Nós temos uma nova série. Nessa terceira temporada, cada episódio se afasta mais do que já vimos nas duas temporadas anteriores. Os horrores ainda espreitam e a incerteza do futuro ainda delineia cada passo dos personagens, mas já não há hora marcada para a violência gráfica que viemos acompanhando até aqui. Agora paira nos episódios um tom de mistério, uma bruma que teima em não revelar onde afinal estamos indo.

O grande mistério até aqui é o comandante Lawrence. Na resenha do episódio passado eu havia comentado que Emily tinha sido apenas um ponto fora curva para ele. O que neste episódio ele confirma em um diálogo absolutamente irretocável entre ele e June. A qualidade dos diálogos entre a aia e seu novo comandante em muito supera os diálogos entre ela e Fred. Joseph Lawrence desafia June a pensar além das suas próprias mazelas e por mais que soe misógino enquanto defende seus pontos, nos deixa completamente em dúvida sobre de que lado ele está.

A única certeza até aqui é que Lawrence está jogando. Provavelmente está jogando um jogo que nós ainda desconhecemos, não é o jogo de Gilead e nem o da tal resistência. Ele conhece os dois muito bem, os alimenta e dá espaço a eles, mas por trás disso sua mente maquiavélica tem trabalhado em outros planos. Lawrence é a cabeça pensante de todo o sistema financeiro de Gilead, ele inventou as colônias e provavelmente a forma como as mulheres “salvas” do mundo anterior servem à nova sociedade.

Neste episódio sua questão era salvar cinco mulheres transformando-as em Marthas, para que elas não acabassem nas Colônias. É justamente esse o dilema que ele entrega nas mãos de June como em um desafio. Como você escolhe quem será salvo? Esse é um clássico dilema filosófico, e June se rende a ele, se nega a decidir. A verdade é que em Gilead ninguém, além dos homens no poder, ganha. E é pensando nisso que June acaba escolhendo mulheres de profissões que ela acredita terem a contribuir com a causa das Marthas.

Se os diálogos entre Lawrence e June são fantásticos e se afastam completamente da vilania gratuita e simplória do comandante Waterford, o mesmo não acontece com os diálogos entre June e Serena. A senhora Waterford, separada do marido, passa uns dias na casa da mãe, uma mulher controladora e pouco afeita aos dramas da filha. Sincera, ela lembra Serena que naquela sociedade não há lugar para ela sem o marido, para completar expõe a situação da filha em uma roda de orações onde todos falam sobre isso e rezam para ela e o marido. Ao visitar June, a tristeza de Serena se confunde com uma autopiedade que não combina com a personagem combativa que já a vimos sendo.

Aparentemente June espera demais de Serena. Enquanto uma está cavando um buraco para enterrar uma Martha assassinada pelo sistema, a outra se arrasta pelos cantos. Talvez Serena seja egoísta demais para dar ao mundo o que June espera dela. Talvez ela não esteja disposta a fazer o que for preciso para que outras meninas não percam seus dedos ou a vida por desejarem mais do que o permitido pela misógina sociedade que ela ajudou a fundamentar e criar. Talvez seja inútil esperar por Serena.

The Handmaid’s Tale 3×03