Home Crítica Top of The Lake: cultura do estupro, opressão de gênero e a força feminina
Top of The Lake: cultura do estupro, opressão de gênero e a força feminina

Top of The Lake: cultura do estupro, opressão de gênero e a força feminina

0
0

top of the lake

Top of The Lake tem duas temporadas, nunca esteve entre as séries mais faladas do momento e não contou com uma campanha de marketing potente. Mas ela é das grandes!

Mesmo sem todo a estrutura necessária para ampliar o alcance, a produção australiana criada por Jane Campion, foi indicada ao Emmy Awards, ao Globo de Ouro, ao SAG (Screen Actors Guild Awards) e, pelo menos, outros 15 premiações reconhecidas, levando algumas das mais importantes delas. Exibida nos Estados Unidos pelo Sundance Channel, na Inglaterra pela BBC 2 e na Austrália pela UKTV. A história, protagonizada por ninguém menos do que Elisabeth Moss, apresenta uma combinação de dar inveja a qualquer narrativa badalada por aí: fotografia invejável, personagens complexos, roteiros bem construídos e discussões relevantes.

Sua primeira temporada se passou na Nova Zelândia e contou com sete episódios, estreou em 2013 e acompanhou a história da detetive Robin Griffin (Elisabeth Moss), especialista em casos envolvendo crianças, que tem a missão de encontrar Tui (Jacqueline Joe), uma menina de 12 anos que está desaparecida, grávida de cinco meses e que se nega a revelar o nome do pai da criança, afirmando que ninguém a engravidou.

Na segunda, com seis episódios, quatro anos após os eventos ocorridos, a detetive Robin retorna a Sydney para um novo começo. Nesse recomeço, Robin terá que lidar com feridas antigas e com o surgimento de uma nova investigação quando o corpo de uma menina asiática aparece em uma das praias mais famosas do país. Mesmo com pouca esperança de encontrar o assassino, Griffin não desiste e percebe que a “China Girl” não morreu sozinha. A busca para descobrir a identidade da “ China Girl” a levará aos aspectos mais sombrios da cidade e de forma mais pessoal do que ela poderia ter imaginado.

Apresentando uma tensão constante entre os gêneros, a série retrata a opressão masculina na sua faceta mais sorrateira: aquela cotidiana, na escala micro, difícil de ser notada, porém, muito violenta e perversa. Com camadas narrativas que vão rapidamente da superficialidade para as profundezas da vida dos personagens, somos confrontados com seres autodestrutivos em suas concepções que passaram, cada um à sua maneira, por processos dolorosos para ser quem são naquele momento.

Alguns dos homens asquerosos que compõem a narrativa de Top os The Lake

O cenário é obscuro na mesma medida que é exuberante e, na narrativa, carrega em si uma função específica: ampliar a sensação de pequenez diante daquilo que não tem explicação. Fica evidente que em meio às paisagens deslumbrantes com montanhas de tirar o fôlego, lagos soturnos e clima frio a personagem principal da narrativa é a própria natureza humana, em toda a sua amplitude.

Outra personagem constante em Top of The Lake é a dor. Servindo como uma espécie de impulso para as mais variadas reações, é na dor que muitos moradores da cidade encontram seus refúgios seja para senti-la em plenitude ou para fazer dela um degrau.

Protagonismo e força feminina

GJ é uma espécie de figura mítica que é seguida por mulheres em buscam um ponto de fuga

A primeira temporada da série traz à tona poucas personagens femininas, mas todas elas são muito bem construídas em suas amplitudes narrativas. Deixando em evidência os resultados nefastos da cultura do estupro, a série carrega em si a sensação de se tratar de uma realidade muito distante da nossa, mas qualquer analogia simplória com a realidade vivida por muitos países, incluindo o Brasil, pode sem muito esforço deixar claro que essa história está muito mais perto do que podemos imaginar.

Robbing é forte, mas não deixa de carregar em si uma tristeza iminente fruto das suas experiências mais profundas. Ela é a personificação do que a cultura do estupro e da opressão masculina podem fazer na vida de uma mulher e lida diariamente — seja em suas próprias lembranças ou nas situações cotidianas vividas no trabalho ou pela cidade — com o silenciamento e apagamento estrutural que aquela comunidade impõe às mulheres. Mas ela não é a única a viver assim!

Na primeira temporada, compondo uma espécie de clã de mulheres que já passaram toda a sorte de problemas na vida, a história apresenta um elemento interessante: o Paraíso. Trata-se de um terreno amplo na natureza ocupado por GJ (Holly Hunter), uma espécie de figura mítica que é seguida por mulheres em buscam um ponto de fuga.

Juntas elas foram uma comunidade autogerida com o objetivo de promover ajuda mediante a troca de experiências. É uma espécie de porto seguro mesmo. Essa formação num primeiro momento parece estranha, mas a cumplicidade entre as mulheres que abdicaram de suas vidas paralelas para promover a cura — em si e nas outras — é uma configuração narrativa muito rica.

>> Leia também: Elisabeth Moss: personagens inspiradoras na representação da luta feminista

A primeira pergunta que vem à cabeça é: “o que aconteceu com cada uma dessas mulheres que as levou até este lugar?”, mas com o avançar da história, esse ponto já não se apresenta tão interessante, quando nos damos conta de que ali não é o passado que importa, mas sim a possibilidade de cura e de se mover com a adversidade.

Já Tui, menina de 12 anos cuja história é o centro do mistério desenvolvido pela primeira temporada do show, aprendeu desde muito cedo o que significa ser mulher e viver naquele povoado. Ciente da ameaça iminente, ela busca em seu instinto autoprotetor o que precisa para manter-se viva, sem necessariamente isso significar que ela esteja levando uma vida minimamente decente.

Silêncios que ensurdecem!

O silêncio presente na narrativa só reafirma a ideia de que para assistir a série é preciso estar disposto a contemplar a tristeza, compreendendo ela também como um dos componentes que nos constitui. Assim nos aproximamos destes personagens tão permeados pela humanidade falha que há em todos nós. Top of The Lake exige calma, precisa ser degustada e sentida em cada ponto do seu desconforto.

É densa e no lugar de uma narrativa procedural de investigação, entrega uma verdadeira contemplação do que é ser humano e viver conforme regimentos particulares.

 

Vale ressaltar que neste texto, focamos apenas na narrativa da primeira temporada do show. Sua segunda temporada estreou em Setembro deste ano, mas não foi ao ar ainda na televisão, tendo sido exibido somente em um evento de três dias promovido pelo canal de Sundance TV. Em breve o Séries Por Elas vai postar uma análise focada nos desenvolvimentos da segunda temporada.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

LEAVE YOUR COMMENT

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *