Há tempos o roteiro de The Walking Dead precisava de uma boa dose de coragem. Mas nessa mid season finale aprendemos claramente que a linha que separa coragem de burrice é muito tênue. Os rumores da morte de Carl corriam livremente há um ano. Para ser exata, em novembro de 2016 foi a primeira vez que ele começou, quando as gravações da sétima temporada chegaram ao fim. O pai do ator postou um agradecimento em seu Facebook agradecendo os sete anos de contrato com a AMC e as oportunidades dadas ao menino.

O post de William Riggs foi rapidamente apagado das redes sociais, mas dizia: “7 anos de contrato completos! Grato pela AMC, pelo elenco e equipe, pelos fãs de The Walking Dead e, especialmente, pelo Chandler, por sempre estar 100% dedicado. Seja para se levantar às 4 da manhã, trabalhando no frio congelante depois das 2 da manhã, deixar seus amigos e infância despreocupada para trás, se bagunçando para compensar os trabalhos de escola perdidos; ele tem feito tudo sem reclamações e sempre me deixou orgulhoso e deslumbrado por ser seu pai!

Depois disso, sites especializados em spoilers de seriados também falaram sobre uma possível morte de Carl às portas de Alexandria. O rumor aumentou quando semana passada o garoto postou um vídeo em suas redes sociais cortando o cabelo. Ao contrário de Negan, que achava o visual caolho de Carl poderoso, o menino não se sentia a vontade de assumir o aleijão. Por isso insistia em permanecer de curativo, a franja cobrindo a parte mutilada do rosto. Assim, esse era um poderoso indício de que os dias do personagem estavam contados.

Ainda assim, restava um fio de esperança de que o personagem com o arco de crescimento e desenvolvimento mais consistente da série não seria sacrificado. A história de The Walking Dead é, antes de tudo, a história de crescimento de Carl Grimes. Não pela sua própria sobrevivência o xerife fez tudo o que fez até agora, mas pelo filho. Em mais de uma conversa, seja com Shane, com Glenn, com Hershel, sempre ficou claro que o objetivo sempre foi tornar o filho um homem forte, justo e capaz de ser um líder. Isso fica bem claro nas conversas entre pai e filho na prisão, já com Lori morta.

Carl pode não ser o personagem preferido da maioria, mas The Walking Dead, no seu núcleo, é essencialmente a história de Carl. O arco principal de todo o show é que Carl passa de uma criança para um jovem homem endurecido pela batalha pronto para assumir a liderança do pai. Os quadrinhos envelheceram Carl em um único salto de tempo, mas na TV vimos Carl ir de um garoto de 10 anos a um homem diante de nossos olhos. Nós literalmente vimos Carl (e Riggs) crescerem na tela. Matá-lo agora foi como plantar uma árvore apenas para cortá-la quando está começando a fornecer sombra. Foi um desperdício total.

Escolha um personagem de The Walking Dead e as coisas pelas quais passou e compare com tudo o que o garoto enfrentou. Carl tornou-se uma potente ferramenta de matança de walkers antes dos 15 anos. Com Maggie fez o parto da mãe e teve que mata-la em uma das cenas mais emocionantes da série. Lori lutou muito para mantê-lo vivo e íntegro. Também lutou para que, quando chegasse o momento dela partir, não fosse o filho a ter que fazê-lo. Mas ela não teve escolha. Vimos um garoto, ainda com o rosto redondinho e infantil, ter que matar a própria mãe depois de ajudar a irmã a nascer. Bons tempos de The Walking Dead.

E agora, depois de salvar e propor-se a abrigar uma pessoa que estava vivendo sozinha ele é idiotamente mordido. No alto da oitava temporada, em um embate com meia dúzia de mortos o menino deixou-se morder. Carl morre como um herói, um mártir. Absorveu o melhor da mãe, o melhor do senso de justiça que o pai já teve, o melhor do espírito de luta e ferocidade de Shane, Carol e Michonne, que também foram peças chaves para seu crescimento. Carl encarna o provérbio africano de que “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Carlinhos cresceu com muitas mães: Lori, Andrea, Carol, Maggie, Michonne. E muitos pais: Rick, Shane, Glenn, Daryl, Hershel. Também foi um pouco pai da irmã mais nova que aprendeu a amar e cuidar assim como ele foi e era cuidado.

O crescimento do menino mais do que ser “a esperança de novos tempos” em um mundo caótico, reforçava a ideia de que é possível continuar sendo humano e justo. A índole e o caráter de Carlinhos cresciam na direção certa, como se espera de um futuro líder. Mas o roteiro confuso e absolutamente errado das duas últimas temporadas da série não deu conta de sustentar o incrível desenvolvimento do menino. E, de acordo com entrevista dada ao Hollywood Reporter, não foi o ator que pediu saída da série. Foi uma decisão do próprio Scott Gimple.

Enfim, o que eu tenho para falar sobre a morte de Carl é que foi o maior erro do roteiro de The Walking Dead até agora. Você pode ter uma opinião diferente, claro que pode. Você pode ser ser fã de Daryl, que foi o idiota que colocou todo o plano das três comunidades a perder devolvendo o poder de destruição às mãos de Negan. Mas para mim, que estou escrevendo essa resenha, a morte de Carl apenas mostra o que venho falando desde o início dessa temporada, TWD caminha para sua derrocada. A passos largos.

E o resto?

Bom, além disso todo o roteiro do episódio foi uma bagunça. Apesar do roteiro da oitava temporada não ter se preocupado em nenhum momento em nos deixar a par dos planos da Guerra, íamos adivinhando o que poderia estar acontecendo pescando dicas nas falas de Rick. O plano agora era trazer o lixão para o lado de Alexandria, Hilltop e Reino, para que juntos eles montassem guarda em frente ao Santuário tomado pelos walkers exigindo a rendição de Negan.

Mas os idiotas Daryl e Tara jogaram os planos pelo ralo no episódio passado.Abriram um buraco no Santuário e os zumbis entraram lá. Como todos os tenentes de Negan estavam lá dentro, conseguiram controlar a invasão. Ficaram isolados em uma parte do lugar em que os mortos não conseguiam acessar. No entanto, em questão de horas Negan conseguiu reorganizar seu pessoal e sair à caça do rei, da viúva e de Rick.

Veja bem, Hilltop e o Reino – só a Carol e o Jerry, no caso – saíram durante o dia para se encontrarem às portas do santuário. Mas o que vemos nesse episódio é Maggie e sua frota à noite na estrada que acabou sendo bloqueada pelos salvadores. Oras, nós sabemos que a distância entre as comunidades não é tão grande. Além disso, como os salvadores podiam saber que Hilltop estava indo em direção a eles? E como é que depois de Rick e cia matarem todos os salvadores dos postos avançados, Negan ainda tem tantos homens para contra-atacar com tanta força?

The Walking Dead 8×08

Eu sei que é uma série com zumbis, não dá pra ficar pedindo que tudo faça sentido, mas o mínimo de coerência na narrativa, por gentileza. Além disso, Rick passou o episódio inteiro tentando chegar em casa. Em outras vezes eles já foram rapidamente até o Santuário. Lembra de quando Carl e Jesus foram de Alexandria ao Santuário escondidos em um caminhão dos salvadores? Eles não levaram um dia todo.

Também há capangas de Negan no Reino atrás de Ezekiel. E o rei faz justamente o que se espera de um líder, salva suas pessoas e coloca-se como única opção para os vilões. Carl também fez isso quando colocou-se de isca para Negan às portas de Alexandria dando tempo das pessoas fugirem pelos fundos.

Carol chega ao Reino a tempo de encontrar as pessoas fugindo e Ezekiel fechando o portão atrás de si. A ideia é manter os salvadores confinados, pelo menos por um tempo. A Carol que conhecemos certamente já sabe uma outra entrada para o Reino e vai colocar em prática um plano para entrar lá. Morgan também chega ao Reino. Como foi que ele sobreviveu e todos os outros atiradores nos prédios em frente ao Santuário morreram, só os roteiristas sabem. Se é que sabem.

O fato é que Morgan é uma sombra. Essa inclusive é uma das suas maiores qualidades como combatente. Ele consegue passar despercebido com seu bastão e entrar em todo lugar sem ser visto. Pode atacar os inimigos de surpresa garantindo uma boa vantagem quando além de humanos, os zumbis também são uma possibilidade.

Ah! Não vou esquecer de Enid e Eric que estão indo até Oceanside. Devem querer tentar convencer as mulheres a unirem-se às comunidades novamente. Mas Enid, totalmente inexperiente em combates, acerta logo um tiro na líder de Oceanside e a merda tá feita.

A mid season finale da oitava temporada de The Walking Dead foi uma sucessão de tensões. Não pela trama, mas pela confusão do roteiro que em muitos, muitos momentos simplesmente não fazia sentido nas coisas mais simples. Confuso, cheio de erros, tentando recuperar o tempo perdido em tantos episódios ruins. O final da primeira parte da temporada é quase como um atestado da morte iminente que a queda na audiência prenuncia. Uma pena…

The Walking Dead retorna para a segunda metade da oitava temporada no dia 25 de fevereiro.