Eu sempre achei que o ditado “se você não pode com o seu inimigo junte-se a ele”, poderia ter duas interpretações. A primeira, e mais comum, é você se tornar como o seu inimigo até que se igualem e ficar por ali mesmo, tão mais fácil. A outra seria você tornar-se como ele, para poder entende-lo, conquistar a confiança dele como igual e a partir daí poder derrotá-lo.

Aparentemente June vacila entre essas duas correntes. Pode ser que quando a transgressora Serena pediu a sua ajuda, ela tenha aceitado apenas pensando em seu próprio benefício. Talvez para poder saber quais os próximos passos das autoridades em Gilead ou ainda, na esperança de poder rever a filha.

O fato é que no meio do caminho, como sempre acontece desde a primeira temporada, June é confrontada com os seus privilégios. Quando Janine diz a ela: vc está do lado deles, é como se uma chave virasse novamente na cabeça de June e ela instantaneamente se lembrasse de quem é e dos propósitos que tomou para si antes das ameaças da Tia Lydia no seu retorno.

Este episódio provavelmente marca um ponto de virada para Serena. O episódio passado aliás, já trouxe uma senhora Waterford percebendo que talvez as coisas tenham fugido um pouco do esperado. Mas é neste oitavo episódio que ela resolve assumir o protagonismo na política de Gilead, protagonismo aliás que ela sempre teve. Não podemos  nos esquecer que Serena, antes do golpe, foi uma voz forte, ecoante e incisiva a favor da submissão das mulheres, da superioridade dos homens e contra o feminismo.

Assim, esse episódio é aquele de dividir a audiência. Ver Serena apanhando do marido como uma criança que fez travessuras é uma cena tão violenta como tantas outras que já vimos em The Handmaid’s Tale. O homem que ela escolheu para estar ao seu lado e com quem ela pensou e elaborou essa nova doutrina que rege as vidas dessa República, usa suas ideias contra ela e neste ponto ela não tem o que fazer a não ser aceitar.

É o caso clássico do feitiço virar contra o feiticeiro, não é mesmo? Pode ser cruel falar desse jeito, e é claro que a surra de Serena causa comoção, cada vez que barulho do couro ecoava, doía em todas nós. Mas nada do que tem acontecido à Serena é estranho a tudo o que ela sempre pregou. A questão é que ela não pensou que todos os absurdos sobre submissão que ela vociferou a vida inteira poderiam se virar contra ela.

Serena acreditou firmemente que governaria ao lado do marido e não por trás dele. Ainda assim, em certa medida ela estava satisfeita em apenas estar atrás do marido, mas parece que o comandante Waterford se cansou de ouvir a esposa. E, como não é bobo nem nada, já percebeu a aliança que se anuncia entre a aia e a mulher e resolveu deixar claro quem é que manda.

E é neste ponto que a sagacidade de June vem à tona de novo, logo depois de demonstrar compaixão à Serena, oferecer-se para ajudar enquanto a outra juntava seus pedaços na privacidade do seu sofrimento, a aia se faz de sonsa e joga o jogo duplo daqueles que sabem que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, neste caso, o dela.

E é justamente essa June que nós queremos ver em cena, a que não se conforma com o seu destino, a que joga com o sistema com as armas que tem para poder, senão quebrar a roda, pelo menos travá-la uns instantes. É a dissimulação da aia dos Waterford que coloca a pequena Angela/Charlotte nos braços de Janine novamente. É sua capacidade de manipular os sentimentos de culpa que assolam as mulheres privilegiadas dessa nova sociedade que relembra a eles que a maior especialista em neonatologia daquele país é uma mulher NEGRA, que está desperdiçando todo o seu conhecimento e capacidade como Martha na casa de algum figurão poderoso.

Apesar do episódio estar focado em Serena e provavelmente marcar o seu grande despertar, também serve para relembrar a June quem é o verdadeiro inimigo (beijo, Katniss).

The Handmaid’s Tale 2×08