Crítica | Samaritano É O Crepúsculo dos Deuses entre o Concreto e a Redenção

Samaritano, disponível no Amazon Prime Video, é muito mais do que um filme de super-herói tardio; é um exercício de melancolia urbana sobre o peso do passado. Estrelando um Sylvester Stallone que carrega cada ruga como uma medalha de guerra, a obra mergulha em uma metrópole decadente para questionar se a bondade pode realmente ser aposentada.

Se você busca a pirotecnia colorida da Marvel, talvez se sinta deslocado; aqui, o herói range, dói e prefere o silêncio ao aplauso. É, sem dúvida, uma obra imperdível para quem aprecia o “cinema de peso”, onde a presença física do ator conta mais que o CGI.

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No portal Séries Por Elas, nossa análise sempre busca as camadas que sustentam o tecido social da obra. Em Samaritano, a agência feminina não reside em superpoderes, mas na resiliência sistêmica. A personagem de Dascha Polanco (Tiffany), embora em um papel coadjuvante, é o pilar ético da narrativa. Ela representa a mãe solo contemporânea que luta contra a gentrificação e a violência urbana, equilibrando turnos duplos enquanto tenta manter o filho, Sam (Javon “Wanna” Walton), longe do abismo das gangues.

A obra dialoga com as mulheres de hoje ao expor a vulnerabilidade do lar em cidades negligenciadas pelo poder público. Não há um “Vingador” para pagar o aluguel ou garantir que o filho não seja cooptado pelo crime organizado. O filme acerta ao mostrar que a verdadeira heroína é aquela que sobrevive ao cotidiano sem o benefício da invulnerabilidade.

A ocupação do espaço feminino aqui é pragmática: é a voz da razão que tenta ancorar um jovem deslumbrado pelo poder em uma realidade de privações. Samaritano nos lembra que, para muitas mulheres, a “salvação” não vem do céu, mas da capacidade de manter a integridade sob pressão.

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O roteiro de Bragi F. Schut utiliza o mito dos irmãos gêmeos — Samaritano e Nêmesis — para explorar o dualismo da psique humana. Como psicóloga, vejo em Joe Smith (Stallone) a personificação do trauma vicário e da dissociação. Ele se esconde em uma rotina de catador de lixo, consertando objetos quebrados como uma tentativa desesperada de consertar sua própria alma fragmentada. É o arquétipo do “Guerreiro Cansado” que já não encontra sentido na violência, mesmo quando ela é justificada.

“A máscara mais difícil de retirar é aquela que usamos para esconder de nós mesmos quem fomos.”

A direção de Julius Avery opta por uma fotografia de temperatura fria, saturada por cinzas e azuis industriais, que evoca a sensação de sufocamento de Granite City. A mise-en-scène é deliberadamente suja; o ferro-velho e os becos úmidos não são apenas cenários, são extensões do estado mental dos personagens.

A montagem de Matt Evans e Pete Beaudreau mantém um ritmo deliberado, permitindo que o público sinta o peso dos movimentos de Stallone. Quando a ação finalmente explode, ela não é graciosa; é brutal, pesada e movida a impacto cinético, lembrando o espectador de que corpos, mesmo os heróicos, sofrem o desgaste do tempo.

O vilão Cyrus, interpretado por Pilou Asbæk, funciona como o contraponto anárquico. Sua motivação não é a dominação mundial clichê, mas a capitalização do caos em uma população esquecida. Ele é o sintoma de uma sociedade que parou de acreditar em símbolos.

Já o jovem Javon “Wanna” Walton entrega uma atuação orgânica, servindo como o olhar do espectador: alguém que precisa desesperadamente de um herói, mas acaba descobrindo um homem. A química entre ele e Stallone é o coração pulsante do filme, uma relação de mentor e aprendiz que flerta com a paternidade tardia.

Veredito e Nota

NOTA: 4/5

Samaritano subverte a expectativa do gênero ao entregar uma história de redenção que foge do maniqueísmo barato. O plot twist final — que não revelarei aqui — eleva a obra de um simples filme de ação para um estudo profundo sobre a ambiguidade moral. É um filme sobre as escolhas que fazemos quando as luzes se apagam e o mundo nos vira as costas.

  • Onde Assistir: Amazon Prime Video. Também disponível para aluguel na Apple TV, Google Play Filmes e YouTube.

O portal Séries Por Elas acredita na cultura como motor de transformação. Este texto é produzido por especialistas e visa fomentar o pensamento crítico. Lembre-se: o consumo legal de obras audiovisuais garante que histórias como esta continuem sendo contadas. Diga não à pirataria e valorize o trabalho de milhares de profissionais por trás das câmeras.

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Magui Schneider
Magui Schneider

Como Editora-Chefe do Séries Por Elas, Magdalena (Magui) é responsável pela curadoria e tom editorial do portal. Magui traz um diferencial único: sua formação como Psicóloga (CRP-RS 07/27539). Ela utiliza sua expertise no comportamento humano para enriquecer as críticas de cinema e TV, oferecendo uma visão analítica e humana sobre o desenvolvimento de personagens e tramas.

Especialista em narrativas de drama, romance e comédia, a ‘Little Monster’ fã declarada da Lady Gaga, traduz sua visão profissional em análises que conectam o público às emoções das telas. É ela quem garante que, aqui, a paixão de fã e a análise séria andem de mãos dadas.

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