You é sucesso absoluto há algumas semanas, na Netflix e fora dela. A série, que originalmente é do canal Lifetime, foi comprada pelo serviço de streaming e nele foi vista por 40 milhões de pessoas em um mês. Cancelada em seu canal original, foi colocada no catálogo já com a notícia da renovação para a segunda temporada na Netflix. Ou seja, se você ainda não viu, talvez não seja má ideia dar uma chance.

Baseado no romance homônimo de Caroline Kepnes, You conta a história do gerente de livraria Joe Goldberg (Penn Badgley) que se apaixona repentinamente por uma cliente. Rapidamente, o interesse que sente por Guinevere ‘Beck’ (Elizabeth Lail) se transforma em obsessão desenfreada por todos os aspectos de sua vida.

Narrado em primeira pessoa, o telespectador consegue viajar pela mente do protagonista ao longo dos 10 episódios. Joe hora é coerente e sábio em suas decisões, hora parece perder completamente as estribeiras e estar à beira da loucura.

A narrativa traz também personagens bastante complexos que, por diversas vezes, nos fazem pensar que já ouvimos essa história antes. Esse reconhecimento instantâneo se dá pelo simples fato de que histórias como a de Joe e Beck não são tão difíceis de encontrar na vida real.

Além disso, o fato dos roteiristas não delimitarem a construção de ambos como ‘mocinha’ e ‘vilão’, mostrando características tanto positivas quanto negativas na personalidade de cada um nos ajuda a criar um elo e até empatia pelos dois. Esse sentimento se torna tão claro, que mesmo personagens secundários conseguem arrancar um quê de afinidade.

Dan Humphrey 2.0

Se em Gossip Girl Penn Badgley vive o incompreendido e solitário Dan Humphrey, que se apaixona sem pudores pela menina rica e da alta sociedade Serena Van Der Woodsen, em You, sua interpretação não está tão distante disso. De fato, é bem plausível que quem viu as duas séries encontre certa semelhança nos dois.

A diferença, claro, é o fator psicótico/obcecado, perfeitamente equilibrado com o carisma e as atitudes de bom samaritano. Ao mesmo passo em que Joe comete atos gravíssimos, como entrar escondido na casa da moça antes mesmo de a conhecer oficialmente, ganha o coração dos espectadores ao proteger o vizinho pequeno do padrasto abusivo.

Segue a pretendente e todos conectados à sua vida pela rua, mas simultaneamente cuida do ex-tutor que sofreu um ataque vascular cerebral (AVC). Essa ‘estabilidade’ criada pelo personagem faz com que alguns de nós até entendamos suas ações mais cruéis.

Bonitinha, mas ordinária

FOTO 4 – https://www.google.com/search?q=you+serie&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjl49mi3P3fAhUEGLkGHYExDxUQ_AUIDygC&biw=1280&bih=579#imgdii=_AeTSlZ77l3WaM:&imgrc=on1ec01ptvoGnM:

Se você começou assistindo a série tendo a impressão de que a protagonista seria mais uma versão da princesa perfeita, estava enganado. Ainda que muitos identifiquem essa característica em Beck nos primeiros minutos do piloto, a idealização da personagem some tão rápido quanto aparece.

Não significa que ela seja má. Apenas que é uma pessoa comum, que comete erros na mesma medida em que acerta e tem seus momentos de fúria e incompreensão. Fora isso, é perfeitamente crível que a aspirante a escritora sinta que precisa ‘sossegar’ com o novo amor bandido ao mesmo tempo em que quer aproveitar as escapadas com todos os boys do Tinder.

Outra pessoa que acertou direitinho o tom da personagem é Shay Mitchell. Até quem não achou sua interpretação em Pretty Little Liars lá grandes coisas conseguiu absorver a milionária Peach Salinger e criar empatia ou ranço pela personagem.

De início, sua relação com Beck parece ser real e até similar a qualquer amizade comum. Mas à medida que conhecemos mais de ambas, é possível reconhecer traços de uma fixação doentia dela para com a protagonista que deixa todos intrigados.

Criança ingênua

É fácil nos apaixonarmos por uma criança em qualquer circunstância, mas Paco leva isso a outro nível. O menino apaixonado por leitura e que vê em Joe seu protetor e amigo para todas as horas é uma representação sincera e efetiva da criança mais doce e ingênua do mundo.

A relação abusiva com o padrasto e as tentativas, por vezes infrutíferas, de defender a mãe das agressões e ameaças também contribuem, e muito, para esse quadro. De certa forma, o vínculo entre ele e o protagonista pode ser um dos principais fatores para que Joe não seja assim tão mal aos olhos dos outros.

Roteiro de gente grande

Se o assunto é roteiro, You está muito bem servida nesse sentido. Com uma pitada de mistério e algumas reviravoltas marcantes, a história nos leva para onde menos imaginamos, mas onde mais queríamos ir.

A ideia do personagem narrador funciona bem para esse tipo de trama, na qual somos transportados do passado para o presente em poucos segundos. Analisar o enredo sob as perspectivas de Joe (e em alguns pontos de Beck) nos norteia dentro da narrativa. Isso sem falar no quesito identificação.

Essa espécie de manipulação faz com que o próprio personagem por vezes encontre justificativas para suas ações e convença (ou quase) o espectador de que tudo aquilo é resultado das ações de outros personagens.

Para resumir a situação, digamos que é quase um Bentinho, tentando fazer o leitor acreditar que Capitu realmente o traiu, mostrando apenas seu ponto de vista da história. Ou seja, algumas pessoas podem comprar sua versão, mas outras mais atentas vão perceber os furos e compreender o quando seu comportamento é doentio.

De modo geral, o roteiro flui muito bem, com alguns momentos bem marcados e a medida certa de ação, suspense, comédia e jogadas psicológicas. Os detalhes são mais que suficientes para prender o espectador e fazê-lo se envolver de verdade com a história e os personagens.

O que tudo isso tem a ver com a gente?

Confesso que demorei um pouco mais que o habitual para assistir You. Quando o fiz, resolvi compartilhar com amigos nas redes sociais e me deparei com alguns comentários como: ‘que série psicopata’ ou ‘estou com medo. Tudo isso acontece na vida real’.

Em um primeiro momento, considerei tudo um exagero. Mas pensando e analisando bem, faz todo sentido. You é uma série bem próxima da realidade e, sinto dizer, muito mais perto de nós do que imaginamos – ou queremos.

É sobre relacionamento abusivo, sobre se permitir levar por quem mal conhecemos e criarmos um novo ‘eu’ para agradar os outros. Sobre fechar os olhos para aquilo que está diante de nós, apenas porque gostamos – ou cremos  gostar – da pessoa com quem estamos.

Por fim, é sobre exposição demais. Afinal, precisamos compartilhar cada detalhe e até criar falsos momentos de êxtase apenas para mostrar aos outros como estamos felizes ou completos? Não. E tão pouco necessitamos revelar demais sobre nosso cotidiano e nossos hábitos, criando espaço e condição para sermos perseguidos e violados por outras pessoas.

No fim, essa série nada mais é do que uma reflexão sobre nossas atitudes e a permissividade que damos ao próximo. Em suma? Vale a pena cada minuto.

YOU