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Mr. Robot apresenta uma mensagem urgente para se descriptografar

Mr. Robot apresenta uma mensagem urgente para se descriptografar

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Economia global, internet, digitalização, mundialização do capitalismo, bitcoins, terrorismo, Anonymous, fobia social, black blocs, ciberativismo, crises econômicas e manifestações sociais. Falando assim parece se tratar de um código difícil de ler, mas é basicamente o código-fonte da série Mr. Robot, criada pelo diretor e roteirista Sam Esmail.

Estrelado por Rami Malek, que interpreta o hacker Elliot Alderson, o seriado estreou em 2015 e segue atualmente em sua terceira temporada. No enredo, Elliot é um jovem que sofre de fobia social e trabalha como técnico de segurança virtual na AllSafe, sendo responsável por proteger um dos maiores conglomerados multinacionais do mundo, a E Corp. Sempre que pode, ele atua ainda como uma espécie de hacker vigilante, descobrindo os lados mais sombrios das pessoas ao seu redor e, eventualmente, denunciando às autoridades.

Sua história começa a mudar quando ele se vê numa encruzilhada ao ser convocado por um misterioso grupo de hackers para destruir a firma que ele é pago para proteger – mais tarde apelidada por Elliot de Evil Corp. É a partir daí que seu ciberativismo ganha uma nova potência e atinge patamares muito maiores do que suas pequenas denúncias diárias.

“O que eu não daria para ser normal? Viver nessa bolha, a realidade do inocente”

Porém, a trama não se resume à ação de um pequeno grupo de hackers, que recebe mais tarde o nome de FSociety, numa alusão direta ao que conhecemos aqui no “mundo real” como Anonymous. A série vai além e traz referências diretas ao posicionamento dos Estados Unidos, representado pela E Corp, numa economia global, incluindo seus atritos com outras potências, como a China. Hoje, muito se fala sobre uma possível “guerra comercial” entre EUA e China e Mr. Robot consegue abarcar isso em seu roteiro. Incrivelmente, o enredo da série parece acompanhar passo a passo, de um jeito quase assustador, os caminhos da atual economia.

O surgimento de um sistema bancário livre, representado pela criação da moeda digital Bitcoin, é também pano de fundo para toda a trama, já que a E Corp tem total interesse em não apenas criar, mas controlar essa economia global que vem sendo articulada a partir da mundialização do capitalismo. Como isso tem a ver com nosso hacker protagonista? Bem, em um mundo em que tudo é digitalizado e as transações bancárias e informacionais acontecem através de um rede de computadores, num sistema completamente informacional, a transformação só poderia vir através de um hack. Ou pelo menos, é o que crê a FSociety.

Toda essa história é contada para nós ao acompanhar a vida de Elliot que, inclusive, frequentemente conversa com a gente. Sim, nós somos uma espécie de amigo imaginário que nunca responde, como ele vive reclamando. Por sofrer de fobia social e depressão crônica, Elliot realiza um acompanhamento psicológico, que nos coloca em um contato profundo com sua mente peculiar. É interessante o destaque que se dá à saúde mental do personagem, uma vez que a depressão é hoje considerada como o “mal do século XXI”. E, em Elliot, ela é resultado não apenas de uma família completamente desfuncional, mas também de todo esse processo globalizante que vivemos: encurtação das distâncias, aceleração do tempo.

Não apenas Elliot é fascinante que se apresenta a nós como uma espécie de anti-herói. Há outros personagens nessa trama que são tão essenciais quanto nosso protagonista. Afinal, qual é a revolução que se faz sozinho? Darlene é uma figura importante, também uma das hackers da FSociety, e foi essencial para convencer Elliot a participar do grupo. Angela Moss é amiga de infância de Elliot e é sua colega de trabalho. Tyrell Wellick é Vice-Presidente Sênior de Tecnologia da E Corp e tem papel de destaque no seriado. Há ainda Phillip Price, o CEO da E Corp, um homem ganancioso e sem escrúpulos. E Whiterose, a líder de outro grupo de hackers, chamado Dark Army. E por aí vai.

É notável a influência de produções audiovisuais como Dexter, V de Vingança, a trilogia Matrix, Clube da Luta e muitas outras. É como se Sam Esmail aplicasse a lógica do código aberto a seu fazer como roteirista, utilizando de referências claras, sem nenhum constrangimento por isso. Expressões do universo da informática, inclusive, são frequentemente acionadas por Elliot, que vive criando analogias entre elas e seu comportamento. Até mesmo o nome dos episódios fazem essa relação com a linguagem virtual, a exemplo do espisódio piloto, intitulado “eps1.0_hellofriend.mov”.

Por fim, Mr. Robot é uma série que levanta um monte de questões importantes e, portanto, apresenta uma mensagem urgente para se descriptografar. Algumas ideias já foram levantadas em outras produções audiovisuais, é verdade. Mas o foco trazido por Mr. Robot nos faz enxergar tais questões por um ângulo muito atual. E, nesse mundo em que tudo parece efêmero, é cada vez mais importante lembrar o que não é tão efêmero quanto se mostra. Aí está, para mim, a importância de Mr. Robot. A série me ajuda ou, no mínimo, me instiga a responder a pergunta: o que é perene nesse mundo de aparência tão transitória? Basta observar bem e encontraremos o que permanece em meio a tantas mudanças.

 

Isabella Mariano Jornalista, poeta, feminista e completamente impulsiva. Gosta de beber cerveja, ouvir música, tatuagens e de cachorros. Atualmente, tenta lidar com o vício em Game of Thrones, Sense8 e Gotham da melhor forma possível. Mas é aquele ditado, vamos fazer o quê?

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