Fragmentado: História Real Por Trás do Filme

Lançado em 2017 nos cinemas, Fragmentado é um suspense de terror e fantasia com 1h57min, dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan. O elenco brilha com James McAvoy como Kevin Wendell Crumb, Anya Taylor-Joy como Casey Cooke e Betty Buckley como a Dra. Karen Fletcher. Disponível na Amazon Prime Video, HBO Max e Netflix, ou para alugar na Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play Filmes e TV, e YouTube, o filme explora o transtorno dissociativo de identidade (TDI) através de um sequestrador com múltiplas personalidades. Aqui, respondo se Fragmentado se inspira em uma história real, baseando-me em fontes confiáveis, sem invenções.

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As Origens da Inspiração

Fragmentado não é um documentário, mas sua premissa central – um homem com múltiplas personalidades que comete crimes – ecoa o caso de Billy Milligan. Shyamalan confirmou a influência em entrevistas, revelando que se inspirou no livro The Minds of Billy Milligan, de Daniel Keyes, publicado em 1981. Ele leu a obra nos anos 1990 e começou o roteiro em 2001, após saber de um projeto fracassado de adaptação por James Cameron. Para o diretor, o TDI fascina por envolver “pessoas que o escondem constantemente, pois sabem que não serão vistas como são”. Essa camada poética transforma o filme em um estudo psicológico, misturando horror com drama humano.

O TDI, antes chamado de transtorno de personalidade múltipla, é retratado como mecanismo de defesa contra traumas. No filme, Kevin tem 23 personalidades, com uma 24ª emergindo como “A Fera”, dotada de força sobre-humana. Essa contagem exata de 24 alters reflete diretamente Milligan, o primeiro americano absolvido de crimes por TDI em 1978. Shyamalan usa o caso para questionar sanidade e identidade, mas adiciona elementos fantásticos, alinhando-se ao seu estilo de reviravoltas.

A História Verdadeira de Billy Milligan

Billy Milligan
Billy Milligan

Billy Milligan nasceu em 1955, em uma família instável. Seu pai biológico se suicidou quando ele tinha 3 anos, e o padrasto, Chalmer Milligan, abusava sexual e fisicamente dele na infância – um trauma que psiquiatras ligam ao surgimento do TDI. Aos 16 anos, Billy foi hospitalizado por “neurose histérica” com sintomas dissociativos, mas o diagnóstico formal veio só em 1977, após prisões por roubos e estupros.

Em outubro de 1977, Milligan, então com 22 anos, foi acusado de sequestrar, roubar e estuprar três mulheres perto da Ohio State University. As vítimas descreveram um agressor com sotaque variável e mudanças de comportamento: de charmoso a agressivo. Durante avaliações psiquiátricas, nove especialistas, incluindo a Dra. Cornelia Wilbur (famosa pelo caso Sybil), identificaram 10 personalidades iniciais, expandindo para 24. Entre elas: Ragen, um iugoslavo de 23 anos que planejava roubos; Adalana, uma jovem de 19 anos responsável pelos estupros; e David, um britânico que absorvia dor.

O julgamento de 1978 chocou o mundo. Milligan usou o TDI como defesa de insanidade, alegando que alters criminosos agiram sem seu controle. Após deliberações, o júri o declarou não culpado por motivo de insanidade. Em vez de prisão, ele foi internado no Athens Mental Health Center, passando mais de uma década em tratamentos. Em 1986, fugiu, mas foi recapturado em uma semana. Liberado em 1988 como “não perigoso”, Milligan viveu discretamente até morrer de câncer em 2014, aos 59 anos. Seu caso inspirou documentários como Monsters Inside: The 24 Faces of Billy Milligan (Netflix, 2021) e a série The Crowded Room (2023), com Tom Holland.

Diferenças entre Ficção e Realidade

Embora inspirado, Fragmentado diverge significativamente da vida de Milligan para priorizar suspense. Kevin sequestra três garotas e as mantém em um labirinto subterrâneo, com personalidades como Hedwig (criança) e Patricia (controladora) ditando ações. No filme, crimes incluem tentativas de assassinato, mas sem violência sexual explícita, ao contrário dos estupros de Milligan. A 24ª personalidade, “A Fera”, ganha habilidades sobre-humanas – escalar paredes, regenerar feridas –, um twist fantástico ausente na realidade.

Shyamalan justifica: o TDI pode alterar fisiologia, como diabetes em uma personalidade afetando o corpo todo, mas o sobrenatural é metáfora para “trauma tornando alguém mais forte”. Milligan nunca exibiu poderes; suas alters eram coping mechanisms, não entidades predatórias. O filme também ignora o contexto legal: Milligan foi absolvido após avaliação de um ano, enquanto Kevin é retratado como imprevisível sem julgamento.

Controvérsias e Impacto

A representação do TDI em Fragmentado dividiu opiniões. Críticos acusam Shyamalan de sensacionalizar a doença, perpetuando mitos como “múltiplas personalidades = violento ou sobrenatural”. Na vida real, o TDI afeta 1-3% da população, ligado a abusos, e raramente leva a violência – estatísticas da APA confirmam que portadores são mais vítimas que agressores. O caso Milligan não criou precedentes modernos; defesas de insanidade por TDI falham hoje, exigindo prova direta de perda de controle, como nos casos de Tom Bonney ou Kenneth Bianchi.

Apesar disso, o filme elevou awareness. McAvoy estudou alters reais para sua performance, ganhando elogios por versatilidade – de voz infantil a sotaque europeu. Fragmentado integra o universo de Corpo Fechado (2000) e Vidro (2019), formando uma trilogia sobre “pessoas extraordinárias”. Seu sucesso (US$ 278 milhões em bilheteria) inspirou debates sobre saúde mental em Hollywood.

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Magui Schneider
Magui Schneider

Como Editora-Chefe do Séries Por Elas, Magdalena (Magui) é responsável pela curadoria e tom editorial do portal. Magui traz um diferencial único: sua formação como Psicóloga (CRP-RS 07/27539). Ela utiliza sua expertise no comportamento humano para enriquecer as críticas de cinema e TV, oferecendo uma visão analítica e humana sobre o desenvolvimento de personagens e tramas.

Especialista em narrativas de drama, romance e comédia, a ‘Little Monster’ fã declarada da Lady Gaga, traduz sua visão profissional em análises que conectam o público às emoções das telas. É ela quem garante que, aqui, a paixão de fã e a análise séria andem de mãos dadas.

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