As pequenas sensações de vitória sempre permearam os episódios de The Handmaid’s Tale. Mas a verdade é que apenas os homens no poder realmente gozam de conquistas significativas nessa série. A cada passo adiante dado pelas personagens femininas, é uma pancada que uma delas recebe. Quando o comandante Lawrence diz: “todos corremos perigo“, ele novamente tenta chamar a atenção de June para o fato de que em Gilead, só está a salvo quem não ousa desobedecer ao sistema. O que, convenhamos, não é o caso de nenhum dos personagens que acompanhamos até aqui.

June acredita estar no comando de algumas situações. Por exemplo, quando ela aceita ligar para Luke para marcar um encontro entre ele e Serena. É como se fazendo isso, June pudesse confiar na palavra de Serena – que no fundo até agora não tem nenhuma relevância nas decisões de Gilead – e de alguma forma proteger o marido e a menina. Mas o cenário real é que por mais que os comandantes cedam mínimos espaços para Serena, como se encontrar sozinha com Luke, eles farão o que julgarem ser melhor para a política e economia de Gilead.

No final do episódio nós temos duas alternativas, ou Serena é realmente inútil e sua palavra não tem nenhum valor, ou o comandante Waterford e os demais homens no poder de Gilead resolveram fazer do “sequestro” de Nichole uma causa política que, entre outras coisas, pode avançar negociações comerciais com outros países e colocar novamente na mesa um acordo de extradição entre Canadá e Gilead.

Quando a família Waterford vai à televisão apelar para as autoridades para ter seu bebê sequestrado de volta, coloca-se no papel de vítima e, pior, de perseguidos políticos e religiosos. A narrativa de Gilead neste caso, é dizer ao mundo que o fato de não concordarem com seus princípios religiosos não dá o direito do outro país abrigar uma criança retirada de casa à revelia dos pais e entregue para um estranho. Neste sentido, é dever do país vizinhos unir esforços à Gilead para recuperar a criança e punir o culpado.

June não esperava por isso, mas sejamos sinceros, nós esperávamos. O que me surpreende é o silêncio não só de Emily, mas dos demais refugiados de Gilead. É claro que é difícil superarem tudo o que sofreram, mas a História não pode ser feita apenas do ponto positivista como está acontecendo, prevalecendo a história dos homens no poder. É preciso que a construção dessa memória das mulheres e homens que escaparam de Gilead ganhe mais força entre as pessoas.

As histórias precisam ser contadas para que sejam parte da memória coletiva da sociedade e não apenas daqueles que escaparam. E elas precisam ser contadas agora e o tempo todo. Neste caso da pequena Nichole, principalmente, Emily precisa encontrar forças e dizer a verdade, toda a verdade sobre os horrores que viveu e como enfim ela e o bebê conseguiram chegar ali. A criança foi entregue a ela por June, sua verdadeira mãe.

Pode ser que a ida a Toronto, as conversas com June, as ofertas de Tuello e a obstinação de Gilead em trazer de volta Nichole finalmente inflamem em Serena o desejo por libertação. Tuello colocou um celular na bolsa dela e um bilhete, ele e o que sobrou dos Estados Unidos estão prontos para o menor sinal da senhora Waterford. Mas convenhamos, quão mais incitada a personagem precisa ser? Quantos outros estupros, mutilações e assassinatos serão necessários para fazê-la enxergar que no conforto dos seus privilégios não há segurança nem para ela mesma? Até onde essa mulher será capaz de se calar em nome de ser uma mulher virtuosa*, enquanto o mundo inteiro queima a sua volta?

Por fim, gostei muito que June disse a verdade para Luke. Nichole, Holly na verdade, é fruto do amor. Um amor que nasce da necessidade de sobrevivência. O papel de Nick foi fundamental até aqui, ele a manteve viva e fez por ela o que pode. Até aqui. Holly é fruto da sobrevivência de June, a prova de que ela está tentando e também a justificativa para ter ficado.

O que June pede é confiança, ela está lá e continuará lá por Hannah, a filha deles, pelo amor dos dois que já não pode ser vivido, que ele se sinta livre para recomeçar se quiser. June não se culpa e não culpa Luke e gostaria que ele encarasse as coisas da mesma forma. Outra vez June quer lembrar ao marido – e a nós – que os inimigos são outros. Não é Nick, não é Serena ou Fred. O inimigo é o sistema e aqueles que o conduzem e é contra eles que precisam lutar.

Luke nunca deveria ter atendido aquela ligação!

*Sobre mulheres virtuosas, vale a pena a leitura dessa reportagem da Pública.

 

The Handmaid’s Tale 3×05