Crítica do episódio final de Stranger Things: vale a pena assistir?

O fim de Stranger Things chegou carregado de expectativas, nostalgia e uma responsabilidade rara na televisão contemporânea: encerrar uma das séries mais populares da história do streaming sem trair o público que acompanhou a jornada por quase uma década. O episódio final, intitulado “The Rightside Up”, não é perfeito, mas entrega algo cada vez mais raro em finais de grandes produções: um adeus emocionalmente honesto e coerente com sua essência. Ainda assim, escolhas narrativas discutíveis e um ritmo irregular impedem que o encerramento alcance a grandeza absoluta que parecia ao seu alcance.

Desde o início, Stranger Things sempre se apoiou menos em mistérios complexos e mais em vínculos afetivos. O final entende isso e aposta justamente no que a série fez melhor ao longo dos anos: personagens, laços e sacrifícios.

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Um encerramento correto, mas excessivamente seguro

O episódio final cumpre praticamente todos os “checklists” esperados de um grande encerramento. Há espetáculo, emoção, despedidas longamente preparadas e a sensação de que a história, de fato, terminou. O problema é que quase nada surpreende. Mesmo em uma série que flerta com dimensões paralelas, monstros cósmicos e viagens metafóricas no tempo, o desfecho é narrativamente previsível.

A escolha por um longo epílogo, ambientado 18 meses depois dos eventos principais, ilustra bem essa questão. Isoladamente, cada cena funciona. Em conjunto, o excesso dilui o impacto. O que poderia ser uma despedida delicada acaba soando prolongado demais. A série parece ter medo de ir embora e insiste em se despedir várias vezes do espectador.

Vecna, Henry Creel e uma mitologia mal aproveitada

A revelação definitiva sobre Henry Creel e sua relação com o Mind Flayer deveria ser um dos grandes momentos do final. No entanto, essa informação já havia sido apresentada em materiais paralelos, fora da série, o que enfraquece o impacto dramático. Transformar um ponto crucial da mitologia em conteúdo externo foi uma das decisões mais equivocadas dos criadores.

Além disso, a tentativa de humanizar Vecna funciona apenas parcialmente. Seu passado trágico adiciona camadas, mas não o torna mais ameaçador do que na quarta temporada. O vilão continua interessante, mas menos assustador. A obsessão de Henry com o tempo, um tema recorrente, termina sem grande payoff. O público nunca entende claramente que tipo de mundo ele desejava criar, o que deixa uma sensação de oportunidade perdida.

O sacrifício de Eleven e o peso da escolha

O arco de Eleven é, sem dúvida, o coração emocional do episódio. Sua decisão final carrega coerência com tudo o que a personagem representou desde o início: alguém moldada pela dor, mas movida pelo amor. O sacrifício não soa gratuito, ainda que o caminho até ele seja, por vezes, facilitado por conveniências de roteiro.

A presença constante do núcleo militar, um dos subplots menos interessantes da série, consome tempo precioso que poderia ter sido investido em conflitos mais íntimos. Ainda assim, esse arco serve como catalisador para a decisão final de Eleven, o que impede que seja completamente descartável.

Hopper, Eleven e a força dos vínculos

Se o roteiro oscila, o mesmo não pode ser dito das atuações. Toda cena entre Hopper e Eleven é impecável. David Harbour e Millie Bobby Brown entregam performances carregadas de afeto, dor e resignação. A despedida entre Eleven e Mike também funciona, mesmo sem grandes diálogos. O silêncio, nesse caso, fala mais alto.

Aliás, é justo destacar a revalorização de Mike. Após temporadas apagado, o personagem volta a ter relevância emocional. Finn Wolfhard sustenta os minutos finais com maturidade e entrega. Fica a sensação de que essa versão do personagem poderia — e deveria — ter aparecido antes.

Um final que respeita o coletivo

O confronto final reforça uma mensagem que sempre esteve no centro da série: ninguém vence sozinho. A derrota de Vecna só é possível porque o grupo atua em conjunto. Amizade não é apenas um tema, mas o verdadeiro motor da narrativa. Essa escolha narrativa é simples, mas eficaz.

Visualmente, o embate com o Mind Flayer impressiona. A criatura nunca foi a parte mais interessante da mitologia, mas a sequência final é grandiosa, tensa e digna de um encerramento. É aqui que o orçamento aparece de forma mais evidente e bem aplicada.

Uma leitura sob o olhar de “Séries Por Elas”

Do ponto de vista feminino, Stranger Things termina reafirmando a importância de suas protagonistas. Eleven não é apenas uma arma ou uma salvadora, mas uma mulher que escolhe seu destino, mesmo quando isso exige abrir mão de tudo. Max, mesmo ausente fisicamente, permanece como símbolo das cicatrizes emocionais que a guerra deixou. Joyce, mais uma vez, é a âncora emocional silenciosa da narrativa.

A série acerta ao não romantizar completamente o sacrifício feminino. Há dor, perda e consequências. Isso dialoga diretamente com o olhar crítico que Séries Por Elas propõe: mulheres complexas, fortes, mas não invulneráveis.

Vale a pena assistir?

Nota final: 4 de 5 ⭐⭐⭐⭐✨. Não é um adeus inesquecível. Mas é um adeus digno.

Sim. Apesar das falhas, o final de Stranger Things entrega fechamento, emoção e coerência temática. Não reinventa a roda, nem ousa tanto quanto poderia, mas respeita sua própria história e seu público. Em um cenário onde muitos finais decepcionam, isso já é uma vitória.

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Magdalena Schneider
Magdalena Schneider
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