Receio que Nichole jamais estará a salvo das garras de Gilead. Ainda que aquela seja uma sociedade que se vende para o mundo como isolada, eles estão tão conectados como todos nós, desde que para os seus próprios interesses. O fato das mulheres serem proibidas de ler e a tecnologia ter sido restringida ao mínimo necessário para se viver com algum conforto, a segurança de Gilead certamente desfruta de todo aparato tecnológico que havia nos Estados Unidos à época do golpe teocrático.

E é assim, por conta da conexão e da superexposição em redes sociais que a segurança de Gilead descobre que Nichole está no Canadá, nos braços de Lukas, o marido de June. Ah, mas ela está segura no outro país, podem pensar os mais desavisados. Neste ponto, acho que vale lembrar que um dos pontos do acordo que Waterford negociava com o Canadá durante sua visita era a extradição de americanos refugiados naquele país. Por mais que Luke e Moira tenham vazado as histórias e escancarado os horrores do país fronteiriço colocando toda a sociedade canadense contra eles, não podemos ignorar que a extradição era uma carta na mesa. E não se pode ignorar que Sob os Olhos Dele não está limitado a Gilead.

Além disso, no discurso oficial a criança foi vítima de um sequestro, praticado por uma mulher acusada de tentativa de assassinato. No Canadá está sob os cuidados de duas pessoas que não têm nenhuma ligação familiar com ela. Luke e Moira, legalmente falando, não são nada da pequena Nichole. O episódio apenas joga em nós o fato de Gilead ter localizado o paradeira da criança, mas apesar de Emily ter recebido acolhimento e tratamento em terras canadenses, como Nichole foi entregue a Luke, nós não sabemos qual a real situação legal da criança.

Neste ponto a narrativa oferece um caminho brilhante a ser seguido: a possível luta jurídica entre os dois países. Isso tiraria a culpa de cima dos indivíduos e responsabilizaria a todos por permitirem que um Estado de exceção como o de Gilead se instaurasse (oi, Brasil, isso também é com vc!). Ajudaria a criar um cordão sanitário em torno da República de Gilead forçando-a em direção aos direitos humanos e liberdades essenciais. Talvez, ainda, inflamaria a sociedade não apenas canadense, mas mexicana, europeia, asiática a tomar para si a responsabilidade sobre a sobrevivência em segurança e liberdade da pequena Nichole, consequentemente de todas as crianças e mulheres de Gilead.

Fernanda, você está pirando, querida!
Sim, eu sei, leitora. Mas ia ser louco, né?

Por falar em refugiados o episódio nos trouxe Emily de volta para sabermos como foi o encontro com a esposa e o filho depois dela ter conseguido ligar para eles. Emily não é mais uma aia, tampouco é uma pesquisadora e professora universitária neste momento. Emily é o vácuo que fica nas pessoas em transição. Ela tem uma história pregressa, que é a que compartilhou com a esposa. Mas ela tem uma história em Gilead que pertence apenas a ela. Essa história é permeada de violência, abusos, estupro e mutilação. Essa é uma história que Emily não quer compartilhar, talvez não saiba nem começar a dividir com as pessoas as coisas pelas quais passou.

É provável que Emily não saiba sequer expressar sua dor, porque essa se mistura com vergonha, com culpa, com uma sensação de não pertencimento. Emily não está mais lá, mas ainda não consegue estar aqui e esse limbo é um sentimento muito íntimo que apenas o amor e a paciência podem ajudá-la a superar, ou talvez nem isso. O contato com o filho, e a maturidade do menino ao dizer: “eu só posso te abraçar quando você estiver pronta”, são de enternecer o mais peludo dos corações.

Também serve para mostrar à Emily que o estranhamento tem mão dupla. Enquanto ela luta contra seus próprios demônios para voltar, os seus seres amados também enfrentam uma luta para acolher a ela, aos seus demônios, seus medos e suas lutas. Há uma rede de apoio e amor disposta a resgatar Emily emocionalmente, já que fisicamente nada podiam fazer. Eu já disse em resenhas anteriores dessa temporada e repito: é possível que o arco de Emily seja o mais sensível e significativo desta temporada.

Em Gilead June continua apostando em Serena, ela acredita que a liderança já protagonizada por ela pode arrastar outras esposas com as mesmas preocupações. E outra vez a série nos coloca nessa ambiguidade de ler nos olhos de Serena um fogo que arde pela revolução de uma mulher que fuma escondido com sua antiga aia e cochicha em seus ouvidos informações sobre como ver sua filha, mas ao final do episódio nos devolve ao lugar comum de vê-la chorando diante das imagens do bebê (que não é dela) e a possibilidade de lutar por ele. Como eu disse na resenha do episódio anterior, talvez seja inútil esperar por Serena.

The Handmaid’s Tale 3×04