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You Me Her: segunda temporada convence com poliamor

You Me Her: segunda temporada convence com poliamor

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A série está no catálogo da Netflix e seu tema central é o poliamor. Apesar de trazer o selo “Original Netflix”, pertence ao canal Audience, que lançou a segunda temporada em fevereiro nos EUA e em junho no Brasil. A terceira terceira temporada já está confirmada para 2018.

É a primeira série (não documental) que retrata de forma central uma das formas de poliamor, e se propõe a fazer isso de uma forma leve. Traz à pauta popular questões que precisam ser representadas e discutidas, sem forçar o telespectador a digerir tudo de uma vez.

Eu, como a maioria do público comum da Netflix, conheço nada ou muito pouco sobre o que um relacionamento poliamoroso realmente é: sentimentos, regras, dilemas. E assim, em forma de comédia romântica, a série envolve aqueles que não entendem bem do que se trata o poliamor nessa discussão sobre a liberdade de amar e se relacionar.

Quando surgiu a ideia de escrever esse texto, eu ainda assistia o início da segunda temporada. Me inquietava a seguinte questão: será que é possível retratar (e existir) um relacionamento poliamoroso sem que uma das pessoas envolvidas sempre acabe ficando de fora? Do lugar que eu ocupo, é meio difícil não pensar nesse modelo de poliamor como um constante ménage à trois em que eventualmente um vai ficar só olhando e se sentir ignorado ou menos desejado.

You Me Her poliamor

Aliás, quando a segunda temporada foi lançada, o “cartaz” parecia anunciar o tom dos episódios que estavam por vir: Emma e Izzy juntas e felizes na cama, e Jack de costas com cara de quem não está nada satisfeito. Realmente o início da segunda temporada traz esse dilema. Os questionamentos do homem que observa duas mulheres apaixonadas interagindo afetiva e sexualmente, e se sente descartável naquela relação.

Mas basta concluir essa sequência de episódios para entender que a segunda temporada não é só sobre isso. Enquanto a primeira temporada retratou o processo de descoberta e reconhecimento de Izzy, Emma e Jack, a segunda é centrada na evolução desse relacionamento poliamoroso, a revelação para a comunidade suburbana e para a família e as crises enfrentadas pelo trisal.

E isso passou por essas crises de Jack, mas também pelas crises de Izzy diante da intimidade de uma década de história de Jack e Emma, e dos olhares enciumados de Emma para algumas cenas de Jack e Izzy. Retratou ainda disputas por atenção, dúvidas, sentimentos confusos, mas também muito entrosamento e sexo de reconciliação a três.

Respondendo à minha própria pergunta, vejo que já ao final dessa segunda temporada a série está sim conseguindo cumprir essa missão de vender um relacionamento convincente, em que finalmente as três pessoas estão atingindo um nível equivalente de envolvimento e reciprocidade, sem deixar ninguém de fora.

Um dos desafios da série é de fato construir uma história consistente em que os amantes possam desejar uma outra pessoa sem que isso desqualifique minimamente a relação inicial e que, mesmo com as questões de ciúmes e divisão de atenção, possa funcionar na prática. Nesse sentido a segunda temporada avançou bastante. Talvez o novo desafio da próxima seja manter esse trisal convincente e com novos dilemas sem desmoronar a discussão principal sobre o poliamor.

E fica registrada aqui uma crítica à Netflix à sinopse da série, que não faz jus ao roteiro: “Para apimentar a relação, o casal Jack e Emma contrata uma acompanhante. Tudo vai muito bem até o dia em que um deles se apaixona por ela”. Essa poderia ser a sinopse do primeiro episódio, mas não da série! A má interpretação de um relacionamento poliamoroso pode começar por uma descrição como essa, que reduz o tema da série a um caso extraconjugal.

Ao propor um tema desses se assume também a grande responsabilidade de discutir de forma qualificada o poliamor, trazendo questões reais e reflexões críticas. É o que se espera. Este tema para muitos é um tabu, assim como outras questões trazidas de forma transversal pela série, como prostituição, maconha, bissexualidade. A série aborda esses temas sem um conteúdo apelativo e traz representatividade inserida em histórias que retratam cotidianos de uma tradicional série americana.

No final das contas, o programa é um grande clichê romântico, mas isso não é de todo ruim! Afinal, cumpre o excelente papel de retratar as diferentes possibilidades de amar.

You Me Her poliamor
Luciana Fiorin Fã de séries sobre política, crimes, dramas familiares, negócios, advocacia, cotidiano médico, prisioneiros e prisioneiras, ficção, fantasia, policiais, romances apimentados e famílias atrapalhadas, não necessariamente nessa ordem. É capaz de devorar séries inteiras em tempo recorde. Mesmo assim conseguiu se formar em Direito, concluir um mestrado em Segurança Pública e trabalha com Cidadania e Direitos Humanos.

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