No penúltimo episódio da temporada a trama central não avança, mas novamente temos uma boa dimensão do quão medieval é a República de Gilead. Quando Eden começou a dar atenção ao novo soldado da casa já sabíamos que nada de bom viria disso. No décimo episódio Nick flagra os dois se beijando no jardim e ela surta. Todos os sonhos religiosos da menina de se casar, ser amada, engravidar e constituir uma família Doriana são frustrados pelo marido que lhe arrumaram que só tem cuidados pela aia da casa. O que realmente faltava à Eden era coragem e foi o que ela encontrou em June.

Quando June diz à menina que é preciso agarrar-se onde há amor, floresceu dentro dela a esperança de que, ainda em pecado, ela pudesse realizar seus sonhos de mulher virtuosa*. Ali naquele contexto, onde a sociedade vive pela supranaturalidade, interpretando todos os acontecimentos como manifestação divina, bastou à menina duas palavras. É claro que daria errado pois se nem June com toda uma rede de suporte para fuga conseguiu, que dirá a menina inocente e seu soldado de no máximo uns 20 anos.

O desfecho da história da menina é Medieval, quando jogavam uma pessoa no rio, se boiar ela estava livre de pecado, se afundar foi porque deus quis. É claro que o processo em Gilead foi aperfeiçoado para que os pecadores não tivessem a menor chance. É importante observar a quantidade de pesos que havia na água, Eden não foi a primeira e não terá sido a última. Além disso, fica claro o quanto naquela sociedade é importante transformar toda punição em espetáculo. Não são apenas os corpos pendurados diante das casas ou no muro. Toda punição é um evento público.

Enquanto isso, Serena tenta ser uma mãe adequada para o seu bebê. Devido a epidemia de infertilidade, poucas crianças nascem e crescem há anos, isso também é parte da justificativa para o golpe de Estado que aconteceu. Dessa maneira, não existe mais uma rede de apoio às mães. Essas mulheres, como Serena e as demais esposas dos comandantes não acompanharam suas amigas grávidas, as vizinhas, as colegas de trabalho. Elas sabem muito pouco sobre maternar. O que justifica a reclamação de Rita: ela troca a roupa da Nicole a cada 10 minutos.

Dessa forma, Serena não sabe que ela poderia sim ter amamentado Nicole/Holly. Dar o peito não tem só a função de alimentar, mas também de criar vínculo. Além disso, o corpo feminino é uma máquina tão potente que é capaz de gerar leite nas mamas mesmo sem que a mulher tenha gestado e parido. A indução à lactação é uma técnica real e com bons resultados. E sim, é sofrida como quase toda amamentação. Me espanta que essa não seja uma técnica explorada em The Handmaid’s Tale, afinal justificaria o afastamento das aias de seus bebês recém paridos e daria às esposas uma aura de milagre do jeito que eles gostam.

Voltando ao caso da menina Eden, Serena foi confrontada mais uma vez com os horrores do sistema que ela ajudou a criar. A diferença é que agora ela tem uma filha, uma criança que vai crescer nesse sistema e, assim como a devota Eden, não estará livre das armadilhas que a vida prepara. Quem garante que a filha dos Waterford, educada dentro das mais rígidas leis de deus não cometerá pecados como Eden e, assim como ela, terminará boiando em uma piscina?

A primeira temporada se dedicou a nos apresentar June, sua vida antes do golpe, a nova realidade, a República de Gilead. Aparentemente a segunda temporada está preocupada em despertar empatia em Serena, em destruí-la por dentro, quebrar todas as suas crenças e coloca-la ao lado de June nas batalhas que a protagonista ainda vai travar contra o sistema.

Será?

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The Handmaid’s Tale 2×12