Décimos episódios sempre são um marco, mas The Handmaid’s Tale elevou o conceito de marco a um novo nível. Aconteceu tanta coisa nesse episódio e tanta coisa importante e impactante que é preciso um tempo para digerir tudo. Por isso nunca coloco muita fé nos vídeos feitos logo em seguida dos episódios. O Conto da Aia não é uma série como as outras, cada episódio precisa ser digerido, precisamos pensar em cada nó que a trama ata ou desata e quais as consequências para June e os outros elos fracos dessa sociedade.

Cada episódio se propõe a levantar discussões que vão além de: será que o Nick faz as coisas por ela porque gosta dela ou ele realmente é contra o sistema. Não, as tramas supostamente amorosas são as menores discussões de The Handmaid’s Tale. A série é política e é assim que precisa ser pensada e, principalmente, tratada por quem se propõe a discutir a produção.

Para se ter uma ideia esse foi o primeiro episódio da série em que eu ri, ou melhor, gargalhei. A cara da Serena ao se deparar com uma June muito plena depois de constatar que as contrações eram alarme falso foi deliciosa, assim como o contido escárnio de Emily. E pior, toda aquela fantasia de Serena sendo deitada e aconchegada pelas outras mulheres, como se estivesse realmente parindo, quebrar aquilo tudo foi uma coisa absolutamente prazerosa.

Mas a República de Gilead é um jogo de poder e resistência. E nesse jogo quem pode mais infelizmente ainda é o comandante. Não apenas pelo alarme falso, mas também pela ousadia de June em fazer exigências e medir forças com Waterford ele a esposa decidem por um estupro corretivo. Não, não foi apenas uma forma natural de induzir o parto. Sexo ajuda a acelerar o parto quando a mulher chega lá nas vésperas de parir, o que aconteceu naquele quarto foi puramente a crueldade de um estupro corretivo, nascido da necessidade do comandante e sua esposa mostrarem quem é que manda, usando para isso a fé em um deus punitivo e vingativo.

Por isso mesmo sempre que alguém fala a favor da Serena eu tenho minhas ressalvas. Sim, ela também é uma vítima desse sistema machista e fundamentalista. Mas não podemos nos esquecer que esse sistema é, em boa parte, fruto da sua própria existência. Serena estudou, escreveu e lutou para que esse sistema nascesse e fosse colocado em execução nos Estados Unidos e dizer isso não é culpar a vítima. Mas pensar que sim, há mulheres que usam como escudo e arma suas crenças para deslegitimar a luta e existência de outras mulheres. E eu não sei como é que June ainda não tocou fogo naquela casa com todo mundo dentro.

E quando achamos que o pior que poderia acontecer era um estupro corretivo, eis que Waterford resolve colocar Hannah na jogada. Sinceramente não enxergo essa atitude dele como um momento de piedade de deixar June ver a menina. Pelo contrário, como bem lembrou Emily no mercado, ela não é mais a mãe do filho dela. Crianças têm um mundo pequenininho e são profundamente adaptáveis, apresentados a uma nova realidade com paciência e dedicação dos adultos rapidamente se encaixam nessa nova rotina. Não que mudanças como perder os pais, não vá afetá-los a logo prazo, vai sim, mas ali no imediato elas se adaptam.

Por isso mesmo, colocar June em contato com Hannah é mais uma forma de provar a ela que não há saída. A vida como ela conheceu não existe mais e não voltará a existir. Sua filha tem novos pais e, por mais que no fundo do coração sinta sua falta, há tanta vida por viver e coisas por descobrir que isso fica pra depois, sem contar a raiva que pode ficar de um suposto abandono, pois não se sabe qual foi a verdadeira história sobre June e Luke que Hannah ouviu. Então, essa foi apenas mais uma forma de Waterford deixar claro para a aia quem é que manda e que obedecer é a única alternativa.

Sem contar o quão cruel é com a criança que, ao começar a se acostumar com a sua nova realidade, seus novos pais, casa, escola, rever a mãe, abraça-la para depois dar adeus pra ela novamente, sem saber se voltará a vê-la. A criança fica presa nesse limbo de: devo amar esses meus novos pais ou devo acreditar que minha mãe vai voltar para me buscar? Hannah é uma criança e todas essas contradições que nós podemos pensar: ah não, ela tem que continuar amando a June, podem ferir profundamente a vidinha dela, June provavelmente não voltará a vê-la e a menina corre o risco de tornar-se apenas a sombra de uma espera que durará a vida inteira, e as marcas causada por essa dupla sensação de abandono não serão curadas jamais.

Acontece que em sua extensa tentativa de demonstração de poder, Waterford não calculou bem os riscos. Quando June e Nick saíram de casa ele alertou o motorista: não sejam vistos. Mas Nick foi capturado e levado junto com o carro. June está sozinha no meio nada, em um frio cortante e só quem sabe onde ela está é o comandante, que para satisfazer seu ego quebrou as regras novamente.

PS: Eu sei que Eden é só uma menina, mas, que menina chata! Esse seu flerte provavelmente custará a vida dela e se duvidar a do Nick também.

The Handmaid’s Tale 2×10