke Eberl como Algernon Charles Swinburne
- Vítor Correia como Tobias
- Marta Félix como Fanny Cornforth
- Cátia Cruz como Prostituta
- José Nobre como Homem da pasta
Crítica e Análise
O Pior Homem de Londres é uma produção poeticamente suntuosa que, apesar de suas ambições, enfrenta desafios em sua execução. Rodrigo Areias, que também é um produtor prolífico, dirige esta que é sua oitava longa-metragem, filmada em Portugal para simular a Londres vitoriana. A produção é visualmente rica, com brocados de cores vibrantes e uma névoa atmosférica que evoca a época.
O filme se destaca por sua apresentação estilística. Areias faz uso da cor para realçar as cenas e presta atenção cuidadosa ao movimento, com muitas sequências filmadas em planos contínuos que imitam o ritmo da época. A iluminação, que utiliza a luz de velas, e o uso de paisagens naturais, remetem ao estilo de Stanley Kubrick em Barry Lyndon. A música, com violinos em segundo plano, e o figurino, são concebidos com a intenção de exibir a Inglaterra como ela era. Essa fidelidade histórica é quebrada apenas por Jerónimo, cuja atuação confere a Howell uma sensibilidade moderna que o torna acessível ao público contemporâneo.
No entanto, o filme tem pontos fracos. Apesar de os eventos individuais da história, como a exumação de Lizzie Siddal, serem fascinantes, a narrativa como um todo tem dificuldades em se apresentar como um conjunto satisfatório. O ritmo, a tonalidade e a longa duração podem limitar seu apelo a um público mais amplo. A abordagem estilizada de Areias, com uma paleta de cores saturadas e um uso excessivo de gelo seco, às vezes involuntariamente evoca uma sensibilidade de filmes de terror de baixo orçamento, em vez de um drama de época de prestígio. A trama, com tantas cenas de Howell fumando e negociando cartas incriminatórias, por vezes se perde em sua própria teia de intrigas.
Ainda assim, a produção merece crédito por explorar um personagem histórico tão complexo e intrigante. O filme não tenta absolver Howell de suas ações maliciosas, mas o apresenta como um prisma multifacetado que reflete o mundo da arte da época — nem sempre bom, nem sempre ruim, mas sempre intrigante. A decisão de Areias de incorporar um final revisionista pode não agradar aos puristas, mas alinha-se à natureza traiçoeira de Howell, um homem para quem a verdade era opcional.
Onde Assistir O Pior Homem de Londres
O Pior Homem de Londres está em cartaz nos cinemas brasileiros a partir de 4 de setembro de 2025. Verifique os horários de exibição na sua cidade e prepare-se para mergulhar nessa fascinante história. Para além disso, futuramente o filme deve chegar no streaming do HBO Max.
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