Acho que podemos chamar esse de o episódio do parto. No episódio passado eu tive essa sensação de que June ia acabar não conseguindo fugir. Aliás, quem não fica indignado com filmes e séries que os personagens diante da grande oportunidade de fugir ou revidar param para se olhar no espelho, escolhem melhor a roupa, resolvem rememorar um evento passado olhando pro nada. Pois é…

Além do nascimento da pequena Holly, esse episódio deixou bem mais às claras a realidade entre o casal Waterford. Que a situação estava insustentável nós todos já sabíamos. Mas foi a primeira vez que, tomada de ira (oi, pecado) Serena diz com todas as letras que abriu mão de tudo para ter um bebê e agora não tem nada. Para quem não lembra, a grande militância da Srª. Waterford era a favor da vida. Ela defendia que as mulheres dedicassem menos tempo ao trabalho e mais tempo à vida doméstica, se empenhassem em procriar e não abortassem (tem uns discursos desses no Brasil de 2019, né?).

Ela dedicou sua vida à essa causa. Nós vimos cenas dela e o marido rezando antes de transar para que pudessem ser abençoados com uma gravidez. Eu me pergunto qual o grande problema dessas pessoas em adotar uma criança. Afinal, se o seu desejo mais profundo é ser mãe, educar uma criança, há centenas delas sem mães e pais, desejando ser acolhida por uma família. Mas se o desejo é gerar ou satisfazer um capricho pessoal inspirado principalmente em fanatismo religioso, aí… Bom, aí que bom que ela realmente não teve um filho, pois criança nenhuma merece uma mãe e um pai desses.

E está lá o casal Waterford lavando a roupa suja enquanto June se esgueira naquela imensa mansão tentando não ser pega. Quando os dois saem sem sequer revistarem a casa com atenção, olharem a garagem eu desejei profundamente que June tivesse atirado neles, porque como disse Serena, ele é muito burro.

Eu entendo que June precisa voltar para Gilead para a história prosseguir, mas as cenas dela tentando arrebentar o portão da garagem foram terrivelmente forçadas. Difícil acreditar que o carro não teria derrubado o portão, podiam ter pensado em outra solução, paciência.

E então o processo do parto tem início. Entre as lembranças do nascimento de Hannah que ela acabou de perder novamente, June traz ao mundo a pequena Holly. Colocar o nome da mãe na menina é bastante significativo pois, Holly (a avó) dedicou a vida a enfrentar o fundamentalismo que insistia em avançar sobre o corpo e os direitos das mulheres. A pequena Holly nasce nesse mundo totalmente tomado pela ignorância religiosa, em que mulheres são cidadãos de segunda classe para servir e satisfazer os desejos masculinos.

Sinceramente não há muito o que dizer sobre o episódio, é um breve período de transição. Um pequeno sopro de liberdade para June. Poder parir sem aquele circo armado em Gilead pode ter sido gratificante e empoderador, mas agora ela e a pequena Holly serão levadas de volta “para casa”. Quais serão as consequências para June? E para Nick? E para o comandante?

PS: Achei uma linda opção do roteiro colocar June nua para dar à luz. Ela podia estar de roupa, de camisola? Podia. Como certamente aconteceria na pudica República de Gilead. Mas por que não estar nua em um ritual pelo qual as mulheres passam desde que o mundo existe? O corpo que gerou e pariu aquela criança continuará dando-lhe vida e a acolhe em toda sua plenitude, não há do que se envergonhar. Uma das poucas vezes em que vi a nudez feminina ser usada com qualidade em Hollywood.

The Handmaid’s Tale 2×11