Gostei muito do episódio anterior, gostei menos desse aqui. Parece que ele veio pra dizer, olha só, abaixa a bola porque não é tudo isso, tá? A primeira impressão que tivemos do comandante Joseph Lawrence é que ele estava metido até as orelhas com a resistência. Livrou Emily da tentativa de assassinato ajudando-a a fugir de Gilead sem aparentemente pensar meia vez. Vivia naquela casa totalmente diferente das outras que já havíamos conhecido. Tinha uma relação nada ortodoxa com a Martha da casa.

Mas aquele comandante Lawrence não existe mais, ou pelo menos não como imaginamos que ele realmente fosse. Para mim, o episódio teve a função de explicar o depois de todos os arcos abertos até aqui. Depois da fuga de Emily, depois do fogo na casa dos Waterford, depois da tentativa de assassinato sofrida pela Tia Lydia, depois da fuga frustrada de June.

Depois de todos esses acontecimentos a verdade é que comandante Lawrence não concorda inteiramente com o que foi feito em Gilead, ele não é favor do que o sistema se transformou. No entanto, tem benefícios com ele e não abre mão deles. Comandante Lawrence não pratica as cerimônias, ainda não vimos um motorista/segurança como Nick, além de ter uma esposa que não se encaixa no perfil já mostrado de outras esposas.

Para nossa surpresa, apesar de June andar leve pela casa, ter um quarto que não parece um sótão e ter mais diálogo com a Martha da casa do que ela tinha inicialmente com Rita, quando uma dissidente aparece na cozinha dos Lawrence o comandante não é nada receptivo. A verdade é que Emily foi um ponto fora da curva para ele. Ele gostou dela, enxergou todo o seu potencial como cientista desperdiçado e violentado naquela teocracia de merda e não quis vê-la no muro. Nós estamos tão acostumadas com a narrativa de um personagem masculino salvar o mundo, que por 1 segundo cogitamos que essa seria uma verdade também em The Handmaid’s Tale. Mas não é bem assim.

Quem realmente salva a pele de June é a Srª Lawrence, descobrimos aqui que a aparente ‘loucura’ dela é na verdade uma revolta incontrolada pelo que o mundo se transformou. Quando a coisa esquentou, ela tomou as rédeas da situação e manteve tudo sob controle para que as demais mulheres da casa pudessem seguir com sua atuação.

Neste episódio também descobrimos como o grupo das Marthas faz coisas ilegais entrarem e saírem de Gilead. É um sofisticado e arriscado sistema que passa por muitas barreiras. Ao contrário das aias, que são a garantia do futuro de Gilead, as Marthas “não são ninguém”. Naquela sociedade, assim como na nossa, as mulheres que realizam o serviço doméstico são tidas como menos importantes, passam despercebidas pelos olhos de todos e vivem à margem dos acontecimentos.

A verdade é que elas são a peça fundamental que faz a ligação entre todas as frentes da resistência e da rebelião que está por vir e isso é incrível. Assim como entre as aias há diferentes profissionais, entre as Marthas também estão escondidas médicas, professoras de química, engenheiras, jornalistas e uma série de outras profissões.

O arco de Emily continua emocionante. Sinceramente eu não esperava que ela fosse procurar o Luke para entregar a Nichole, mas ela fez e o encontro do Luke e da Moira com a pequena cria de June é muito sincero. Mas Emily ainda está deslocada. A sensação é que Emily não se sente mais como ela mesma, ela não se sente a esposa ou a mãe que ficou pra trás. Ela foi violentada em todos os âmbitos que se possa imaginar e de certa forma tem medo de que as pessoas que ama não a reconheçam, porque tudo o que viveu a mudou.

Emily é uma sobrevivente, uma mulher que precisa recomeçar pois é impossível retomar sua vida de onde parou. Ela, a esposa e o filho precisam se conhecer novamente para então se reconhecerem uns nos outros. O amor pode ser transformador e o apoio deles é fundamental para que ela possa se reinventar e superar toda a violência a que foi submetida. Quando ela finalmente reúne toda sua coragem e liga para a esposa é o mais emocionante do episódio. Outra vez Alexis Bledel brilha, toma a interpretação de sua personagem para si com uma propriedade que eu não imaginaria na atriz. A maturidade artística que ela demonstra em The Handmaid’s Tale é grandiosa e eu espero que o roteiro dê conta de aproveitá-la por mais temporadas como um forte ponto de apoio para a narrativa que se desenvolverá no Canadá, na Little America.

PS: Luke e Moira se adaptando à pequena Nichole outra vez me reacende a pergunta: o seu companheiro (namorado, marido, parceiro…) estaria lá por você, pela sua amiga e pela sua filha?

PS²: Eu juro que não quero detestar a coleguinha nova de June, mas poxa vida!

The Handmaid’s Tale 3×02