“A noite é escura e cheia de terrores”, já nos avisava Melisandre.

Depois de um final de temporada que pode ter desagradado aos mais desavisados, The Handmaid’s Tale retorna para o seu terceiro ano prometendo menos violência gráfica e mais ações da resistência que começou a se formar. O primeiro episódio, Night, começa imediatamente após os eventos do último episódio da temporada passada. Isso é bom, pois sugere que não ficaremos com perguntas sem respostas a respeito de todas as decisões de June e Serena.

Este foi um episódio de encerramento de ciclos. O Conto da Aia agora entra em uma nova trajetória. O que mais desejamos é ver as consequências pesando sobre os ombros dos homens dessa sociedade teocrática. Acho muito difícil desfechos contundentes para os personagens que odiamos, o Hulu está ganhando muito dinheiro com a série. A produção, se bem gerenciada, tem fôlego para pelo menos mais uma ou duas temporadas. É o primeiro show importante do canal e não acredito que tenhamos um cancelamento abrupto, aposto em uma renovação para a quarta temporada a ser anunciada ainda no próximo mês. Mas que fiquei claro, isso é apenas especulação da minha parte.

O episódio coloca June em movimento, talvez por um segundo pensando que pode chegar em casa antes que percebam o que aconteceu. Mas o comandante Lawrence volta, descobre que ela não foi com Emily e é surpreendido por quem ela realmente é. Tentando um último golpe de sorte naquela noite, June faz com que ele a leve até Hannah. E descobrimos que sim, a menina tem novos pais amorosos, preocupados com seu bem-estar e que se esforçam para que ela cresça saudável e feliz. Mas June sabe que nada do que eles façam poderá assegurar a vida de Hannah/Agnes.

A menina vai crescer e estará presa aos costumes de uma sociedade ultrapassada que abomina suas mulheres. June sabe que aquele aparente verniz sobre os cuidados com a menina é justamente o que a manterá refém pelo resto da vida de uma sociedade que não hesitará em executá-la como culpada de todos os crimes que os livros sagrados atribuirão a ela em qualquer situação. Quando Nick a chama de egoísta, não é capaz de compreender que June não seria jamais capaz de escolher entre uma das filhas. Ela sabe que se tivesse escolhido Nicole, teria que viver toda a vida sob a sombra não apenas do abandono de Hannah, mas das consequências que a menina enfrentaria naquela sociedade mais cedo ou mais tarde.

Quando June escolhe ficar, não é apenas por Hannah que ela o faz, mas também pela pequena Nicole que segue nos braços de Emily. Porque se não houver enfrentamento a esse sistema, mulheres do mundo todo sempre estarão sujeitas a ser submetidas a ele estejam aonde estiverem. Vale lembrar que um dos acordos que Waterford negociava com o Canadá na temporada passada era a extradição de estadunidenses. É um preço alto a se pagar, sem dúvidas, mas é uma lição que June aprendeu com a mãe, Holly, ainda criança.

Ainda que ela não tenha se tornado a militante que Holly esperava que ela fosse, June nunca deixou de seguir aquilo no que a mãe acreditava. Ela só não sentiu necessidade de ser uma voz atuante na militância feminista. O contrário de Serena, que dedicou sua carreira a apontar o feminismo como um grande mal para a sociedade, por conta dele mulheres (segundo ela) optavam por não ter filhos e deus mandou a praga da infertilidade assolar o mundo. É contra isso que Serena lutava, o direito das mulheres. Lutava!

Sob o seu ponto de vista, Serena ainda não tinha sido atingida em seus direitos. Para ela, ser uma mulher dona de casa e sonhando com um filho era exatamente pelo que ela batalhou. A morte de Eden, as verdades de June, a possibilidade de mais cedo ou mais tarde sua filha pagar com a vida pelo desejo de, por exemplo, ler o livro sagrado, finalmente mostrou a ela que mais do que submissão, o que a sociedade que ela ajudou a criar quer a vida das mulheres. Gilead quer suas mulheres a procriar e coser, quer que elas levem a vida tentando se redimir do pecado original, que deu início a todo o mal que se abate sobre a Terra.

A amputação do dedo de Serena finalmente mostrou a ela que esse deus do terror a que ela tem servido não é bem o que ela imaginou quando ao lado do marido defendeu suas ideias conservadoras. Quando ela coloca fogo no catre, as labaredas incendeiam dentro dela milhares de anos de submissão feminina, violências e abusos. O desmoronar daquele lar é mais do que um incêndio, serve para marcar que algo foi aceso dentro de Serena e ela está ali para lutar nem que para isso tenha que atear fogo em si mesma.

E que direção magistral para esse episódio, as cenas, os efeitos, a trilha sonora. Esse, inclusive, foi o episódio que mais me emocionou. Eu fui particularmente tocada pelo plot de Emily. A fuga, a criança enlaçada nos braços dela. Talvez se June não tivesse colocado o bebê em seus braços, ela não teria lutado com tanto afinco para chegar ao outro lado. Ela não é mais só Emily, ela é a sobrevivente responsável por aquela outra vidinha. E quando as duas entram no hospital e todas as pessoas param para vê-la passar, foi uma catarse.

Talvez, na cabeça de Emily, ela seja apenas uma fugitiva sobrevivente, mas a verdade é que cada refugiado, assim como ela, é um herói de si mesmo e da sociedade. Cada um que reúne toda a coragem humanamente possível para lidar com uma travessia para longe da exploração, da guerra, da fome, salva mais do que apenas a si, salva cada um de nós, ainda que momentaneamente, da nossa cegueira pelo outro. Não existe o outro, deveria existir o nós, enquanto sociedade, enquanto humanidade.

E depois de tudo isso, a reviravolta que, em parte desejávamos, em parte esperávamos: June é enviada para seu novo posto, na nova casa do comandante Lawrence.
“Você não será um problema, será?”.
“Não, senhor”.

O episódio não teve nada de morno. Encerrou arcos, iniciou novos ciclos, introduziu ótimos novos personagens e valorizou os que já conhecemos. Espero sinceramente que seja assim a temporada toda.

PS: Achei de uma delicadeza sem fim o fio vermelho que June prendeu ao braço da filha, talvez uma referência à Akai Ito, ou lenda do Fio Vermelho, que diz que as pessoas que se amam estarão sempre ligadas por um fio vermelho, não importa aonde elas estejam, não importa o quando o fio se embaralhe.

The Handmaid’s Tale 3×01