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Crítica | Bridgerton 4 – Parte 1: O Conto de Fadas “Bananas” que Ainda Sabe Seduzir

Após um hiato que testou a paciência dos fãs mais fervorosos, a quarta temporada de Bridgerton finalmente aterrissa na Netflix. Desta vez, o foco recai sobre o “segundo filho” e artista de apetites diversos, Benedict Bridgerton (Luke Thompson). Mergulhando de cabeça em uma releitura assumidamente “bananas” de Cinderela, a série prova que, embora o frescor das primeiras temporadas tenha dado lugar a uma fórmula familiar, o poder de atração desse pudim de clichês e luxo continua quase impossível de resistir.

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A Premissa: Máscaras e Sapatinhos de Cristal

A nova leva de episódios encontra a alta sociedade londrina em polvorosa. Sob a batuta de Lady Violet (Ruth Gemmell), a família se prepara para mais um baile de máscaras, enquanto Benedict, o eterno solteirão convicto e boêmio, tenta se esquivar das pressões matrimoniais. É nesse cenário de anonimato proporcionado pelas máscaras que ele conhece a misteriosa “Dama de Prata”, que foge à meia-noite, deixando para trás apenas o rastro de uma paixão súbita.

O veredito inicial? Bridgerton continua valendo cada minuto para quem busca escapismo puro. A série não tenta ser um drama histórico realista — ela é um delírio febril de cores, música pop em arranjos de cordas e desejos reprimidos. Se você aceitar as regras desse mundo onde a etiqueta é rígida, mas os decotes são generosos, a diversão é garantida.

Desenvolvimento de Enredo e Ritmo: Entre o Salão e a Cozinha

O roteiro desta temporada adota uma abordagem interessante ao expandir o olhar para além dos bailes de gala. Pela primeira vez, o público é convidado a passar mais tempo no “andar de baixo”. Acompanhamos a rotina exaustiva de Sophie Baek (Yerin Ha), uma criada sob o jugo de sua terrível madrasta, Lady Araminta Gun (Katie Leung). Essa incursão pelos bastidores da criadagem traz uma camada de realidade necessária, mostrando o suor por trás da seda.

Entretanto, o ritmo sofre com a decisão de dividir a temporada em partes. No primeiro volume, a tensão romântica central parece, por vezes, diluída em meio a tantas subtramas. Enquanto o mistério da identidade de Sophie prende a atenção, o desenvolvimento do romance em si carece daquela urgência febril que vimos em anos anteriores. Ainda assim, a narrativa consegue sustentar o interesse ao entrelaçar o cotidiano dos nobres com a vida invisível de quem os serve.

Atuações e Personagens: Carisma vs. Química

Luke Thompson finalmente recebe o espaço que merece como Benedict. Seu charme de “libertino em crise” é palpável, e ele navega bem entre a ironia e a vulnerabilidade. Contudo, a grande revelação é Yerin Ha. No papel de Sophie, ela entrega uma performance sincera e inteligente, transformando uma personagem que poderia ser apenas uma vítima em uma mulher com força interior latente.

A decepção, no entanto, fica para a química entre o casal principal. Embora ambos sejam atores competentes, a faísca erótica que saltava da tela com casais anteriores — como Penelope (Nicola Coughlan) e Colin (Luke Newton) — parece aqui um pouco mais contida, quase cerimonial. Quem realmente rouba a cena é a veterana Katie Leung. Sua Lady Araminta é uma vilã deliciosa, destilando uma maldade tão ferina que é impossível desviar os olhos. Menção honrosa também para o flerte maduro e encantador entre Lady Violet e Lord Marcus Anderson (Daniel Francis), que injeta uma dose de ternura genuína na obra.

A Visão “Séries Por Elas”: Agência e Amizade Feminina

No portal Séries Por Elas, sempre buscamos entender como as mulheres navegam nessas estruturas de poder. Nesta temporada, o diferencial não está apenas no romance, mas na construção das redes de apoio.

  • A Invisibilidade de Sophie: A série acerta ao mostrar que, para uma mulher como Sophie, a agência não se manifesta em grandes discursos, mas na pequena resistência diária e no desejo de ser vista como um ser humano completo em uma cultura que a quer invisível.
  • A Força das Alianças: É fascinante observar a evolução da sororidade. Seja na amizade histórica entre a Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel) e Lady Danbury (Adjoa Andoh), ou no fortalecimento do vínculo entre Eloise (Claudia Jesse) e sua irmã caçula Hyacinth (Florence Hunt). A série reforça que, em um mundo que coloca mulheres umas contra as outras pela atenção masculina, a verdadeira sobrevivência reside na amizade.
  • Novas Perspectivas: A introdução de Michaela (Masali Baduza), prima de John Stirling, promete trazer uma necessária “pitada sáfica” para a trama de Francesca (Hannah Dodd), sinalizando que o desejo feminino na série está finalmente se tornando mais plural e menos heteronormativo.

Aspectos Técnicos: O Delírio Visual

Tecnicamente, a obra continua um deslumbre. A fotografia é saturada, vibrante, quase como se estivéssemos olhando para uma pintura de época que ganhou vida.

O figurino desta temporada, especialmente os tons prateados de Sophie e as perucas cada vez mais arquitetônicas (quase surreais!) da Rainha Charlotte, são um espetáculo à parte. A trilha sonora mantém a tradição de transformar hits modernos em valsas clássicas, o que contribui para o tom de “fantasia histórica” que é a marca registrada da produção.

Veredito e Nota Final

NOTA: 4/5

  • Veredito: Mesmo com um casal central um pouco menos magnético, a expansão do universo e o foco nas dinâmicas femininas mantêm a série no topo do gênero.

A quarta temporada de Bridgerton pode não ter o calor vulcânico de seus predecessores no que diz respeito ao casal protagonista, mas compensa com uma construção de mundo mais rica e vilões mais memoráveis. É uma série que entende o que o público quer: drama, beleza e um final feliz que parece inalcançável, mas que sabemos que virá. É assumidamente “bananas”, mas feita com uma sinceridade técnica que é admirável.

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