Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”. Simone de Beauvoir

Simone de Beavoir nunca fez tanto sentido como em The Handmaid’s Tale. Estão retratados ali todos os nossos maiores temores. A violência física, sexual e intelectual a que as mulheres de Gilead são submetidas é tão visceral que depois de um episódio como esse, o sexto da terceira temporada, é preciso um tempo para poder voltar a falar dele. De todas as coisas o que mais se destaca pra mim é o simbolismo que a diretora Dearbhla Walsh fez questão de imprimir em toda cena.

Essa inclusive tem sido uma característica da série desde o início. O cuidado com cada locação, o interior e o exterior de cada casa e como elas representam bem seus ocupantes, o mercado absolutamente branco e sem direito a escolhas, as ruas sempre livres de tumulto. Neste episódio a estação de trem mesmo cheia de pessoas é praticamente monocromática, o Washington Monument foi transformado em uma cruz de 170 metros e a estátua de Abraham Lincoln destruída.

Para nós, brasileiros, apesar de chocante, a destruição desses dois monumentos pode não significar muito, mas para a história dos Estados Unidos eles são marcos de transformação e afirmação democrática e fazem parte da construção de sua identidade. O Washington Monument, construído entre 1848 e 1885, é uma homenagem ao primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington. Ele liderou a primeira revolução bem-sucedida na história contra um império colonial, em 1775. Também é um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, um dos homens responsáveis pela Constituição daquele país. Washington é o símbolo do nascimento dos Estados Unidos.

Mas em The Handmaid’s Tale os Estados Unidos não existem mais e depois de tantos anos oprimindo países mundo afora, experimenta ter sua história dilacerada pelos ideais teocráticos dos homens de deus que transformaram o “lar dos bravos, terra dos livres” na República de Gilead. Assim, George Washington e seus feitos históricos não representam mais nada. Sobre sua história os comandantes de Gilead constroem seus próprios objetos de adoração e fazem o que for necessário para apagar os rastros da desgraça em que o mundo se transformou sem deus.

Hoje, na estátua de Lincoln, que fica no Lincoln Memorial, que está de frente para o Washington Monument, está gravada a seguinte mensagem: “Neste templo, como nos corações do povo, para quem salvou a União, a memória de Abraham Lincoln é conservada para sempre”. Só isso já bastaria para justificar a destruição da estátua do 16º presidente estadunidense no Conto da Aia.

Mas além disso, Lincoln assinou a lei de Proclamação de Emancipação em 1963, o que impulsionou tornar a escravidão ilegal, que acabou por aprovar a 13º Emenda*, que deu fim à escravidão (legalizada) naquele país em 1865, 23 anos antes de nós. Mas lá, assim como aqui, o fim da escravidão não significou dignidade e justiça para os homens e mulheres escravizados, que fique claro.

Eu falei em simbolismos neste episódio e, para mim, o mais significativo está aqui, diante da estátua destruída de Lincoln, o homem do discurso de Gettysburg que entre outras coisas clama: “que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da Terra”. É aos pés dessa estátua que June enfrenta Serena e desnuda sua crueldade. Como resposta, Serena apenas confirma sua pequenez: “eu deveria ter colocado um anel na sua boca no dia em que nos conhecemos“.

A vontade de dizer “eu avisei” é maior que tudo. Como já afirmei em outras resenhas, Serena empenhou sua vida na construção desse estado teocrático. Militou duramente contra o feminismo, a liberdade das mulheres e seus direitos de escolha. Usou de todos os seus privilégios de mulher branca, magra, rica e com acesso à educação formal de qualidade e à liberdade de opinião para condenar outras mulheres a um ideal de mulher virtuosa** e temente a um deus de horror em que ela acreditava. Eu disse que era inútil esperar por Serena.

Serena e Fred a qualquer momento poderiam ter optado por adotar uma criança, mas a fantasia do “sangue do meu sangue, carne da minha carne” é muito mais poderosa do que a consciência dos direitos e liberdades das outras pessoas. E o pior, o filho que eles gerariam em Gilead seria filho da carne e do sangue de Fred, não de Serena e, mais ainda, no caso de Nichole, nem de um e nem de outro.

Nichole seria uma criança adotada por Fred e Serena, mas para isso June (e outras milhares de mulheres) foi separada da sua família e estuprada consecutivas vezes. É isso que Serena apoia. Por mais que seus olhos se encham de lágrimas quando June fala com ela, que ela diga que se preocupa com o bem-estar de Hannah, o único interesse da senhora Waterford é no seu capricho de ser mãe e mulher virtuosa temente a deus.

Unindo a fantasia de família perfeita de Serena com a sanha por poder do mesquinho comandante Fred, esse casal não só figura como um dos responsáveis por destruir um país, como no assassinato de milhares de pessoas LGBTI+, separação de famílias e corrobora a prática de subjugar e estuprar mulheres. Como poderíamos esperar de Serena um olhar empático sobre a resistência das mulheres de Gilead? Sobre qualquer uma que não sejam as esposas dos outros comandantes, suas iguais? Nós somos e devemos ser sempre pelas mulheres, mas não nesse caso, não no caso de Serena que colocou seu desejo pessoal acima de qualquer direito humano.

Bom, eu já esperava que Serena não fosse desistir de Nichole e que a criança não estaria a salvo mesmo no Canadá. O que eu não esperava era o plot twist da história de Nick. Na primeira temporada nós conhecemos um pouco da história dele. Pobre, cuidando de familiares doentes, não parava em emprego nenhum, sempre teve dificuldade de se encaixar na sociedade. É claro que essa nova sociedade, que retira todo protagonismo das mulheres e dá plenos poderes e direitos a homens heterossexuais seria uma opção para ele. O que eu não esperava é que ele fosse mais do que motorista ou um olho, Nick era um soldado de deus liderando batalhas na guerra santa.

Na Idade Média as Cruzadas atraíram muito mais do que apenas homens de fé querendo levar a “salvação aos hereges”. A Cruzada antes de um fato político e militar era uma liturgia, devendo por isso estar aberta a todos e não apenas a uma elite.  Àquele tempo, as Cruzadas foram expedições militares empreendidas contra os inimigos da Cristandade e por isso legitimadas pela Igreja, que concedia aos seus participantes privilégios espirituais e materiais. A indulgência concedia o perdão dos pecados, perspectiva muito atraente naquela sociedade de forte religiosidade, mais clerical que civil, na qual pecado e crime eram a mesma coisa.

Agora, dito isso, Nick ter se alistado faz todo o sentido. Um homem sem perspectivas que recebe uma oferta de ter seu passado inconstante perdoado em troca de benefícios materiais e uma vida de privilégios na nova sociedade. Nick tinha benefícios que não vimos os demais motoristas recebendo, por isso mesmo consegue livre acesso à resistência das Marthas, sempre em benefício próprio. Talvez realmente tenha se apaixonado por June e naquele momento em que ela o chama para, pelo menos por uma vez, ser o pai da criança, ele tenha atendido e decidido fazer algo de bom no mundo. Mas o passado de um homem na linha de frente das trincheiras da guerra santa, pesa contra ele em um mundo livre. June se sente enganada, nós nos sentimos enganadas.

Por fim, eu gostaria de destacar, mais uma vez, a qualidade cinematográfica dessa série. A ambientação, as referências históricas, as referências aos discursos da extrema direita no mundo hoje. Preste atenção como as imagens em plano aberto mostrando a concentração das aias ou monumentos públicos te remetem imediatamente à Alemanha nazista de Hitler. Como os símbolos governamentais estampados em todos os lugares públicos dão a dica do quão autoritário é esse Estado. Este episódio merece todos os prêmios da temporada 2019.

PS: é coisa da minha cabeça ou o alto comandante Winslow alisou demais o Waterford?

*Fica a dica para assistir ao documentário de Ava DuVernay, está disponível na Netflix.

**Fica mais uma dica para ler a reportagem sensacional da Pública.

The Handmaid’s Tale 3×06