Enfim chegamos ao último episódio da segunda temporada de The Handmaid’s Tale. Uma temporada que ganhou o incremento de mais três episódios, mas nem por isso deu conta de desenvolver melhor os arcos que resolveu abordar. Essa segunda temporada mostrou-se mais enrolada e menos empenhada nos conflitos pessoais das personagens principais. Tão violenta quanto a primeira temporada, mas contextualizando melhor os sentimentos. Essa temporada também apoiou-se mais nos talentos individuais de suas atrizes e colocou-as poucas vezes para brilharem coletivamente.

Não foi uma temporada ruim, pelo contrário. Mas em comparação com a estreia deixou a desejar, pontas soltas foram mal amarradas às pressas e o foco em Serena poderia ter sido mais dinâmico ou contundente. Da surra de cinto à amputação do dedo, muito embalar de bebê se passou, enquanto esperávamos uma esposa mais disposta à luta pela cria do que aos suspiros.

Em nenhum momento até aqui o grupo de esposas havia falado sobre a educação das meninas em Gilead. É como se Angela/Charlotte tivesse sido o primeiro bebê que vingou no grupo das esposas dos comandantes. No entanto, naquela exibição feita para a comitiva vinda do México, dezenas de crianças foram apresentadas como nascidas em Gilead. Bom, o fato é que agora, e só agora, Serena está preocupada com o que poderá ensinar à pequena Nichole.

Encontrar a Bíblia toda rabiscada de Eden, uma menina de apenas 15 anos, punida com a morte por afogamento pelo sistema, impactou June. Afinal, se a menina sequer pode estudar o credo que tem que seguir, como será sua vida naquele lugar? A pergunta que ela lança aos Waterford: como será quando vierem atrás da sua filha? É tão óbvia e provocativa que desperta a ira do comandante e acende o terror no coração de Serena.

Eden foi criada dentro de todos os preceitos da religião, ainda assim lia, escrevia e, baseada nos mandamentos em que acreditava traiu o sistema quando fugiu com Isaac. Do mesmo jeito, meninas ao redor do mundo, educadas nas igrejas, tementes à deus, de famílias religiosas, se suicidam quando descobrem que estão grávidas. O medo da punição, do desprezo e da vergonha da família é maior do que a culpa por tirar a própria vida. Então, reforço a pergunta: como será quando vierem atrás da sua filha?

Acontece que para o comandante Waterford e para todos os outros homens no comando de Gilead, a misoginia é o maior mandamento. Manter as mulheres obedientes, caladas e nas trevas da ignorância é seu principal mandamento. Como na Idade Média, a mulher é diabolizada, tem sua sexualidade controlada. A mulher é a perdição do homem, “o corpo da mulher é o lugar de eleição do Diabo”. Assim como o período Medieval, Gilead é masculina “os discursos são feitos por homens convencidos da superioridade de seu sexo” (Georges Duby).

E quando as esposas ousam se erguer contra o já estabelecido, o resultado só poderia ser um: punição. Não surpreende que todas as esposas tenham lentamente abandonado a plenária de defesa de Serena. Ela é casada com o comandante geral, ela tem uma história de militância antes de Gilead, as outras esposas certamente acreditam que Serena desfruta de certas benesses que com as quais elas não são agraciadas. Sua aia fugiu duas vezes, a anterior se matou. Todos sabem que o que acontece na mansão dos Waterford não está totalmente de acordo com os preceitos daquela sociedade.

Assim, é Serena quem sofre a mutilação. Mas dessa vez não foi só fisicamente que a esposa do comandante Waterford foi agredida. Seus sonhos de um mundo justo de amor e obediência para Nichole se provaram uma farsa. Quando ela ergue a mão mutilada para June e diz: “eu tentei”, fica claro que essa Serena não é mais a que propôs ao marido um estupro corretivo em sua aia para acelerar o trabalho de parto. Agora, falta na próxima temporada o luto de Serena se transformar em ira, e se unir às aias e marthas.

Segundo Foucault, onde há relação de poder há resistência, então partindo desse pressuposto, não surpreende que as marthas formem uma articulada rede de comunicação, resistência e atuação em Gilead. Para dar fuga, (pela terceira vez!), June conta com essa rede e vai de martha em martha, todas a tratando pelo nome mesmo que ela não faça ideia de quem seja cada uma delas. O objetivo dessas mulheres é salvar June e a pequena Nichole.

Enquanto isso, o roteiro desperdiça um arco riquíssimo que foi iniciado na nova casa de Emily. No episódio anterior Tia Lydia levou Emily para a casa de um novo senhor, o homem que criou todo o sistema financeiro de Gilead, sobre o qual não sabemos uma linha. Um homem excêntrico, com uma esposa aparentemente perturbada e uma martha muito diferente das demais. A casa tem obras de arte por todo lado, há música e bagunça, muito diferente da mansão sombria dos Waterford.

Ele se recusa a consumar a cerimônia com Emily, há espanto na aia que não sabe o que está acontecendo naquela casa, não sabe como agir e sente que a qualquer momento algo muito diferente do habitual vai acontecer. Mas é a visita da Tia Lydia, no dia seguinte ao da cerimônia que não aconteceu que faz a aia colocar tudo pra fora.

Com a faca que estava mantendo sob a roupa desde o dia anterior, Emily sucumbe às provocações da velha, a apunhala pelas costas e a joga pelas escadas. São minutos acelerados de episódio em que a gente fica dividido entre o pavor do que pode acontecer com ela depois disso e o gozo de vê-la vingada. E sem que pudéssemos esperar, Joseph enfia Emily em um carro e eles partem enquanto ela não sabe lidar com a avalanche de emoções do que aconteceu e do que está por vir. Alexis Bledel, tantos anos escondida em Rory Gilmore e agora apresenta tudo isso, que incrível!

No ponto de fuga June espera, sem que pudéssemos ter pensado nisso começa a se despedir da pequena Nichole. Mostra uma foto de Hannah, fala da irmã. June não vai. Ela vai mandar o bebê por quem quer que apareça, ela não vai. Dito e feito.

Quando um carro encosta e dele saem Emily e Joseph, June os encontra e anuncia para a amiga a liberdade. É doloroso rememorar a trajetória de Emily até ali, ela merece escapar, ela tem que escapar.

O carro da fuga encosta, Emily avança pra dentro dele, June acomoda nos braços da amiga seu pequeno tesouro, dá adeus, a outra não entende e, por certo, uma boa parte da audiência também não. June não vai.

O levante das esposas mostrou à June que ninguém está a salvo em Gilead. E se seu coração havia ficado em paz quando Hannah disse que seus novos pais eram amorosos, o assassinato de Eden, mais a reação de Serena diante da Bílbia da menina, mais a mutilação mostraram à June que ninguém lutará pela sua primogênita como ela. E quando foram atrás da filha dela? E ainda que ela morra tentando, seu papel de mãe é o de permanecer ali e lutar pela menina. Condenar essa decisão da personagem é ignorar toda sua trajetória até aqui. Como ela viveria tendo fugido de Gilead com o bebê nos braços e deixando para trás a outra filha para ser mutilada pelo sistema?

Assim, se a primeira temporada terminou com a gente diante da tela se perguntando e agora? Dessa vez nos perguntamos como ela fará isso? Pois não há dúvidas de que June vai enfrentar o sistema e vai levar com ela a rede de Marthas, Serena, Nick e se duvidar, mais gente graúda, como Joseph.

The Handmaid’s Tale 2×13