Home Crítica White Famous: mais uma comédia reforçando estereótipos de gênero
White Famous: mais uma comédia reforçando estereótipos de gênero

White Famous: mais uma comédia reforçando estereótipos de gênero

0
0

white famous

White Famous conta a história de Floyd Mooney, um jovem comediante afro-americano cuja carreira está em ascensão. Quem interpreta o protagonista é Jay Pharoah, cuja carreira em Saturday Night Live nunca impressionou. A verdade é que agora, encabeçando a nova aposta no quesito comédia do canal Showtime, ele parece não ter mudado tanto de status: os dois episódios de 30 minutos cada deixaram a real impressão de que lá vem mais do mesmo.

Exibida no último dia 15, a série já teria sido ruim se estreada em qualquer momento, mas foi especificamente horrível por ter sido lançada em meio ao escândalo Harvey Weinstein (produtor americano acusado de estupro e assédio nos sets de filmagem por atrizes como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Lea Seydoux). O show é escrito e dirigido pelo criador de Californication, Tom Kapinos, e a produção executiva é assinada,entre outros, por Jamie Foxx.

Funcionando como uma espécie de sátira do showbusiness, White Famous se propõe a criar um artista “quase branco”, daqueles, segundo o show, que agradariam todo mundo, transcendendo à questão racial. Seria injusto dizer que o show não questiona questões raciais arraigadas às estruturas Hollywoodiana, mas é somente nesses momentos em que ele questiona o status quo, porque no que diz respeito à representação de gênero e LGBT o que vemos é um verdadeiro show de horrores.

Tendo como foco a carreira de um comediante e as “indignidades” pelas quais ele tem que passar para garantir seu lugar ao sol, White Famous tropeça na originalidade e peca por ainda acreditar que esse tipo de narrativa precisa necessariamente estar atrelado ao combo: usar o corpo feminino como objeto + não dar nenhum papel relevante a nenhuma mulher + só permitir falas femininas que girem em torno dos homens da série.

O episódio piloto começa com o colega de apartamento de Mooney acordando-o para atender uma ligação, a câmera dá um close na mulher nua que dorme ao lado dele e no quanto o amigo a deseja. Um típico exemplo do atestado de masculinidade que alguns produtos midiáticos acham necessário usar para mostrar que o protagonista é hétero, que “pega” mulheres com corpo padrão, que isso é tão comum que fica evidente que ele faz sempre.

Longe de passar no Teste Bechdel, a série diz se tratar da história de um comediante, embora não o mostre fazendo comédia de fato, e acaba empacando naquele ruim e velho humor que a cada Fall Season a gente acredita que vai ter caído no desuso e quanto vamos ver: lá está ele em boa parte das novas comédias. Realmente tratar mulher como lixo parece não sair de moda nunca…

Reforçando a cultura do estupro, mulheres jovens são assediadas por um diretos e um executivo e ninguém na trama parece incomodado e o personagem principal em dado momento fala a inaceitável frase “você deixou a porta aberta, está praticamente implorando para ser molestada”; reforçando o machismo, a série mostra Floyd repetidamente não aceitando que quando sua ex fala “não”, ela realmente quer dizer “não” e ele fala que ela tem uma “vagina confusa”, fazendo parecer que é correto mesmo não aceitar o não como resposta; reforçando preconceitos de gênero e a transfobia, Floyd não aceita um papel em que precisa se vestir de mulher e ainda diz que isso é a tentativa de Hollywood de degradar homens negros;

O problema com White Famous é uma espécie de falta de problemas realmente interessantes e de personagens palatáveis, com quem a gente possa se conectar. É, também, o fato de que quase nada no enredo é realmente engraçado — ou, minimamente tolerável — , beirando o patético na sua presunção de ser cômico. O desenvolvimento da série também não ajuda: cada início de conflito que parece ser interessante é resolvido de forma apressadamente logo mais e, por fim, a série é apenas mais uma comédia que estamos na torcida para não ser renovada.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

LEAVE YOUR COMMENT

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *