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[Tudo por elas ] “O Último Tango em Paris” e outros casos envolvendo abusos à atrizes em cena

[Tudo por elas ] “O Último Tango em Paris” e outros casos envolvendo abusos à atrizes em cena

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O Séries Por Elas tem como prioridade máxima noticiar e discutir questão que envolvem o universo das séries. No entanto, vez ou outra, sentimos a necessidade de abordar questões que passam pelo cinema, música e artes de maneira geral. Para isso, criamos a coluna Tudo Por Elas. Nela, uma vez por semana, discutiremos sobre alguma questão do universo midiático e a mulher que não esteja relacionado às séries. 

Casos de abuso envolvendo diretores e atrizes são mais frequentes do que a gente imagina. Bernardo Bertolucci teve um vídeo seu, de uma entrevista feita para uma TV norueguesa, em que diz ter abusado da atriz Maria Schneider no filme O Último Tango em Paris, produzido em 1972.

A cena em questão foi muito chocante na época, porque envolvia uma cena de sexo e manteiga. Mas não só, chocou também porque  o ato em si no roteiro era para soar como um ato não consentido. Alguns anos depois, Schneider disse que de fato a cena não foi planejada, foi decidida de última hora e nem mesmo o Marlon Brando, que faz a cena com Maria, sabia que ela seria rodada. Bertolucci apenas pediu consentimento ao Brando minutos antes de rodar a cena, mas de qualquer forma, fizeram um conluio para ludibriar a atriz e fazer a cena, todo um abuso planejado para obter “o melhor da atuação dela”.

É triste ver que todo abuso físico e mental, toda forma de violência é justificada na arte e passa impune durante anos, causando dores e cicatrizes irremediáveis às vitimas e gerando dúvida sobre a capacidade profissional da pessoa que sofreu o abuso, porque foi necessário levá-la a uma situação violenta para que ela apresentasse uma atuação magnífica. No fim só resta o produto final e os aplausos de quem não viu o que há por trás dos 90 ou mais minutos de uma produção bem-sucedida.

Samantha Geimer era uma modelo mirim, de apenas 13 anos quando conheceu o diretor polonês Roman Polanski em 1977, nos EUA. Ela tinha um ensaio para a revista Vogue e Polanski seria o fotógrafo. A situação já foi bem estranha porque ela teve de ficar sozinha em uma casa com ele para o ensaio. Em sua biografia, Samantha diz que Polanski fez diversas fotos, mas parecia insatisfeito com ela e lhe ofereceu bebida alcoólica com um sedativo, ela relata que ele pediu a ela para tirar a calcinha e o resto é o que todo mundo já conhece. Polanski chegou a ser condenado em 2009 e extraditado para a França, mas o mais surpreendente é que Samantha relatou em sua biografia que o caso nunca se tratou de um estupro, que ela poderia ter resistido as investidas de Polanski, mas não o fez e completou dizendo que perdoava o diretor pelo o ocorrido.

Essa justificativa deve ter agradado a imprensa e a Academia, que tem Roman Polanski em maior estima, mas o fato de um homem, com 43 anos na época, drogar uma modelo jovem como era Samantha e ter relações sexuais com ela, caracteriza estupro, não tem outro adjetivo que suavize o que houve ali, as declarações contrárias de Samantha acabam sendo compreensíveis, porque por anos ela foi assediada pela mídia, assim como toda sua família e sua carreira foi destruída por isso, portanto ela pode ter encontrado no perdão, uma forma de seguir com sua vida da melhor forma possível.

Polanski, ocultado pela impunidade, ainda abusou de outra garota: Charlotte Lewis. Lewis afirmou que tinha 16 anos na ocasião e que Polanski lhe ofereceu um papel em troca de sexo. Ele ainda se envolveu em outros tipos de abuso com duas grandes atrizes: Faye Dunaway, na produção do filme Chinatown (1974) e Mia Farrow, com o filme O Bebê de Rosemary (1968), ambas relataram que ele as submetia a humilhações públicas e a violência física. Faye Dunaway, em especial, ficou tão traumatizada com os abusos sofridos por Polanski, que era chegou a urinar em um copo e jogar na cara dele em seguida, até hoje ela diz não se esquecer de tudo o que passou nas mãos dele.

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Chloë Sevigny, atriz conhecida por sua personagem Lana Tisdel no filme Meninos Não Choram, de 1999. Em uma entrevista a revista Variety neste ano, Chloë afirmou que já sofreu diversos abusos em sets de filmagem. Ela relatou que muitos diretores tentaram transar com ela em troca de um papel e outros chegaram a lhe oferecer presentes em troca de sexo.

Muitos outros diretores incluíram cenas de nudez onde não havia e Chloë até fez uma observação interessante durante a entrevista, ela diz que fazendo uma retrospectiva sobre todos os em que atuou, ela percebeu que ficou nua em todos eles. Essa declaração de Chloë Sevigny à Variety foi fundamental para expôr como os homens do cinema conseguem praticar abusos e sair impunes, porque eles detém o mercado do entretenimento e podem banir qualquer vítima que não aceite se calar diante da violência sofrida – digo isso porque Sevigny fez um filme com o seu ex-namorado, o cantor e cineasta Vincent Gallo em que ela faz sexo oral nele e a cena é explícita, na época, o filme foi bastante criticado pela imprensa especializada e por críticos do Festival de Sundance, onde o filme estreou, mas Chloë saiu em defesa do filme e de Gallo na época, dizendo que o filme precisa ser respeitado pela obra de arte que ele é – falando agora sobre diversos abusos sofridos, Chloë Sevigny pode ter percebido que, ser exposta dessa forma “em nome da arte” poderia ter custado sua carreira, sua reputação, o que também é uma forma de abuso, vide os vídeos de sexo amador vazados sem o consentimento das partes na internet e quantas vidas foram perdidas devido a esses vazamentos.

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Foi assim com a atriz Thandie Newton, de Missão Impossível 2, ela relatou que em um dos testes que teve de fazer para conseguir um papel em Hollywood, o diretor pediu para que ela se tocasse: “Antes de eu começar o meu diálogo, disseram para pensar sobre o personagem com quem eu supostamente teria o diálogo e como eu me sentiria ao fazer amor com aquela pessoa.

Eu pensei: isso é tão estranho, por que eu precisaria fazer isso?”, mas esse é o diretor, há a diretora de elenco, isso deve ser normal”. Alguns anos depois do ocorrido, quando Thandie estava em Cannes, para divulgar seu novo filme, ela foi abordada por um produtor de Hollywood que disse ter visto a fita do teste, assim como muitos outros magnatas da indústria e disse coisas horríveis à ela. No fim, por medo de também ter a carreira prejudicada, Thandie preferiu não revelar o nome do diretor que fez isso com ela.

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Alfred Hitchcock também ficou conhecido por ser um carrasco com seus atores e atrizes, mas o caso mais marcante dele foi com a atriz Tippi Hedren. Ela fez o filme Os Pássaros, de 1963. Hedren era tratada com violência psicológica por Hitchcock durante as filmagens e, inclusive, tentou abusar sexualmente dela. Após as gravações, Tippi contou o ocorrido e acabou dando espaço para que outras atrizes pudessem contar suas histórias com Hitchcock, sobre os abusos que sofreram nas mãos dele.

Mas mesmo com tantas atrizes, mulheres contando histórias muito parecidas de violência sexual, ainda assim, Hitchcock nunca chegou a ser punido por isso, em resposta, ele a deixou presa a um contrato e a manteve sob seu domínio para fazer outro filme (Marnie, de 1964), sem poder trabalhar em outras produções.

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Todos esses casos, infelizmente, quando chegam a justiça, são tratados com relativismo e os homens envolvidos acabam saindo impunes na maioria das vezes. Dois casos marcantes foram envolvendo os atores Errol Flynn, Robert Wagner e Christopher Walken. Errol Flynn foi um ator australiano que fez muito sucesso na década de 40.

Ainda em 1942, ele foi acusado de abusar sexualmente de duas jovens menores de idade, Flynn chegou a ser julgado mas, apesar das provas apontando contra ele, o ator foi absolvido. Já o caso envolvendo os atores Robert Wagner e Christopher Walken chega a ser ainda mais bizarro. Wagner era casado com a atriz Natalie Wood, conhecida por sua personagem Maria, de Amor, Sublime Amor, de 1961. Na década de 80, ela, o marido e o ator Christopher Walken foram fazer um passeio de barco e Natalie foi dada como desaparecida. Seu corpo foi encontrado poucas horas depois e, tanto os atores como o condutor do barco disseram que a morte foi acidental e assim o caso foi tratado até o fim.

Mas em 2011, o condutor do barco acabou revelando a um canal de TV norte-americano que naquela noite, Natalie e Robert tiveram uma grande briga, por conta deste depoimento, o caso foi reaberto e a polícia acabou descobrindo que Natalie foi agredida e que ela morreu por “afogamento e outros fatores indeterminados”. Nenhum dos dois atores foram presos.

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Abusos contra atrizes também foram relatados em grande quantidade na indústria pornográfica. Shelley Lubben, fundadora da Pink Cross Foundation, entidade que concede apoio psicológico à vitimas de abusos na indústria pornô, relatou que, desde 2003, 70 atrizes já cometeram suicídio e 228 atrizes morreram no total, envolvendo outras causas, como overdose, homicídios e AIDS. Na maioria dos filmes produzidos pela indústria, é possível perceber que a linha adotada é a da submissão da mulher e cada vez mais atrizes novas vão surgindo nas telas, porque a propaganda de ganhos é massiva e feita até em sites de classificados.

Como mostra no documentário do Netflix, Hot Girls Wanted, muitas meninas iniciam a vida na indústria pornográfica com apenas 18 anos.  O caso mais recente e também bastante triste foi a morte da atriz Amber Rayne neste ano. Ela tinha apenas 31 anos e morreu de overdose de remédios. Em 2015, Amber acusou o astro pornô, James Deen de estuprá-la num set de filmagem. O filme foi lançado e Amber acabou com a sua própria vida, vítima do abuso sexual e psicológico e da impunidade.

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No Brasil também ocorreu um caso horrível envolvendo um diretor de cinema do Ceará.  No início do ano passado, uma atriz prestou queixa contra o diretor Raphael Fyah por abuso sexual, ela conta que foi contactada por ele dias antes do teste e até explicou que a cena se tratava de um estupro, mas ela apenas foi perceber a gravidade da situação, quando estava já no teste e não havia ninguém na sala a não ser ela e o diretor. Ela disse que Raphael pediu para que ela tirasse a roupa e simulou uma penetração. Quando a atriz foi à delegacia e contou o caso para o delegado, ele afirmou que o nome de Raphael não era estranho e que, anos antes, ele foi denunciado por estelionato em 2010. Em março deste ano, Raphael Fyah foi preso por tentativa de estupro.

Ainda existem outros relatos, envolvendo atrizes e até atores, conhecidos e desconhecidos pelo grande público, vítimas de abusos sexuais e psicológicos, pessoas que foram manipuladas em nome da arte ou mesmo tendo a arte como justificativa para que o abusador pudesse encobrir seus crimes. A questão é que não é só a impunidade que reforça esses comportamentos doentios, mas também o machismo estrutural, o sexo visto como moeda de troca e a vulnerabilidade social a qual as mulheres são sistematicamente submetidas em quase todas as sociedades, ocidentais e orientais.

Havia um tempo em que as mulheres que seguiam uma carreira artística, principalmente quando optavam pelas artes cênicas, eram tidas como mulheres vulgares, como prostitutas e assim eram tratadas também pelos grandes empresários do ramo (Marylin Monroe ingressou em Hollywood através de favores sexuais), a questão é que essa prática permanece e, sendo uma indústria dominada praticamente por homens, todos se aliam para encobrir seus abusos e crimes, para esconder os vestígios e se apoiam para se defender se for preciso, e se alguma vítima quebra o silêncio e aponta o seu agressor, é a carreira dela que é colocada em jogo, sua vida e até sua sanidade mental é questionada.

Infelizmente, casos como o de Maria Schneider não são incomuns e até hoje perduram, ocultos no silêncio e na escuridão da justiça, que mantém muitos homens sem punição. Enquanto o machismo perdurar, enquanto as mulheres ainda tiverem de viver diversas situações de vulnerabilidade, enquanto os homens ainda cultivarem o poder como um jogo de vida e morte, onde só ganha aquele que explorar moral, psicológica e sexualmente quem está abaixo deles, nenhum abuso deixará de existir, mesmo que a gente fale, vocifere que isso é errado. Trata-se de um compromisso de todas nós apoiarmos mulheres vítimas de abusos, assim como os agressores se apoiam mutuamente.

A luta pelo fim de toda violência praticada contra mulheres, será possível quando construirmos um mundo em que todas as mulheres possam ser livres de fato, sem medo de sofrer algum abuso, represália e quando tivermos coragem para falar o que pensamos e sobre nossas experiências. É esse mundo que precisamos construir juntas!  Nós podemos fazer isso acontecer.

Dayane Ponte Radialista, jornalista e roteirista. Apaixonada por audiovisual (cinema e produções seriadas) e música. Assim como muitas mulheres envolvidas com o audiovisual, procuro fazer minha parte, escrevendo histórias sobre mulheres comuns e seus desafios diários e procurando reverenciar obras que vão de encontro a isso, porque a representatividade importa, porém feita da maneira certa e não aquela representatividade que esconde interesses escusos ou que apenas procura omitir outras formas de machismo.

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  1. Gente, sabem o Alejandro Jodorowsky? Diretor de A Montanha Sagrada, O Topo, Sangue Ruim e outros filmes pilhados num LSD e que todo mundo ama? Também admitiu ter estuprado a atriz Mara Lorenzio em uma cena de O Topo. Ele escreveu no próprio livro! Aqui o trecho em inglês do livro El Topo:

    “When I wanted to do the rape scene, I explained to [Mara Lorenzio] that I was going to hit her and rape her. There was no emotional relationship between us, because I had put a clause in all the women’s contracts stating that they would not make love with the director. We had never talked to each other. I knew nothing about her. We went to the desert with two other people: the photographer and a technician. No one else. I said, ‘I’m not going to rehearse. There will be only one take because it will be impossible to repeat. Roll the cameras only when I signal you to.’ Then I told her, ‘Pain does not hurt. Hit me.’ And she hit me. I said, ‘Harder.’ And she started to hit me very hard, hard enough to break a rib…I ached for a week. After she had hit me long enough and hard enough to tire her, I said, ‘Now it’s my turn. Roll the cameras.’ And I really…I really…I really raped her. And she screamed.”

    Não dá mais pra curtir o trabalho de homens sem checar a ficha criminal deles antes. E quem fica do lado desses caras, quem diz que “é necessário saber separar o artista da arte” pode ir morrer num incêndio junto com eles, sério.

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