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Crítica | Fantasmas (Série 2021) é bom? Vale a Pena Assistir?

O conceito de “assombração” costuma evocar imagens de terror e vultos sombrios, mas a produção norte-americana que acaba de chegar ao catálogo da Netflix subverte essa lógica com uma leveza admirável. Fantasmas, a versão estadunidense da aclamada série britânica, prova que o humor pode ser a ferramenta mais eficaz para explorar a mortalidade e, acima de tudo, a convivência entre mundos opostos.

Se você procura uma série que equilibra o riso fácil com momentos de genuína emoção, já adianto o veredito: esta é uma das melhores adições ao streaming nos últimos tempos.

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A Premissa: Quando o Passado se Recusa a Partir

A história acompanha o casal Samantha (Rose McIver) e Jay (Utkarsh Ambudkar). Ela, uma jornalista otimista; ele, um chef de cozinha pé no chão. A vida dos dois muda drasticamente quando herdam uma enorme e decadente propriedade rural. O plano inicial é transformar a mansão em um hotel (Bed & Breakfast), mas um pequeno acidente — uma experiência de quase morte de Samantha — abre as cortinas entre o mundo dos vivos e dos mortos.

Agora, a protagonista é capaz de ver, ouvir e conversar com os antigos moradores da casa que nunca “atravessaram” para o outro lado. O gênero da comédia de situação ganha aqui um fôlego novo, pois os espíritos não são monstros, mas sim pessoas presas em suas próprias eras, traumas e excentricidades. É um ponto de partida brilhante que serve como metáfora para a bagagem histórica que todos carregamos.

Desenvolvimento de Enredo e Ritmo

Ao longo de suas 3 temporadas, a produção criada por Julio Torres (adaptando o material original) mantém um ritmo ágil e extremamente episódico, o que facilita o consumo em maratonas. O roteiro é inteligente ao não se perder apenas nas piadas sobre anacronismos; ele utiliza a imortalidade dos personagens para destrinchar a evolução social da humanidade.

Cada episódio funciona como uma peça de um quebra-cabeça maior sobre quem eram aquelas pessoas. O desenvolvimento da narrativa é constante: enquanto os vivos tentam reformar a casa física, os mortos passam por uma reforma interna, aprendendo a lidar com arrependimentos que duram séculos. A transição entre as cenas é fluida, e o uso de flashbacks para explicar a morte de cada espírito é feito com um tom satírico que nunca cruza a linha do mau gosto.

Atuações e Personagens: O Coração do Casarão

O grande triunfo desta obra reside no seu elenco de apoio. Se Rose McIver e Utkarsh Ambudkar ancoram a série com uma química de casal saudável e divertida, são os espíritos que roubam a cena. Brandon Scott Jones, no papel do oficial da Guerra de Independência Isaac Higintoot, é absolutamente impagável com sua obsessão por Alexander Hamilton e sua jornada de autodescoberta.

Cada personagem representa um arquétipo histórico: temos a cantora de jazz da era da Lei Seca, o corretor da bolsa dos anos 90 (sempre sem calças), o hippie dos anos 60 e o nativo americano sarcástico. O entrosamento desse grupo é o que sustenta o show. A capacidade de todos de reagirem uns aos outros, mesmo quando apenas a protagonista pode vê-los, exige um timing cômico impecável que o elenco entrega com maestria. Não há elos fracos; cada fantasma tem seu momento de brilhar e sua própria curva de crescimento.

A Visão “Séries Por Elas”: Agência Feminina Além da Vida

No portal Séries Por Elas, valorizamos narrativas onde as mulheres não são apenas satélites de tramas masculinas. Em Fantasmas, encontramos uma riqueza de perspectivas femininas que atravessam séculos.

  • Samantha (A Mediadora): Longe de ser a esposa que apenas segue os planos do marido, ela é a força motriz da história. Sua capacidade de ver os mortos é tratada não como um fardo de filme de terror, mas como uma extensão de sua empatia. Ela usa seu dom para dar voz a quem foi esquecido.
  • Hetty (A Matriarca): Interpretada brilhantemente por Rebecca Wisocky, a antiga dona da mansão representa a repressão da Era Vitoriana. Assistir à sua evolução, enquanto ela descobre sua própria independência e questiona as normas patriarcais que a sufocaram em vida, é um dos arcos mais satisfatórios da série.
  • Alberta (A Estrela): A cantora de jazz traz a discussão sobre a agência da mulher negra em décadas passadas e a importância do legado. Ela é dona de sua sexualidade e de sua história, recusando-se a ser esquecida.

A série aborda temas como o papel da mulher na sociedade em diferentes tempos, o luto e a amizade feminina, tudo sob uma ótica que privilegia a profundidade narrativa em vez de clichês superficiais.

Aspectos Técnicos: Direção e Arte

A direção de arte merece aplausos por conseguir diferenciar visualmente cada fantasma sem que a tela pareça um baile de máscaras desconexo. O figurino é uma ferramenta narrativa essencial, mantendo cada personagem ancorado em seu período histórico original através de texturas e desgastes naturais.

A fotografia opta por tons quentes dentro da mansão, criando uma atmosfera aconchegante que reforça a ideia de que aquela casa é um lar, tanto para os vivos quanto para os mortos. A trilha sonora pontua bem as transições de época, ajudando a situar o espectador nas frequentes viagens ao passado que o roteiro propõe.

Veredito e Nota Final

NOTA: 5/5

Fantasmas é uma joia da comédia contemporânea. Ela consegue a proeza de ser engraçada sem ser cínica e profunda sem ser excessivamente dramática.

É uma série sobre entender o passado para conseguir viver o presente, recheada de atuações cativantes e um respeito genuíno pelas histórias de suas personagens femininas. Se você quer uma história que aqueça o coração enquanto você ri das bizarrices da condição humana (e pós-humana), não procure mais.

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